Saturday, July 31, 2010
Un je ne sais quoi
como dizer (?)
falta-lhes qualquer coisa, que
não sabendo nós explicar
é a mais importante das coisas: aquilo a que os franceses chamam de “um eu não sei o quê”.
É capaz, pois, que seja isso. Aliás, só pode, visto não haver outro nome para lhe dar. Era isso que Lara tinha
ou não tinha.
Até há bem pouco tempo a minha cabeça confundia conceitos, de tal modo que cheguei a pôr em causa coisas até aí incontestáveis.
A Lara era dona de um corpo soberbo. Fisicamente era irrepreensível. Inteligente, simpática… No entanto, havia nela qualquer coisa
melhor dizendo
não havia
nela
qualquer coisa.
A princípio questionava-me sem encontrar um porquê. Creio que o tempo que passámos juntos foi mais pelo gosto dos meus amigos que pelo meu próprio.
- Bem, ganda canhão, ó Rui!
e eu
objector de consciência por natureza
a perguntar-me se não estaria aí o problema
- … ganda canhão…
de maneira que quando a Lara
- Saímos hoje?
numa vozinha sensualíssima
(também isso jogava a seu favor)
eu a não ter outra resposta que
- Sim. Porque não!
na convicção estúpida dos indecisos
- … Porque não!
porque
a falta-lhe qualquer coisa
aquilo a que os franceses
“um eu não sei o quê”
que Lara tinha
ou não tinha.
Até há bem pouco tempo a minha cabeça confundia conceitos, de tal modo que
- Sim. Porque não!
e a acordar no Estoril, na manhã seguinte, num open space com vista para o mar, num enjoo de quem comeu molotofe a noite toda
um enjoo que parece saciedade
mas enjoo
saciedade zero
um encher de boca com algodão doce que
mal a língua
o céu da boca
puf
feito em nada
aparência apetitosa ante o olhar guloso de criança que pouco pegou no peito da mãe
(uma infecção não sei das quantas)
vai daí que o leite
uma aguadilha só
alimento zero
um soro vazio de nutrimento e afecto
de modo que eu
se um peitinho mais avolumado
a atirar-me ao chão da minha infância
carente
(a infância e eu)
a salivar como um cão russo ao toque de uma sineta.
Por isso, da primeira vez que a Lara
(o peito da Lara)
nos meus olhos
eu a achar que a mulher da minha vida, o peito devido da minha infância. Mas ao fim da primeira noite
um open space sobre o mar do Estoril
um enjoo de marinheiro
não pelo mar do Estoril
mas pelo molotofe
pelo corpo da Lara que
sabor nenhum
um vazio que nem a magnificência do peito conseguiu encher
a perguntar para mim mesmo diante do Atlântico
do mar do Estoril
varanda aberta sobre um infinito de azul
- O que é que foi isto?
e uma vontade de sair de mansinho sem dizer nada
de lhe pedir desculpa
(melhor seria)
uma vontade de lhe dizer
(com a mão a coçar a nuca. Tenho a certeza que com a mão a coçar a nuca)
- Não sei qual é a tua ideia em relação a isto…
(a isto?!)
- … mas…
…
e a Lara a acordar, a espreguiçar-se nua, a sorrir de satisfeita com o Mar do Estoril a incendiar o quarto com o reflexo do dia
o corpo dourado
soberbo
irrepreensível
num contorcer de lençóis realizados
- Bom dia!
pés de dedos perfeitos, num esticar de gata feliz.
- Bom dia!
a levantar-se da cama
nua
pés perfeitos
os joelhos
os ossos das ancas
a púbis loura
soberbo
o corpo
irrepreensível
olhos verdes
fios de ouro pelos ombros abaixo
almofadinhas no lugar dos lábios
e um peito…
- Bom dia!
na minha direcção
varanda aberta sobre um infinito de azul
onde a brisa fresca da manhã no seu corpo inteiro
descalço até à alma
de mamilos livres a provocar o vento
a dar-me um beijo
- Bom dia!
almofadinhas no lugar dos lábios
o hálito morno do sono
e dois casulos de seda a tocar-me o peito
livres
a provocar o vento
o mar do Estoril
-Bom dia!
A manhã do mundo inteira e fresca nas minhas narinas
a cabeça confusa
numa neblina a lembrar São Pedro de Moel
a Nazaré de D. Fuas
enjoo e vertigem…
e a voz da Lara
(também isso jogava a seu favor)
qualquer coisa que não me consigo recordar
a afastar-se
para já ali
polibã transparente com vista para o quarto
para o mar do Estoril
varanda aberta sobre um infinito de azul
de dúvidas
a pôr em causa coisas até aí incontestáveis…
a puxar-me
não sei como
a puxar-me
para já ali
polibã transparente
e a ensaboar-me as dúvidas
debaixo de um aguaceiro sobre o Oceano imenso
a gerar, no silêncio de uma mão a coçar a nuca, uma inquietação que não se disse
- Não sei qual é a tua ideia em relação a isto…
E a repetir-se a noite, a madrugada e a manhã ao longo do dia
e as dúvidas todas
um mar delas maior que o do Estoril
que o Atlântico inteiro
a naufragar-me as certezas
uma trás outra
como um malmequer de espuma
serei gay?
não serei gay?
(Que estupidez tão grande!)
e a repetir-se a noite, a madrugada e a manhã, o dia todo nessa mesma noite, na noite seguinte
a esforçar-me para me manter concentrado
a parecer cumprir o papel sem a menor das repreensões
visto a Lara
sorrisos nos olhos
de manhã sobre o mar
mais reservada no passar dos dias
camisolinha de alças
mais provocadora, talvez
algodão branco cobrindo casulos de seda
((como o polibã transparente)
(cobrindo coisa nenhuma))
camisolinha de alças
a provocar o vento
- Bom dia!
dia trás dia
- Bom dia!
para o mar do Estoril
inchado de ondas
o Atlântico todo posto de pé
visto a Lara
ou os casulos de seda
- Bom dia!
dia trás dia
até que uma noite
às escuras
(nem uma fresta de estores)
o sono
como um molotofe
puf
feito em nada
a procurá-la com o faro, como os bichos, a fungar no vazio do Universo inodoro
à procura daquele corpo que
já ali
e…
puf
um molotofe
polibã transparente
nada!
Foi então que compreendi o “…não sei o quê” a que os franceses chamam àquilo que a Lara não tinha. Faltava-lhe cheiro. Era inodora como água destilada. Nem um só aroma. Nada. Suada, por suar, ao adormecer, ao acordar…
rigorosamente inodora
uma Jeanne-Baptiste Grenouille da Penthouse. Nem o cheiro da cama, do sono, do perfume que apenas na roupa que vestia, como se a pele rejeitasse artificialidades.
Curioso como o cheiro pode tanto. Quando regressámos a Lisboa disse-lhe que não me sentia bem na relação
(que não era relação nenhuma, mas…)
que andava confuso
que tinha receio de me envolver…
(as desculpas do costume)
A Lara não entendeu.
Uma mulher nunca entende que um homem
- Não me sinto bem na relação.
(que não era relação nenhuma, mas…)
- Ando confuso.
- … receio de me envolver.
(as desculpas do costume)
não entendeu
a Lara
nem os meus amigos, quando eu
- Faltava-lhe qualquer coisa.
porque impossível de explicar a um grupo de homens que deixara uma mulher daquelas por não ter cheiro. Por isso, a dizer apenas
- Faltava-lhe qualquer coisa.
- Faltava-lhe o quê, pá?!
e eu
impossível de explicar a um grupo de homens que
o cheiro
a dizer apenas
- Aquilo que os franceses chamam de Un je ne sais quoi.
Wednesday, June 30, 2010
Plataforma de embarque
na época em que as pessoas apenas pernas
e uma voz
lá em cima
a lembrar deuses
e eu
pela mão nervosa da minha mãe, na plataforma de embarque de Santa Apolónia, com a voz do meu pai
muito para lá das pernas
a recomendar
- Porta-te bem rapazão!
e eu
que não era rapazão
a dizer que sim com a cabeça
não a dizer
- Sim.
apenas com a cabeça
porque a voz atabalhoada talvez não chegasse lá acima
(que a voz dos pequenos, como a dos burros, nunca chega ao céu)
é ver o caso da avó Maria, a rezar baixinho pela sorte dos filhos e dos netos que
- … pouca sorte.
e quando é pouca
dizia
- … mais vale nenhuma!
de modo que
sim com a cabeça
não a dizer
…
apenas com a cabeça
onde uma mão
de Deus
do meu pai
(naquela idade, uma e a mesma coisa)
a repetir
porque nunca é demais um aviso
- Porta-te bem rapazão!
A mesma mão que depois na barriga da minha mãe, antes do beijo na face
que naquele tempo a boca apenas para comer e falar
(pouco de cada)
pois nem para rezar a Deus se precisava de abri-la. Apesar da avó Maria de gengivas polidas
a mastigar orações, duras, como côdeas, que é com pão que se comunga à mesa de Deus e não com as rodelinhas de Farinha Amparo, que o padre Simeão
- Corpo de Cristo.
“Corpo de Cristo uma ova! Farinha Amparo, ou pensa que me engana!?” e
apesar de não precisar
a boca da avó Maria lá ia macerando as palavras, as côdeas, o corpo do Senhor
- … assim na Terra como no Céu…
de gengivas polidas
num “nham, nham” suplicante
pela sorte dos filhos e dos netos que
- … pouca sorte.
e quando é pouca…
(já se sabe)
num “nham, nham” suplicante
como a boca da minha mãe por um beijo que
na face
que naquele tempo os beijos na boca reservavam-se à intimidade do quarto
(se por ventura alguma intimidade no quarto)
pois como na oração da avó Maria
pela sorte dos filhos e dos netos que
- …não nos deixeis
Senhor
- …cair em tentação…
De modo que
uma mão na cabeça
um beijo na face
e umas costas enormes a afastarem-se de nós. Não o meu pai
umas costas enormes
a diminuírem na plataforma de embarque de Santa Apolónia
até quase ao meu tamanho
o meu pai
ou as costas
quase do meu tamanho
cabeça e tronco
um pouco mais do que umas pernas
um homem
o meu pai, um homem
deus algum
um homem
a apequenar-se
a apequenar-se
(que à distância todos os gigantes são pequenos; todos os deuses são mundanos)
a afastar-se
de nós
cada vez mais pequeno
duas malas
pouco pai já
já não duas pernas
duas malas
um sobretudo
a caminho do comboio, a caminho de
- Paris de França, filho.
a minha mãe a responder à pergunta de “para onde” “o pai”
como se
- Paris de França…
Póvoa de Santo Adrião
para onde, dali a pouco
a camioneta
que naquele tempo
autocarro
como beijo na boca
não se usava.
- Paris de França, filho.
numa voz tremida
a lembrar-me a avó Maria
…orações polidas, a mastigar gengivas, duras, côdeas de Deus, não rodelinhas de Farinha Amparo
- … o pão-nosso de cada dia …
que é com pão que se comunga à mesa do Senhor, padre Simeão!
voz tremida
na plataforma de embarque de Santa Apolónia
- Paris de França, filho.
como se
- Paris de França…
Póvoa de Santo Adrião
para onde, dali a pouco…
Lembro-me como se fosse hoje. Uma floresta de gente, de um lado para o outro
a minha mãe
na plataforma de embarque de Santa Apolónia
uma mão no ar a despedir-se de um par de malas
de um sobretudo
de si mesma
na mala do meu pai
numa moldura foleira
(a própria palavra - foleira)
uma mão no ar
a outra a segurar a barriga, a minha irmã Cristina
que eu
(um rapazão)
a não precisar já que me segurassem a mãozinha
a mão, corrijo
onde tantos dedos quantos o anos que tinha
fácil a conta quando me perguntavam
- Quantos anos tens tu?
logo muito pronto, de mãozinha no ar
mão, corrijo
logo muito pronto
num juramento solene
- Estes.
de mão no ar
como a minha mãe na plataforma de embarque de Santa Apolónia
uma mão cheia
de anos
de tristeza
de adeus
e por isso
quando seis, já
ainda a levantar uma mão apenas. Para quê complicar as coisas quando, a partir de certa altura, uma mão cheia diz tudo?
anos
tristeza
adeus…
…para quê complicar as coisas…?
uma mão apenas
no ar
cheia
vazia
cheia de vazio
outra forma de dizê-lo
adeus…
apenas uma
… para quê complicar…?
a outra, na barriga
enorme
sete meses
para que a minha irmã não chorasse
pois (para quem não sabe) os bebés choram na barriga das mães. E quando a placenta já lhes não contém o peso das lágrimas, vêm chorar cá para fora, que há mais espaço para o lamento. Se calhar por isso a Cristina a nascer de oito meses, pois as lágrimas da minha mãe a irem-lhe pela goela abaixo juntar-se às suas, que nos olhos, uma lentura apenas .
E nisto um
Tuu-Tuu
ou eu a achar que um
Tuu-Tuu
a pôr o comboio em marcha
- Paris de França…
Mil cabeças à janela…
- Qual é o pai, mãe?
E uma lágrima a transbordar da placenta para os lábios sumidos, que agora, sim, era a sério
Tuu-Tuu
- Qual é o pai, mãe?
a não alcançar resposta
porque a voz atabalhoada talvez não chegasse lá acima
(que a voz dos pequenos…)
o caso da avó Maria
a não alcançar resposta
- … assim na Terra como no Céu…
- Qual é o pai, mãe?
a não alcançar resposta
mil cabeças à janela
e um alarido de braços no ar a despedirem-se do meu pai
da minha mãe
na mala
numa moldura foleira
(a própria palavra…)
a caminho de França
há cinquenta e três anos
como se fosse hoje
a última vez que
- …rapazão!
na plataforma de embarque de Santa Apolónia
uma floresta de gente
pernas e vozes
braços no ar
a despedirem-se
do meu pai
para sempre
(…)
para sempre
para sempre
para sempre
Tuu-Tuu…
Tuesday, October 27, 2009
Palavras
suado do esforço para arrancar de mim um suspiro de gozo
a dizer que me ama
- Amo-te…
sem emoção
- Amo-te…
um bigode
num arquejo
suado
- Amo-te…
a dizer que me ama
um bigode cheirando a cinzeiro
a dizer que me ama
como se um bigode
cheirando a cinzeiro
capaz de amar alguém
- Amo-te, Margarida.
como a minha mãe
- … Margarida…
sem emoção
a quem o meu pai nunca dissera amar
- O teu pai nunca disse que me amava.
e por isso eu a dever sentir-me satisfeita, pois ao menos tu
o teu bigode
apesar do porquê
daqueles três suspiros ridículos que os homens soltam no fim de quebrarem
- Amo-te, Margarida.
a dever sentir-me satisfeita
visto o meu pai
nunca
- Amo-te...
sem emoção, que fosse
- Amo-te...
uma vez na vida
- Amo-te…
nunca
nem sequer depois dos suspiros
ridículos
que os homens
ridículos
no fim de quebrarem
a dever sentir-me satisfeita
porque tu
o teu bigode
apesar do porquê
emoção ou não
- Amo-te, Margarida.
- … Margarina.
- … Catrapiler.
- … Regisconta.
- … Rais ta partam.
como todos os homens
ridículos
depois dos três suspiros
- Amo-te…
Mas não. Não sinto. Da mesma forma que não sinto tu a suspirares para dentro de mim. Sequer tu, dentro de mim. Não sinto, não sinto, não sinto…
ao contrário da voz da minha mãe
no meu estômago
como um arrepio
- Tu nunca te satisfazes com nada!
e uma vontade de responder
Com nada, mãe?
Um bigode cheirando a cinzeiro, mãe?
Um bigode que
- Ah! Ah! Ah!
trisuspirando
como quem
“minha machadinha”
quase sem folgo, como um rato desancado à vassourada
- Amo-te, Margarida.
só porque…
- Ah! Ah! Ah!
dentro de mim, mãe!?
É, mãe?
Nunca me satisfaço com nada, mãe?
Só porque o pai nunca
- Amo-te, Ricardina.
uma vez na vida
- Amo-te, Ricardina.
nem sequer depois dos suspiros
- Amo-te, Ricardina.
devo dar graças a Deus por o Manel
- Amo-te, Margarida.
(?)
É, mãe?
Só porque nunca um estalo, eu a dever graças a Deus?
É, mãe?
Nunca me satisfaço com nada!?
Acha, mãe? Com nada?
Um rato cheirando a cinzeiro, mãe!? Babado! Como se em vez da vassourada, a boca de um gato. Babado, mãe! Babado!
Como é que uma mulher se satisfaz com um rato babado cheirando a cinzeiro, mãe? Como, mãe? Como?
Nunca um carinho, um abraço, um jantar fora, uma flor. Peidos debaixo dos lençóis, mãe! Que eu há noites mal prego olho de tanto sonho por cumprir.
- Tu nunca te satisfazes com nada!
Nos pés, cascas de mexilhões nascendo dos dedos
e se eu
- Ó Manel, corta as unhas!
logo o Manel
- Andas muito fina, tu!
só porque eu
- Ó Manel, corta as unhas!
Nunca me satisfaço com nada, mãe?
Um bigode amarelo cheirando a cinzeiro. Não tinha dito? Digo agora. Amarelo. Como é que se geme debaixo de um bigode amarelo cheirando a cinzeiro senão de sofrimento, mãe? Como, mãe?
É pedir muito, um carinho, um abraço, um jantar fora, uma flor… unhas em vez de cascas, ar puro debaixo dos lençóis? É, mãe? Só porque
“- Amo-te”
depois de três suspiros
ridículos
dentro de mim?
As palavras não são tudo, mãe
Manel
(!)
Há os gestos, a ausência deles
que um
- Amo-te!
depois de um homem suspirar três vezes vale tanto como a confissão de um torturado
Mentira! Mentira! Mentira! Eu sei que é mentira, mãe!
“Amo-te”, coisa nenhuma
um desabafo
um suspiro diferente de “Ah!”
o mesmo que nada
o silêncio do pai depois de quebrar…
Nunca um carinho, um abraço, um jantar fora, uma flor. Peidos debaixo dos lençóis, mãe! Que eu há noites mal prego olho de tanto sonho por cumprir.
Mentira! Mentira! Mentira!
como
- Ah! Ah! Ah!
(minha machadinha)
e no mesmo fôlego
- Amo-te, Margarida.
naquele ínfimo instante em que um homem crê no amor como um condenado em Deus à hora da morte
mas que passa rápido
um calor que se perde depressa
porque o amor de um homem arrefece rápido, como o que deles nos sobra no transpirado das coxas
(não é mãe?)
rápido
frio
como
- Ah! Ah! Ah!
(minha machadinha)
desconfortável
um bafo, um bigode, um homem que não me lembro bem de onde veio
- De onde veio, mãe?
desconfortável
como o bafo do teu ressonar no meu pescoço.
Tenho nojo dele, mãe.
Nojo de ti, Manel.
E tão mais nojo de mim!
…tão mais nojo de mim…
neste desespero que grito para dentro
como os gemidos de sofrimento provocados pelo embate seco de um corpo estranho contra o ventre
(um corpo que não me lembro bem de onde veio
- De onde veio, mãe?)
até que
- Ah! Ah! Ah!
até que
- Amo-te, Margarida
até que
umas costas a roncarem para o meio da cama
umas costas que não me lembro bem de onde vieram.
- De onde vieram, mãe?
E eu cansada de fingir!
Não finjo mais, não finjo mais, não finjo mais…
tanto lhe dá
já perdi a conta aos anos que
tanto lhe dá
é por mim
é por mim que não finjo mais
que uma mulher não finge para o homem, mas para si mesma. Sei-o agora.
Portanto
não finjo mais
cansada de ali estar
como não estando
embora estado
sem que ali esteja
ou houvesse um dia
ali, como noutro lado qualquer, vazia contigo dentro,
vazia
contigo dentro
num gelar peganhento
até que
umas costas
que não me lembro bem de onde vieram.
a roncarem para o meio da cama
satisfeitas
suadas do esforço para arrancarem de mim um suspiro de gozo
depois de dizerem que me amam
- Amo-te, Margarida.
sem emoção
que para as costas
como para os bigodes
as palavras não custam nada
nada.
Não é mentira
Amo o Rui, amo o Rui, amo o Rui…
Somos felizes.
Somos felizes, sim. Somos felizes.
Mas há uns dias que
no trabalho
o Simão…
Nem sei o que estou para aqui a dizer! Desabafos.
Amo o Rui.
Amo, sim. E somos felizes. É querido, é amigo, é companheiro, damo-nos bem na cama... Sim, damo-nos bem na cama. Mas há uns dias que
no trabalho
o Simão…
A verdade é que penso nele. Não gosto dele. Isso tenho a certeza.
Amo o Rui.
Mas a verdade é que
penso nele.
É desinteressado. Tem um olhar vago de quem não está nem aí para o mundo. Não dá confiança, mas sorri e é simpático. Há qualquer coisa que
os meus olhos
há qualquer coisa que puxa os meus olhos para ele.
Lá no escritório anda tudo doido. Só mulheres
e o Simão.
o Simão…
Lá no escritório anda tudo doido…
É bonito. Mas não é por isso. Tem um olhar vago de quem não está nem aí para o mundo. É desinteressado. Ou desperta interesse, que talvez seja o mesmo.
Nem sei o que estou para aqui a dizer! Desabafos.
Amo o Rui.
… damo-nos bem…
ainda ontem à noite, o Rui
na cama…
O Rui sempre me procurou. É quase sempre o Rui que me procura.
Amo o Rui, amo o Rui, amo o Rui…
quase sempre o Rui que me procura.
Gosto que o Rui me procure. Se calhar para me sentir mais desejada, ou por alguma coisa que está no meu genoma de fêmea
talvez seja o mesmo
talvez outra coisa qualquer na qual nunca parei para pensar.
Pensar para quê?
Amo o Rui.
Amo, sim. E somos felizes. É querido, é amigo, é companheiro, damo-nos bem na cama... Sim, damo-nos bem na cama. Mas há uns dias que
no trabalho
o Simão…
A verdade é que penso nele. Não gosto dele. Isso tenho a certeza.
Amo o Rui.
Mas a verdade é que…
É quase sempre o Rui que me procura.
Como ontem à noite
na cama
a mão do Rui, as minhas pernas, um arrepio, uma vontadinha
nunca é logo uma vontade
uma vontadinha
a mão do Rui
a boca
o meu pescoço, um arrepio
e a pouca luz do quarto a projectar na minha pele outra mão, outra boca
nas minhas pernas
no meu pescoço
outra mão
a pouca luz do quarto
outra mão
sim
não
sim
não
sim
mão
sim
mão
o Rui
o Rui
o Rui
amo o Rui
mas na minha cabeça
não sei porquê
Simão…
Não gosto dele. Isso tenho a certeza.
Mas…
um olhar vago
desinteressado…
Não gosto dele… certeza
amo o Rui
mas a verdade é que
penso nele.
Fizemos amor
eu e o Rui
sempre carinhoso comigo
nada a dizer
não é perfeito
ninguém o é
(detesto a expressão)
mas
nada a dizer.
Fizemos amor
o Rui
e no fim
o Rui
- Foi bom! Não foi?
e eu
- Foi. Foi óptimo.
eu que não estive bem ali
não me lembro de ter estado bem ali
de ter sentido bem as coisas.
Há dias do mês em que as mulheres não sentem tão bem as coisas.
Há dias do mês em que as mulheres não sentem tão bem as coisas.
Há dias do mês em que as mulheres não sentem tão bem as coisas.
Amo o Rui.
Amo o Rui.
Amo o Rui…
não é uma busca de verdade pela repetição da mentira.
Não é mentira.
Não é mentira.
Não é mentira.
Talvez outra coisa qualquer na qual nunca parei para pensar.
Pensar para quê?
Amo o Rui.
Amo, sim. E somos felizes. É querido, é amigo, é companheiro, damo-nos bem…
ainda ontem à noite…
- …Foi óptimo.
apesar de eu não ter sentido bem as coisas
Há dias do mês em que as mulheres não sentem tão bem as coisas.
como ontem
não é mentira
- …Foi óptimo.
ou pelo menos
- …bom!
como disse o Rui.
Há dias do mês em que as mulheres…
não sei porquê
nunca parei para pensar.
Pensar para quê?
Amo o Rui
somos felizes
apesar de há uns dias que
no trabalho
na minha cabeça
não sei porquê...
um olhar vago
desinteressado
não sei porquê
nunca parei para pensar…
Pensar para quê?
Não gosto dele… tenho a certeza.
Amo o Rui.
Amo o Rui.
Amo o Rui…
Amo o Rui, Simão. Entendes? Amo o Rui.
Monday, October 05, 2009
Então não se vê logo?
ou nos meus olhos a olharem os olhos dela
(que nestas coisas nunca se sabe muito bem)
que desafiava em mim uma paternidade desconhecida.
Era triste
o olhar
dela
ou o meu olhar para ela
(que nestas coisas…)
a provocar em mim uma vontade irresistível de abraçá-la
ou de abraçar-me a ela
(…nunca se sabe muito bem).
Trabalhava
ela
num cafezito de esquina, para os lados da Av. da Igreja
não na Av. da Igreja
para os lados
onde eu costumava parar ao fim da tarde.
Nunca lhe conhecera um sorriso
Não diria antipática
apenas
nunca lhe conhecera um sorriso.
Até ao dia em que, com um guardanapo, fiz uma coisa esquisita e, quando veio à mesa com a bica do costume, lhe passei para as mãos num
- Tome.
Ficou a olhar aquilo. A tentar, como eu, encontrar algum sentido para além de
- Tome.
mas porque sentido nenhum, por mais que a imaginação
é um gato pardo
um boi almiscarado
uma bobina de indução termoeléctrica
(se imaginasse o que isso fosse)
a perguntar
- O que é isto?
num alçar de sobrancelhas
arcos finos, cinzelados à pinça
reveladoras, só por isso, de alguma esperança na viva; na sorte; em algo que seja
chamem-lhe fado os mal fadados
(que nestas coisas nunca se sabe muito bem)
- O que é isto?
(pronuncia perfeita)
e eu
com a maior das obviedades
- É uma cegonha! Então não se vê logo?
porque não me lembrei
(e se lembrasse também não o diria)
- É uma vontade irresistível de abraçá-la.
ou de
- Abraçar-me a si.
(que nestas coisas…)
Por isso
não podendo dizer outra coisa
já que nem gato pardo, nem boi almiscarado
uma vontade termoeléctrica de bobinar-me em si
de a bobinar em mim
uma vontade termoeléctrica
uma bobina de indução
a dizer
- É uma cegonha! Então não se vê logo?
E um rir a não se lhe segurar aos lábios.
Não há como uma mulher de olhos tristes apanhada desprevenida pela graça.
Riu. Levou a mão à boca, onde um dente de ouro brilhava menos que os seus olhos
ou os meus olhos a olharem os olhos dela
(que nestas coisas nunca se sabe muito bem)
infantis
os meus olhos
os dela
a provocar em mim uma vontade irresistível de levá-la dali, pegá-la ao colo, aninhá-la em mim, encostar-lhe a cabeça ao peito e dizer
- Vai tudo correr bem.
como se alguma coisa me dissesse
os seus olhos, talvez
os meus a olharem os dela
que a vida não está fácil
os seus olhos, talvez
os meus a olharem os dela
a provocar em mim uma vontade irresistível de levá-la dali
de ser eu também criança aninhada ao colo
(que nestas coisas…)
o colo que se dá é o colo que se recebe.
Riu. Agradeceu sem jeito o objecto sem jeito
(pronuncia perfeita)
cegonha alguma
coisa alguma
(bobina de indução termoeléctrica)
apenas
- …uma vontade irresistível de abraçá-la.
ou de
- Abraçar-me a si.
(…nunca se sabe…)
pois não podia dizer outra coisa
já que nem gato pardo, nem boi almiscarado
apenas
- É uma cegonha! Então não se vê logo?
Quando saí, tornou a sorrir. Um troco em forma de dentes à mostra
(afinal eram dois
os de ouro)
De modo que na tarde seguinte
e na seguinte à seguinte
um sorriso ao chegar, outro com o café, e outro ao sair. Como uma prescrição médica. E eu a pensar que
um dia destes
não hoje
um dia destes
que um homem na minha idade
apesar de não acusar os anos
(sessenta e oito no fim do mês)
reformado e viúvo
tem o seu quê de timidez
mas um dia destes
eu a pensar
não hoje
um dia destes
convido-a para sair. Porque não? Dois anéis nos dedos. Aliança alguma. Dois anéis. Aliança alguma. De modo que
Porque não?
um homem na minha idade
reformado e viúvo
Porque não?
Uma companhia é uma companhia. E depois deixava-lhe tudo, que nem filhos nem sobrinhos.
Aninhá-la em mim
aninhar-me nela
que um homem na minha idade
…
abraçá-la
abraçar-me a ela
juntar duas vidas num viver só
até ao dia que Deus quiser
e depois…
e depois deixar-lhe tudo
cegonhas de papel
um apartamento na avenida do Brasil
a continha do banco
o pecúlio de uma vida de pouca coisa, mas séria
deixar-lhe tudo
de modo a ela
ainda nova
ficar assegurada
que a vida não está fácil
e parece-me que não vai estar nunca.
Sunday, October 04, 2009
Nome: Vida / Apelido: Ironia do Caralho
- Ah e tal, matou a mulher… Era passar o resto da vida lá dentro!
Como se diferença alguma entre oito anos e o resto da vida.
Sabem lá vocês…
onde fica o fim da vida. A vida nem sempre termina na morte. Há vidas que nunca chegam a arrancar, apesar dos cadáveres
no topo de uma mesa
com um bolo à frente
enfeitado de velas
e um rebanho de ovelhas a balir desafinadas
(porque nunca se cantam parabéns afinados)
a bater os casquinhos no fim
por mais um ano de morte viva.
Sabem lá vocês…
o que é roer cadeia.
Só homens
tudo ao monte
tudo áspero
como uma barda de dois dias
lençóis de pano cru
as mãos de um trolha…
que na cadeia não há cremes
nem sabonete líquido
(sabonete líquido é outra coisa)
há sabão
duro
cheio de pêlos
escorregadio
como as enguias que
mal damos por elas
- Pst!
mal damos por elas
- Apanha aí.
e o jeito é só um.
Sabem lá vocês o que é amar a Deus de cu para o ar!
Um azar na vida. Um copo a mais, uma discussão fora de horas, um estalo sem memória, uma força mal medida e
- …matou a mulher… Era passar o resto da vida lá dentro!
Um cadáver no chão, um fio de sangue no tapete branco da sala, na quina da mesa de mármore…
Tantas vezes que a Zaida
- Cuidado com tapete, Zé Pedro!
- Ainda hás-de sujar o tapete, Zé Pedro!
- O tapete, Zé Pedro!
Tantas vezes que a Zaida
- … Zé Pedro!
mais a porcaria do tapete. Tantas vezes que…
um copo fora de horas
estalo mal medido
azar
uma discussão sem memória
força a mais
e a vida
um fio de sangue no tapete branco da sala
que o apelido da Vida é Ironia do Caralho.
Tantas vezes que a Zaida
- É só mulheres!
desconfiada
com razão
desconfiada, ainda assim
- É só mulheres!
a Zaida
mal poderia imaginar que agora
o apelido da vida
só homens
tudo ao monte
tudo áspero
como uma barda de dois dias
lençóis de pano cru
as mãos de um trolha…
que na cadeia não há cremes
nem sabonete líquido
(sabonete líquido é outra coisa)
há sabão
duro
cheio de pêlos
escorregadio
como as enguias que
mal damos por elas
- Pst!
mal damos por elas
- Apanha aí.
e o jeito é só um.
Sabem lá vocês o que é amar a Deus de cu para o ar!
- É só mulheres!
a Zaida
- É só mulheres!
É só mulheres!?
O último apelido da vida é que é só mulheres!
Só homens!
Só homens, Zaida!
Só homens…
Tudo ao monte
tudo áspero
como uma barda de dois dias
lençóis de pano cru
as mãos de um trolha
que
mal damos por elas
- Pst!
mal damos por elas
- Apanha aí.
Ironia do Caralho
é esse o apelido da vida
vida que
nem sempre termina na morte
como a da Zaida
um fio de sangue
na minha cabeça para o resto dos meus dias
um fio de sangue
e uma vontade de gritar
- Cuidado com o tapete!
Sempre que um fio do sangue
do nariz
do canto da boca
de entre as pernas, no primeiro dia em que
- Pst!
uma vontade de gritar
no primeiro dia em que
- Apanha aí.
uma vontade de gritar
que na cadeia não há cremes
nem sabonete líquido
…
sabão duro
cheio de pêlos
escorregadio
como o chão da sala
apesar do tapete
onde a Zaida
- … Zé Pedro!
um fio de sangue
para o resto dos meus dias
que oito anos, ou o resto da vida, vai dar no mesmo
como vai dar no mesmo
Vida, ou Ironia do Caralho.
Tuesday, September 01, 2009
Amor em coma
(porque parecia mal não o visitarmos)
embora ele, nem ali para nós
para a vida
para coisíssima nenhuma
(como sempre se queixou a tua mãe)
ligado ao ventilador
em coma profundo
esperança alguma
(pois quem está morto não tem esperança)
apesar do ventilador garantir
- Garanto!
a insuflar
a desinsuflar
- Garanto!
estar vivo.
Hoje
à saída do hospital
quando demos as mãos
(não sei que mão procurou que mão)
(se ambas)
(sequer se foi uma mão aquilo que procurou aquilo que procurou a mão)
(ou ambas)
hoje
quando demos as mãos
senti que não nos… qualquer coisa… há muito tempo
o amor em coma
esperança alguma
porque o que está morto
como quem está morto
não tem esperança
apesar do ventilador
das mãos
a insuflar(em)
a desinsuflar(em)
dois sapos húmidos, corações esverdeados pelo bolor dos dias
feitos o do teu pai que
de repente
rebentou com um cigarro na boca
pum
morto
como quando em criança no quintal da tia Amélia com o Jorge e o Fernando
- Abre-lhe a boca, pá!
ao coração
ao sapo
- Abre-lhe a boca, pá!
um cigarro
conquistado às escondidas numa gaveta da sala
e era vê-lo insuflar
insuflar
insuflar
como o coração do teu pai
pum
morto
como o nosso amor
(se é que algum dia)
amor
pum
morto
apesar do ventilador
arreliado, já
- Garanto! Já disse! Garanto!
estar vivo
morto
a ganhar cheiro
como uma casca de banana que nos caiu da mão para trás do sofá num serão qualquer, algures no tempo, e por lá ficou
a ganhar cheiro
apodrecendo num canto
como o teu pai.
Hoje
à saída do hospital
quando demos as mãos
(ou estas se deram)
uma sensação
qualquer coisa
uma sensação
em jeito de quem acordasse de um coma profundo
como se a tua mão
a minha mão
pás eléctricas de um desfibrilhador
num choque violento, ao menor contacto, arrancando-me, por instantes, ao coma, trazendo-me à cabeça
ao coração
à cabeça
a qualquer coisa
um sofá
algures no tempo
há muito tempo
uma casca de banana a cair-nos da mão.
Demos as mãos. Não demos mais nada. E seguimos de mão dada, calados, que faz muito tempo dissemos tudo.
Seguimos
calados
faz muito tempo
dissemos tudo
e por isso
não demos mais nada
e seguimos
calados
cada qual na sua vida privada
como quando nos juntamos para a cópula a que depois de eu me vir chamamos amor
mas amor nenhum
casca de banana apodrecida atrás do sofá
amor nenhum
vida nenhuma no teu pai
apesar do ventilador garantir
- Garanto!
a insuflar
a desinsuflar
- Garanto!
arreliado, já
- Garanto! Já disse! Garanto!
estar vivo.
Do mesmo modo que garantiria estar vivo o nosso amor só porque uma descarga de mãos nos fez estremecer o miocárdio
(acho que a ti também).
Mas não. Amor nenhum, vida nenhuma
casca de banana, apenas
apodrecida
atrás do sofá
pois uma descarga eléctrica não significa nada
como um dar as mãos
uns lábios mortos que encostamos por encostar quando nos juntamos para a cópula a que depois de eu…
não significa nada.
Uma descarga eléctrica. O que é que tem de especial? Uma descarga eléctrica
um formigueiro
é isso
um formigueiro que nos engana
nos ilude os sentidos
nos faz crer que o nosso amor
(o nosso amor!?
que seja!)
nos faz crer que o nosso amor
ainda vivo
como o teu pai
ligado às máquinas
por certo um formigueiro igual
mas vida nenhuma
uma questão de dias
(que a vida não é senão uma questão de dias)
mais dia, menos dia
pum
como um sapo de cigarro na boca
- Abre-lhe a boca, pá!
igual a
- Garanto!
e nem o teu pai
nem o sapo do quintal da tia Amélia
nem o nosso amor
(que seja!)
nem o nosso amor
vida alguma, já
que insuflar e desinsuflar não basta para estar vivo.
E seguimos
calados
faz muito tempo dissemos tudo
mãos dadas
cada qual na sua vida privada
como quando nos juntamos para a cópula
calados
passeio afora
a provocar inveja nos casais separados
a inveja do moribundo diante do doente terminal que se move ainda pelo próprio pé
pelas próprias mãos
terminal
apesar do ventilador
das mãos
terminal
apesar da inveja
casais como nós (ausentes de mãos) invejosos de nós, como nós
(acho que tu também)
invejosos de casais como nós
porque todos os casais
mais cedo ou mais tarde
como a morte
(uma questão de dias)
como nós.
E nisto
no olhar invejoso dos passantes
(ou eu a querer que
(olhar invejoso dos passantes)
nisto
no passamento que é tudo
um frio a surgir do nada
um medo
a lembrança do teu pai
do sapo no quintal da tia Amélia
a insuflar
já morto
a insuflar no entanto
como o nosso amor
(que seja)
já morto
um medo
um frio a surgir do nada
um azedume na boca
como se a boca um sapo insuflando a morte
um cigarro que nunca acendi
(nunca)
porque medo de
pum
medo
mais do que medo
qualquer coisa que as palavras não alcançam
um frio a surgir do nada
a apertar um pouco a mão
não eu
o medo
numa massagem cardíaca à altura da anca
num desespero
qualquer coisa que as palavras não alcançam
(pode ser medo)
a apertar um pouco
a mão
(acho que tu também
ou eu a querer que tu também)
um pouco a mão
um reflexo
capaz que reflexo
não bem um movimento
uma intencionalidade
um reflexo
como o miocárdio do teu pai
o último pulsar do sapo antes de rebentar
as melhoras da morte
a gerar em nós
(acho que em ti também
ou eu a querer que em ti também)
qualquer coisa próxima da esperança
da vida
nem uma coisa nem outra
apenas qualquer coisa próxima
um reflexo de vida
nada a ver com vida
um reflexo apenas
alguma coisa comparável a um ventilador, a garantir-nos
- Garanto!
ainda estarmos vivos.
Thursday, April 30, 2009
Diálogo Monológico
- Sou eu.
- Então se sabes que sou eu podias pelo menos fingir e ser simpático!
- Não, não estou a começar, André. Infelizmente!
- O que eu quero é saber como é que é logo. Ficaste de me dizer qualquer coisa, lembras-te?!
- Estás sempre muito ocupado. Só os outros é que não fazem nada.
- Que humor é que queres que eu tenha, André? Estive a tarde toda à espera que me ligasses para combinarmos as coisas. Não me posso comprometer com as pessoas sem saber como é que é contigo, e tu, nem ai nem ui. E ainda tens o desplante de me dizer, com um arzinho todo calmo, que estou com um “humozinho que vai lá vai”.
- Pelo amor de Deus, André! Agora digo-te eu, não comeces. Como é que é afinal?
- Ó André, caramba! Como é que é o quê? Vamos ou não vamos?
- Ainda tens de ver? É que só podes estar a brincar comigo!
- Se tu te lembrasses é que eu me admirava.
- E quando é que sabes?
- Daqui a uma hora!
- Eu disse à Sónia que o mais tardar às quatro horas lhe dizia alguma coisa. São três e meia.
- Então se está bem, vamos, porque é que é que disseste que só daqui a uma hora é que sabias?
- E agora já não precisas de falar com o Director?
- Vê lá, não arranjes problemas por causa de mim!
- Não, não estou a ser chata, André! Tu é que te esqueces das coisas que combinas comigo e depois e vens com desculpazinhas esfarrapadas, como os miúdos.
- Vá, esquece! Não vale a pena estar agora a discutir isso. Há-de ser sempre a mesma coisa!
- Como é que é, apanhas o Ruben e deixa-lo na tua mãe?
- Ó André, sabes perfeitamente que estou sem carro.
- Não te lembraste? Novidade!
- Sai às cinco. Nem sequer sabes a que hora a que o teu filho sai do colégio!
- Não estou a pegar por tudo e por nada, André. Agora se tu achas que estares-te nas tintas para tudo o que não tenha a ver directamente contigo é normal, então se calar estou a pegar por tudo e por nada.
- Claro, falamos depois! Contigo é sempre depois!
- Sim, vá, não interessa. Apanha mas é o teu filho e deixa-o na tua mãe. Ah, e avisa-a que ele dorme lá hoje. Mas não te esqueças, senão já sabes como é.
- Como é quê? Parece tu que não sabes como é! Ah que Deus que nunca me dizem para onde vão, quando é que vêm, e fica aqui o menino, e não sei se o deito, se espero por vocês. Ninguém se preocupa comigo; só sirvo para tapar buracos… nhanhanha nhanhanha…
- Oh! Não é verdade, queres ver?
- Ó André, não estou nada em dia não. Que maçada!
- É mentira o que eu disse? Parece que não conheces a tua mãe.
- Pronto! Mas eu disse que a minha é melhor? Quem parece que está a querer embirrar és tu.
- Claro! Não fosse sempre eu a começar! Eu disse apenas para deixares o Ruben na tua mãe e para a avisares de que o neto dela dorme lá hoje, mais nada.
- O que eu disse foi que, se não lhe dizes ela fica preocupada.
- Pronto, não foi isso que eu disse. Esquece. Tens razão.
- Sim, sim… Se não tivesses é que eu me admirava!
- Bem, esquece lá isso. Avisa-a, é só o que eu te peço. Ah, e já agora, se não for abusar muito do meu marido, passa na lavandaria e apanha-me o vestido que lá deixei.
- É nas amoreiras. Conheces outra?
- Sim, no centro comercial.
- Não, não precisas de nenhum talão. Diz que é para mim, elas sabem.
- Não, não quero mais nada. A não ser que me apanhes às seis.
- Espero lá em baixo.
- Mas custa-te muito dar a volta? Não vens de carro?
- Oh!
- Toda a gente sai daqui, só para ti é que é muito trânsito.
- É só porque estou carregada. Tenho uma caixa de dossiers, a pasta, a mala, o portátil… Se achas que são só dois passinhos com isto tudo às costas.
- Mas se te custar muito, diz, que eu apanho um táxi. Vê lá, não apanhes um esgotamento nervoso no trânsito por minha causa.
- É em Cascais.
- Eu já tinha-te dito, André.
- Que culpa tenho eu que a Sónia e o Marcelo vivam em Cascais, que seja hora de ponta, sexta-feira e esteja tudo a sair de Lisboa?
- Olha, se é para isto, mais vale dizeres de uma vez que não queres ir.
- Parece! São só complicações!
-Pronto, está bem.
- Então vá.
- Sim, às seis.
- Até logo.
Reflexo
agora que te foste embora
nós na roulotte do teu tio
nós em Armação de Pêra
nós na casa de campo do Paulo e da Marta
nós na Arrifana
nós no banco de trás do carro dos meus pais
como a Anita no Jardim Zoológico
a Anita no Parque
a Anita na Floresta
nós
a vir-me à memória, nós
agora que te foste embora
porque de repente
ou eu a achar que de repente
(agora que te foste embora)
os meus olhos no teu espelho
à procura de restos de ti
uma sombra
uma ponta de cabelo
um resto de brilho dos teus olhos, que tantas horas ali pousaram
(que o espelho é o poleiro dos olhos)
tristes
tantas horas ali
interrogativos
à procura de ti
como eu agora que te foste embora
à procura de ti
um resto
alguma coisa esquecida
(tu que eras tão distraída…)
alguma coisa te há-de ter ficado para trás
alguma coisa deves ter esquecido entre um retoque de batom e uma escovadela de rímel…
alguma coisa…
desespero
(não o substantivo, o verbo)
desespero
alguma coisa
mas nada
apenas eu
o mesmo que nada
a minha cara transtornada pela tua ausência.
Onde será que os espelhos guardam os reflexos?
Pergunto-lhe, aos gritos
desgraçado
desespero
(… o verbo)
desespero
arranco-o da parede, chocalho-o, louco…
tens de cair
tens de cair
tens de cair
alguma coisa tua
uma sombra
uma ponta de cabelo
um resto de brilho dos teus olhos…
Por Deus, alguma coisa!
um resto
um sinal de ti.
Mas nada de coisa nenhuma
apenas eu
o mesmo que nada
a minha cara transtornada pela tua ausência.
Onde será que os espelhos guardam os reflexos?
pergunto
aos gritos
atirando-o ao chão
desgraçado
num revolver de cacos
sou mil pedaços, agora
que te foste embora
mil pedaços
mil nadas
mil caras transtornadas pela tua ausência
espalhados
dentro
fora de mim
as caras, os cacos
transtornados
fora de si
dentro
fora de mim
louco
os dedos em sangue e…
nada
agora que te foste embora
apenas eu
o mesmo que nada
em mil pedaços.
Não creio em superstições absurdas: sete anos de azar. Sem ti, a vida toda. Não me chegaria a vida toda a partir espelhos para cobrir o azar que é não ter-te
alguma coisa tua
uma sombra
uma ponta de cabelo
um resto de brilho dos teus olhos…
alguma coisa tua…
Por Deus, alguma coisa!
um resto
um sinal de ti
alguma coisa esquecida
(tu que eras tão distraída…)
alguma coisa te há-de ter ficado para trás
alguma coisa deves ter esquecido entre um retoque de batom e uma escovadela de rímel…
alguma coisa
alguma coisa
…
Sete anos de azar? Quem dera sete anos de azar e depois
tu
alguma coisa tua de volta ao espelho
(a outro espelho)
uma sombra
uma ponta de cabelo
um resto de brilho dos teus olhos…
Os dedos em sangue, mas de ti…
nem sombra.
Sete anos de azar
sete anos de desespero
(o substantivo, agora)
sete anos no meio dos cacos
sete anos na merda
sete anos no Tibete…
como a Anita no circo
a Anita no Ballet
a Anita na cozinha
uma espécie de penitência: sete anos da tua ausência; sete anões
ou lá como se diz anos grandes!
Sete anos. O que são sete anos!? Azar é não encontrar-te aqui, onde sei que estás
porque sei que estás
tens de estar
alguma coisa te há-de ter ficado para trás
que os reflexos, como os espíritos, não desaparecem da noite para o dia
alguma coisa
no meio dos cacos
mil lamelas de vidro salpicadas de sangue sob o meu olhar microscópico na procura de ti
caco a caco
dia a dia
(reflexo estilhaçado da nossa existência).
Eu sei que estás
ainda há cacos
de espelho
de mim
de nós
eu sei que estás
ainda há cacos
e enquanto há cacos há esperança.
Wednesday, April 01, 2009
Quando estamos carentes…
Embora pudesse encher a página com coisas de Ana… não o faço. Isto apenas me basta. E a quem lê… a quem lê tanto lhe dá, e mais espaço fica para compor como for. De Ana apenas mais três coisas: casada, mãe de um filho e minha amante.
Conhecemo-nos pela Internet. Facilitador de emoções e conversas
bonequinhos amarelos que falam por nós; uma flor, um “lol” e
um encontro na Sé
cafezinho discreto…
- Parece que nos conhecemos há muito tempo, já!
a Ana a dizer e eu a concordar.
Quando estamos carentes sentimos afinidade com um número muito maior de gente. Olhamos para alguém na rua que nos devolve o olhar e logo
- Parece que nos conhecemos há muito tempo, já!
E apesar de o saber
quando a Ana
- Parece que nos conhecemos há muito tempo, já!
eu a concordar
porque discordar é adiantar conversa e conversa não adianta nada.
De modo que
qualquer coisa que a Ana
- …, não achas?
eu
(que talvez nem achasse)
- Sem dúvida!
Porque quando estamos carentes concordamos com um número muito maior de gente. Olhamos para alguém na rua que nos devolve o olhar e logo
- Sem dúvida!
e daí a um encontro na Sé
cafezinho discreto
um pulinho
como dali para a minha cama
onde a Ana
nua
movimentos de gata
entregando-se
num abandono manso que as palavras que conheço me não bastam para o explicar
a garantir que
- Nunca tinha sentido isto antes.
Porque quando estamos carentes somos compatíveis na cama com um número muito maior de gente. Olhamos para alguém na almofada que nos devolve o olhar e logo
- Nunca tinha sentido isto antes.
porque quando estamos carentes a memória é uma coisa difusa, um suspiro de açúcar que engana a fome. Daí que
- Nunca tinha sentido isto antes.
e um olhar, um sorriso, um gesto parvo, uma carantonha, uma gargalhada, um abraço rebolado em lençóis adolescentes
e
- És tão parvo!
- … tão parva!
Porque quando estamos carentes achamos graça a um número muito maior de gente. Olhamos para alguém na dobra do lençol que nos devolve o olhar e logo
- És tão parvo!
- … tão parva!
em gargalhadas com vontade de infinito, porque nos sentimos apaixonados, já
tão certos, já, de que
- Acho que estou apaixonado…
- … apaixonada por ti!
Porque quando estamos carentes apaixonamo-nos por um número muito maior de gente. Olhamos para alguém na rua, na almofada, na dobra do lençol, que nos devolve o olhar e logo
- Amo-te!
prenhes de força, capazes de tudo
seguros da correspondência exacta entre o sentimento e a expressão
- Amo-te!
Porque quando estamos carentes amamos um número muito maior de gente. Olhamos para alguém no ecrã, que nos devolve um bonequinho amarelo, uma flor… e
- Amo-te!
“lol”
com a mesma facilidade com que
- Podemos encontrar-nos na Sé.
cafezinho discreto
e
num pulinho
movimentos de gata
sardas no peito magro, dedos compridos, púbis negra, ligada ao umbigo por um carreiro de penugem descolorada.
Não custa nada
um bonequinho amarelo, uma flor, um “lol”
e…
- Parece que nos conhecemos há muito tempo, já!
Afinal, quando estamos carentes sentimos afinidade com um número muito maior de gente. Olhamos para alguém na rua que nos devolve o olhar e logo
- Parece que nos conhecemos!?
- Há muito tempo, já!
Dez cêntimos
que vou para Espanha trabalhar daqui a duas semanas
o cunhado de um primo meu, que vive na Suiça, tem um restaurante em Sevilha e arranjou-me lá trabalho
e como o B.I. estava quase a caducar, vim aqui tratar disso
que lá no Barreiro demora muito mais tempo.
Mas enganei-me na saída do metro
que eu não conheço muito bem Lisboa
e saí ali no Martim Moniz.
Andei às voltas, às voltas a ver se dava com isto, até que lá me resolvi a perguntar alguém.
Olhe, foi a minha desgraça!
Três tipos disseram-me que também iam para lá
marroquinos, ou não sei
que tinham de tratar de uns papeis e que se quisesse podia ri com eles.
Na minha boa fé lá fui.
Se eu soubesse!
Meteram-se por umas ruas estreitas e depois lá por uns becos…
e eu a achar aquilo esquisito
até que às tantas, viraram-se a mim e, olhe
marcaram-me todo
tenho aqui na perna, no braço…
E agora estou desesperado.
Roubaram-me tudo.
Até o telemóvel.
Que senão ligava ao meu cunhado
que ele trabalha ali para o Prior Velho, ou Sete Rios, ou o que é que é
e ele vinha-me buscar
mas nem sei o número de cor
que uma pessoa agora habitua-se a guardar tudo no telemóvel.
Sacanas!
Ainda para mais a minha sobrinha faz anos hoje.
Dois aninhos!
Olhe, tinha uma fotografia dela na carteia. Até lha mostrava. Mariana. Chama-se mariana. E eu… olhe
estou todo dorido, minha senhora. E tenho a roupa toda suja, até me rasgaram o casaco
Sacanas, pá!
Estes não apanha a polícia. Tá quéto! Agora e fosse eu, ou a senhora…
Eu ainda pensei ir à polícia! Mas neste estado? Iam mesmo acreditar em mim. Tenho umas dores neste braço que nem imagina, minha senhora.
Até tenho vergonha de estar aqui a incomodar as pessoas. Ainda hão-de pensar que é para droga. E neste estado. Eu pensava o mesmo! Mas não é minha senhora. Juro que não é. Pela saúde da minha sobrinha, que é coisa que mais amo nesta vida.
Mas estou desesperado. Estou aqui há mais de uma hora para arranjar isto, minha senhora: um euro e meio. Mas neste estado quem é que me ajuda? Se a senhora pudesse. São só dez cêntimos que me faltam, minha senhora. Dez cêntimos para o bilhete.
Gina
(já de si o nome é mau)
trabalhava a dias em casas particulares e a noites
(fins-de-semana apenas)
em casas… particularmente.
Cinjamo-nos ao que importa: a dias em casas particulares. Dois filhos: Berta e Lucas. Ambos mulatos
de pais diferentes
e ela
Gina
(já de si o nome…)
branquinha como um cadáver exangue. E como um cadáver, magra; peito nenhum. O rosto… nada de especial
aliás
(para vinte e sete anos)
muito mal tratadinho.
Numa orelha, nem um furo, na outra, uma colecção de argolas, aranhas, meias-luas, o diabo…
Calças de ganga ruças
sempre…
minto
quase sempre ruças.
Ténis grandes, tipo bota, e t-shirt branca com qualquer coisa estampada
sempre…
minto
quase sempre estampada
letras, figuras, abstracções, o diabo…
Perfume? Desodorizante, talvez. É capaz que, desodorizante. Agora que penso nisso, é capaz que, desodorizante
capaz de jurar que desodorizante.
Olhos baços. Apenas para enfeitar o rosto.
Gina
a dias
a noites
(fins-de-semana apenas)
… particularmente.
Berta e Lucas
pais diferentes
ambos pretos
mulatos os filhos
a garantir que
(ainda que se não possa provar)
Gina
(já de si o nome é mau)
um gosto especial pelo exótico
(exótico para nós, caucasianos descoloridos)
diria.
Fazia dias
(noites…
…particularmente)
que não aparecia pelo bairro. Os filhos
Berta e Lucas
ambos mulatos
de pais diferentes
de pais ausentes
dois dias em casa, fechados à fome.
Fazia dias
(noites…
…particularmente)
Que
Gina
(já de si o nome é mau)
que não aparecia
até que a notícia
no lugar das calças ruças
da orelha intacta
ao contrário dos braços, das pernas, das mãos…
nem um furo
a notícia a chegar primeiro que a colecção de argolas, aranhas, meias-luas, o diabo…
a notícia
num sprint de etíope esganado com fome
a passar pelos ténis
pela t-shirt
qualquer coisa estampada
letras, figuras, abstracções, o diabo…
dispensando perfume…
Desodorizante, talvez.
A notícia
num sprint de corcel pela encosta da Maria Pia
nomeando os perigos do desporto equestre
afirmando que quem se mete na equitação arrisca-se a cair do cavalo.
Monday, March 02, 2009
Abracadabra
- É o tio Américo, filho.
fazendo-lhe festas na cabeça de porco desgrenhado.
- Não tenhas medo, tonto.
como se fosse dizer
- Não tenhas medo, tonto.
o medo
puf
num passe de mágica
igual ao tio Américo
naquele almoço de domingo entre o arroz doce e o café
- Senhoras e senhores, convosco, Péricles, o albatroz dos sete mares!
e nisto
puf
um javali
arrancando um abanão geral à plateia de familiares que, a aguardar por um penado mergulhão
puf
sai-lhes um foçador de trufas de capachinho à António Calvário.
- Não vês que é o tio, palerma?! Olha lá para o cabelo.
E de facto
- … o cabelo
o penteado
risquinho ao lado entre o ruivo e o louro, a manter-se intacto. Assim como os olhos, pequenos e curiosos… iguais.
- Não vês que é o tio, palerma?! Olha lá para o cabelo.
e o capachinho
a garantir-me que
- … o tio…
palerma
- …o tio, palerma…
o tio palerma
o capachinho
a descolar-me, aos poucos, das saias da mamã, que lhe arrancava grunhidos satisfeitos com a mão sobre o pêlo e a mim gargalhadas felizes. Também lhe quis fazer uma festa. Era o meu tio preferido. Não me levem a mal os outros, mas…
o meu tio preferido.
Fiz-lhe a festa
(era quase do meu tamanho)
arrancando-lhe um grunhido de contentamento
um brilho nos olhos
pequenos e curiosos…
Quem não achou graça nenhuma foi a tia Zulinda, mulher do tio Américo, que
- Isso não tem graça nenhuma, Américo!
apesar das gargalhas de toda a gente.
Mas o tio Américo parecia não estar nem ali para os amuos dela, passando o resto da tarde entre as pernas das cunhadas.
- És um sacana, ó Américo!
o meu tio Roberto, quando o irmão lhe começou a foçar as saias à Guidinha.
- Já chega, Américo!
mas não chegava. Não é todos os dias que um homem pode ser um porco dos sete costados e foçar sem pejo vontades antigas, como era o caso da tia Guidinha.
- Ou paras imediatamente com isso…
a tia Zulinda
- … ou chateio-me a sério.
na sentença mais alta que pôde a vozinha fraca que lhe ficou da pleurisia.
- Ouviste o que eu disse, Américo?
aumentando meio tom esforçado à reprimenda.
E o tio Américo, que não podia responder, a levantar os olhos
pequenos e curiosos
a soltar um ronco
incompreensível
que a tia Zulinda entendeu como uma provocação, ou não teria ido à cozinha buscar a vassoura grande e varrê-lo ido para o quintal, deixando um silêncio fúnebre na sala.
Nos olhos de todos se via brilhar a esperança de que o tio Américo entrasse a qualquer momento pela janela num voo picado de albatroz e aterrasse em cima da mesa, entre os restos do almoço, anunciando, envolto numa nuvem de fumo
- Charã!
o homem que sempre foi, arrancando gargalhadas e aplausos a todos e lágrimas de contentamento e fúria à tia Zulinda, antes de descer para a beijar e apertar-lhe a bochecha no seu clássico
- Não custa nada, Dindinha!
Mas o tio Américo não veio e, ao fim de uma hora, uma excursão de família foi à rua, para dar com ele deitado sobre o capacho à espera de misericórdia.
O segundo grande silêncio formou-se, e nem o tio Sequeira que tinha sempre explicação para tudo se atreveu a abrir a boca. Pareciam começar a compreender que algo havia corrido mal naquele truque trocado, e que o tio Américo desta vez não seria capaz de desatar o nó górdio do feitiço.
- Ai, valha-me Nossa Senhora!
a tia Zulinda à beira do desmaio.
O ambiente adensou-se. A consternação era geral e só eu parecia achar graça àquela brincadeira. A minha mãe segurou-me pelo ombro, puxando-me quando me tentei aproximar do tio para lhe passar a mão pelo penteado.
Não estava a compreender. Uma hora atrás estavam todos divertidos e agora…
- É o tio Américo...
tive vontade de dizer
- Não tenham medo, tontos.
e quase me saiu
- Não vêem que é o tio, palermas?! Olhem lá para o cabelo.
mas um ronco interrompeu-me a intenção
um ronco fraco, indecifrável, mas cuja impotência dos olhos
pequenos e curiosos…
faziam compreender que estava arrasado.
Concordaram que talvez o tempo solucionasse ou remediasse a questão, e com dois cobertores fizeram-lhe uma cama na adega
ao lado do lagar
onde ainda em Setembro
mosto até à cintura
mosto que agora o afogaria
que de gatas não se pisam uvas.
Uma cama
dois cobertores
ao lado do lagar
duas voltas à chave
e a tarde a morrer baixinho
num gemer doído
a tarde
o meu tio Américo
mais do que a tarde
capaz que
mais do que a tarde
o meu tio Américo
baixinho
num gemer doído de quem sofre dentro de uma virgem de ferro em forma de porco-montês.
Eu não teria mais de quatro anos, mas recordo-me como se ontem
afinal
o meu tio preferido. Não me levem a mal os outros, mas…
Saturday, January 31, 2009
Já não sei como se começa
ao meu pai
- Pai, este é o…
- … o meu novo namorado.
Não sei quantos foram. Sei. Claro que sei. Uma mulher não esquece nunca o frio que sente depois das pernas fechadas, das portas fechadas.
E depois aos meus amigos
às minhas amigas
mais do que aos meus amigos
às minhas amigas
- … este é …
- … o Bernardo.
- … o António.
- … o Miguel.
- … o Kuka.
e o meu pai
- Isso é lá nome de gente?!
Porque para o meu pai nenhum homem é ideal para mim.
E pelo visto tem razão.
De modo que agora
cinco anos depois
três desde que terminou
não sei como se chega a casa e se diz aos pais
ao meu pai
- Pai, este é o…
- … o meu novo namorado.
(Até porque já deixam de ser tão novos assim!)
Brincadeira.
Mas para além disso, muito antes disso tudo
eu a não saber como se começa.
Tudo de novo: música preferida, viagem de sonho, filme da minha vida, o livro que mais me fez chorar…
(O meu diário se o leio).
Quero um homem já feito
sem perguntas
sem dúvidas
existenciais ou físicas.
E não sei se o Roberto…
(um amigo, ainda)
não sei, dizia
se o Roberto o é
apesar de seguro
aparentemente seguro
que aquilo que me dá a parecer é que os homens nunca são seguros. Bóias insufláveis que vão perdendo o ar, e no fim, ainda temos de ser nós a arrastá-los para terra. De modo que
não sei se o Roberto…
apesar da sua aparência insuflada de dragão
de crocodilo
de orca
das mil formas penduradas nas tendinhas da praia
o homem que procuro.
Procuro?
Acho que o amor da minha vida
(se é que há um amor da minha vida)
já passou por mim.
Não sei qual foi…
Não sejas ridícula, Clara! Claro que sabes. Uma mulher não esquece nunca o frio que sente depois das pernas fechadas, das portas fechadas. Quando as noites ficam de repente maiores, intermináveis. O sono demora, como a felicidade que não chega por mais carneiros que se contem
a felicidade não chega. A cama
enorme
coberta de Inverno, de um vento frio que se mete por debaixo dos lençóis, internando-se nos ossos, cobrindo-os de musgo…
uma mulher não esquece nunca
e é por isso que agora
aos trinta e sete anos
solteira, independente
aparentemente forte, segura
como o Roberto
(um amigo, ainda)
aparência insuflada
dragão
crocodilo
orca
mil formas penduradas nas tendinhas da praia…
agora
aos trinta e sete anos
aparência só
solteira, independente
forte, segura
aparência
só
a não saber já como se faz
como se beija, o que se diz depois do sexo…
como se chega a casa e diz aos pais
ao meu pai
- Este é o Roberto.
aos meus amigos
- Este é o Roberto.
às minhas amigas
mais do que aos meus amigos
às minhas amigas
- Este é o Roberto.
às minhas amigas que vão dar gritinhos de felicidade por mim e quando eu
à casa de banho
a juntarem-se ao centro da mesa
num concílio de comadres
para se questionarem se
- Será desta que ela desencalha?
Cabras!
O problema não é falarem, é ser verdade. Eu própria não tenho a certeza se o Roberto
(um amigo, ainda)
o tal homem já feito
sem perguntas
sem dúvidas
existenciais ou físicas
que procuro.
Procuro?
Não tenho a certeza.
E os trinta e sete anos a baralharem-se as ideias, os sentimentos
que a partir de certa idade deixamos de estar certas das nossas certezas. Nunca uma paixão é tão segura quanto aos doze anos, aos quinze anos, até mesmo aos dezoito o mundo não nos assusta porque tudo absoluto e seguro.
Mas aos trinta e sete…
Claro que gosto do Roberto!
É inteligente, bem disposto
uma excelente pessoa…
E parece que ao dizer
excelente pessoa
uma sensação de não gostar assim tanto.
É atencioso
o Roberto
faz-me rir
sinto-me bem ao lado dele
mas
como é que se começa?
Como é que se faz?
Como é que se beija?
O que é que se diz depois do sexo?
Três anos sozinha. Não sei se já tinha dito.
Ou melhor
três anos sem ninguém
que sozinha, creio, há muito mais. De modo que…
não sei…
como é que se chega a casa e diz aos pais
ao meu pai
- Pai, este é o…
… Roberto…
… um amigo. (?)
Aos meus amigos
-este é o…
… Roberto…
… um amigo. (?)
às minhas amigas
mais do que aos meus amigos
às minhas amigas
- Este é o Roberto…
… um amigo. (?)
Tenho trinta e sete anos…
Um amigo?
e quando eu
à casa de banho…
Cabras!
E se no fim, o Roberto, mais uma bóia rota no mar inquieto da minha vida? Afinal, há um dia em que a bóia rebenta e por mais que lhe sopremos dentro, que apertemos o furo, com ambas as mãos, com ambos os braços, como ambas as pernas, como o corpo inteiro, o ar acabará por ir-se todo.
E talvez seja esse o medo
não de o Roberto não ser
que talvez seja
não o de começar
o de não saber como se faz
como se beija
o que se diz depois do sexo
que isso talvez saiba
(uma mulher não esquece nunca)
não o de chegar a casa
- Pai, este é o Roberto, o meu novo namorado.
junto dos amigos
nem sequer das minhas amigas
- Pessoal, este é o Roberto, o meu novo namorado.
mas do dia em que tudo arrefece, o dia em que o Inverno se instala em nós, se mete por debaixo dos lençóis, internando-se nos ossos, cobrindo-os de musgo e por mais que as pernas se fechem, as portas se fechem, o calor, como o ar de uma bóia rota, acaba sempre por ir embora.
Havia de ser comigo!
que perdera a cabeça
que não sabia o que lhe tinha dado
que não tornaria a acontecer
a jurar
- Juro…
que não sabia o que lhe tinha dado
que
- … não torna a acontecer!
e eu
eu que sempre dissera alto
- Um homem a mim só me batia uma vez!
que jurava
- Denunciava-o à polícia!
eu que
quando a Catarina me contou que a Cármen
- … levou uma sova do marido que até manca de uma perna.
a garantir
- Havia de ser comigo!
eu
no dia em que o Luís
- Desculpa, Ana! Desculpa!
eu
a mesma eu
a desculpar
a não dizer nada a ninguém
porque o Luís
- Perdi a cabeça. Não sei o que me deu.
porque o Luís
- Juro que não torna a acontecer.
porque o Luís
- Juro!
eu
a mesma eu
a desculpar
a dar a outra face, ou a perder a legitimidade para a negar
a dizer para mim mesma que era um bom marido, que sabia que não se iria repetir, que perdera de facto a cabeça, que o provocara…
sim, que o provocara
que quando quero
eu sei
sou provocadora
a prová-lo, portanto
a assumir parte da culpa
do estalo
dois dedos e meio
polegar, indicador, meio anelar, a pertencerem-me…
E quando a Catarina, umas semanas depois
- A Cármen tornou a apanhar.
eu
silêncio
-Ouviste o que eu disse?
e eu que, perfeitamente
a encolher os ombros
a
- Não quero saber mais dessa história.
a não
- Havia de ser comigo!
e ao invés de
- Havia de ser comigo!
a
- Não quero saber mais dessa história.
porque o verbo mudara de tempo
a encher-me de vergonha, como se algo o denunciasse em mim, nos meus gestos
como se a minha face batida
- Catarina!
a encher-se de sangue e vergonha
- Catarina! Olha…
a denunciar-me e à minha cobardia.
Por isso, quando a Catarina
- O que é que te deu?
eu
direitinha à maquina do café
cara baixa
(nenhuma marca
uma semana já
nem no próprio dia
mas)
cara baixa
maquina do café
- É bem feito! Que é para não ser parva. Quem leva o primeiro estalo merece uma sova. E das grandes!
a expurgar a minha frustração
até que a Catarina
- Calma!
e eu
calma
a voltar para a secretária
papéis e teclas
papéis e teclas
papéis e teclas
até às quarto e meia
papéis e teclas…
Até àquele dia, o Luís… pouco a dizer. Uma discussão ou outra, o normal. Quem não tem? Mas as discussões são um prenúncio
sei-o agora
soube-o sempre
um alerta, um sinal, um indicador de doença. São a febre que acusa uma inflamação escondida. E um dia a voz põe-se em bicos de pés, como se o volume legitimasse as opiniões, e sai o primeiro
- Estúpida de merda!
o primeiro
- Estúpida de merda é a tua mãe!
e daí ao primeiro estalo uma distância muito curta
porque quando se deixam as conversas fermentar, azedam.
e agora
- Desculpa, Ana! Desculpa!
- Perdi a cabeça. Não sei o que me deu.
- Não torna a acontecer.
- Juro!
E eu a pensar
o casamento, a casa, o carro, as contas…
filhos ainda não, mas
famílias à mistura e
dizer o quê?
- O Luís deu-me um estalo?
O meu pai, a minha mãe, a minha irmã que
tenho a certeza
já apanhou do namorado
um estúpido desocupado que lhe vive às custas
a dizerem
- Mas vais deixar tudo por causa disso?
o meu pai que
na minha mãe
a minha mãe que
do meu pai
a minha irmã
que
tenho a certeza
do namorado
um estúpido desocupado
todos
a
- Mas vais deixar tudo por causa disso?
de modo que eu
a desculpar
porque o Luís
- Desculpa, Ana! Desculpa!
porque o Luís
- Perdi a cabeça. Não sei o que me deu.
porque o Luís
- Não torna a acontecer.
porque o Luís
- Juro!
E porque quem mais jura mais mente, quatro meses depois o Luís a perder a cabeça, a dar-me uma sova e a sair de casa sem
- Desculpa, Ana! Desculpa!
a voltar a casa sem pedir desculpa
a não me dirigir a palavra para coisa nenhuma
a dormir no sofá
não porque eu
- Aqui…
(no quarto)
- …não entras!
Um dia, dois dias, três dias… e eu a penar “vou à minha vida. Isto não é nada.” A lembrar-me da Catarina
- A Cármen tornou a apanhar.
a ter-lhe raiva
(que sabe ela da vida? Nunca teve uma relação. Namorados, mil. Mas uma relação? Que sabe ela da vida? Casa, carro, contas, família… Que sabe ela para falar assim dos outros?)
E no meio dos pensamentos
o meu pai
a minha mãe
a minha irmã
- Mas vais deixar tudo por causa disso?
A casa, o carro, as contas…
filhos ainda não, mas
famílias à mistura e
mais isto
mais aquilo
que desculpas não faltam quando as queremos dar
como
esperar mais um dia
até ao próximo Sábado
a jurar que
só até Sábado
e Domingo e quarta e sexta e quinta e terça
segunda após segunda
e nunca mais era Sábado,
nunca mais o Luís
- Desculpa, Ana! Desculpa!
- Perdi a cabeça. Não sei o que me deu.
nunca mais o Luís
- Não torna a acontecer.
- Juro!
nunca mais
nem uma palavra.
Nada!
Mas porque haveria o Luís de me pedir perdão se eu própria não pedi?
Se eu própria não…
- Desculpa, Ana! Desculpa!
Se eu própria não…
- Perdi a cabeça. Não sei o que me deu.
- Não torna a acontecer.
- Juro!
- Juro!
- Juro!
Friday, December 19, 2008
O fantasma da Madalena
festa de anos
chamava-se Odete e
como eu
estava sozinha.
A Edite, amiga de longa data
(do tempo já da 5 de Outubro, quando o escritório ainda rejeitava clientes, por “excesso de trabalho”)
sempre teve queda para padroeira do encalhados. De modo que
a não me admirar
se ela
- Tens de conhecer o Óscar.
falasse nestes termos à amiga
… Odete.
- Divorciado faz dois anos.
(trabalhinho arranjado pela padroeira Edite)
- Não tornou a ter ninguém.
Um caso ou outro mal sucedido, que a Madalena nuca saiu por completo lá de casa
ou de mim, quando eu lá em casa.
(mas esta parte a Edite a omitir)
apenas
- Divorciado faz dois anos.
e
- Não tornou a ter ninguém.
Pois o facto de a Madalena nunca (…) por completo…
…lá de casa
a fazer com que
de cada vez que uma mulher no 3º esquerdo
(não digo o número)
da Rua de Arroios
o fantasma da Madalena
- É impressão minha ou cheira-me a puta!?
e o amor
ou a carência que o parece
a sair gorado.
Duas apenas, em dois anos
uma por ano, numa análise estatística
embora nenhuma mais de duas semanas, que o fantasma da Madalena
(casada já, e com um filho que nunca lhe fui capaz)
a ironizar de nariz torcido
- É impressão minha ou cheira-me a puta!?
Por isso, quando a Edite
- É o Óscar. É a Odete.
o meu estômago a ficar nervoso
não por ela
mas porque a história a tentar de novo
e o fantasma da Madalena
“Alerta”
como um escuteirinho irritante
a
- É impressão minha ou…!?
razão porque eu
o meu estômago
a ficar nervoso
porque um homem
se homem
- Divorciado faz dois anos.
não tem como
- Não faz o meu género.
pois dá logo vontade de perguntar
- Ai não?! E que género é o teu?
No fim de contas foi a Madalena quem
- Quero o divórcio.
a Madalena quem
distante há muito
um pé dentro, outro fora
embora sempre
- É impressão minha ou cheira-me a puta!?
De maneira que
se eu
- Não faz o meu género.
capaz de os narizes todos
- Ai não?!
a torcerem as ventas
- E que género é o teu?
Pelo que
apesar do estômago nervoso
a passar a noite na conversa com a Odete. Diferente de mim: dia e noite, preto e branco, cara e coroa… alegre, gordinha, gargalhadas de copos pela cristaleira abaixo, enfermeira em São José, solteira
- … e boa rapariga.
como achou graça dizê-lo.
Toda ela clichés. Como eu todo clichés. Só que ela clichés alegres, gordinhos
vidros em estilhaços
e eu
cinzento, gravata azul, camisa sem cor, como as cuecas velhas do papá no estendal da marquise em Sete-Rios.
Mas a verdade é que
nessa noite
depois das velas e do champanhe
(porque qualquer gasosa é champanhe)
portanto
depois das velas e do champanhe
que o bolo a mim não me cai bem
nessa noite…
como hei-de dizer?
a Odete que
- Acho que já estou a ficar tonta!
a pegar-me no braço e, entre marteladas na cristaleira, a garantir-me
- Você é tão engraçado, Óscar!
a fazer-me sentir na obrigação de
- Trata-me por tu.
como se lhe levasse a mão ao interior da blusa e lhe soltasse a mola do soutien que lhe oprimia o peito
arrancando-lhe um suspiro
- Acho uma óptima ideia!
de maneira que
ao despedir-me
a Edite logo
- E tu, Odete, como é que vais?
puxando-me pela prontificação
e antes de a Odete
um táxi, ou coisa que o valha
eu logo
- Posso levá-la.
que na opinião da Odete
- … uma óptima ideia!
Num chover de copos pela cristaleira abaixo.
Há um mês que passa cá os fins-de-semana e já plantou uma escova no copinho da casa de banho. Ainda não é nada certo, mas há duas coisas que me fazem crer que é possível. Uma é a Odete não sair da cama a correr para ir lavar o amor ao bidé
não me rejeitando
não me expelindo de dentro dela para correnteza do Tejo
como as outras
a Madalena, talvez
não me lembro se a Madalena
depois de…
a Madalena
ou a torneira do bidé
numa cumplicidade secreta
para correnteza do Tejo
como as outras duas
que
mal acabávamos
- Vou só à casa de banho num instante.
Agora a Madalena não me lembro.
A verdade é que nunca um filho meu
(e agora
casada já, e com um filho que nunca lhe fui capaz)
dois abortos espontâneos
a própria palavra
espontâneos
a dizer tudo
a rejeitar-me atrasadamente
enquanto a Odete
depois de nós (…)
a ficar
gargalhando alto
por tudo e por nada um desastre de copos pela cristaleira abaixo
- És tão engraçado, Óscar!
a não sair da cama a correr
a não
- Vou só à casa de banho num instante.
a achar tudo
- … uma óptima ideia!
a rir
gordinha
feliz.
A outra coisa
das duas que me fazem crer que é possível
é o facto do fantasma da Madalena nunca mais
- É impressão minha ou…!?
uma pontinha de nariz
de vez em quando
torcido, é certo
mas nunca mais
- É impressão minha ou…!?
assustado, é possível, pelo estilhaçar de copos da Odete
que não acreditava em fantasmas nem em palermices e está cá
parece-me
para ficar
o que eu
de certa forma
até acho
- …uma óptima ideia!
Isto tá bonito, tá!
Isto é mau, isto é mau, mas toda a merda cá vem parar! Isso é que eu sei! Se é mau, puta que os pariu, pá! Vão lá para a terra deles, ou o caralho! Temos de ajudar? Ó Calisto, foda-se! Eu sei o que é que estou a dizer, pá! Vim de Angola com uns calções, umas cuecas, umas meias, uns sapatos, uma camisa e um boné. Mas tás a brincar comigo ou quê? Eu sei o que estou a dizer, pá! Passei por elas!
Ajuda? Mas tu achas o Estado português tá interessado em ajudar as ex-colónias, pá? O Estado só ajuda aqueles que o ajudam a ele! Ou tu achas que têm poucos interesses por lá? Hum? É petróleo, é diamantes, é ouro, é o caralho! Têm tudo, aqueles gajos, pá! Logo não ajuda merda nenhuma, pá! Olha lá o Soares, esse verbo-de-encher… não andava lá aos diamantes, mais o caralho do filho dele, aquele cara cu mal fodido? Olha, quando caiu o helicóptero, o que é que andavam por lá a cheirar? Às zebras para fazer passadeiras, qués ver? Conta-me histórias! Olha, havia de ter sido eu e ficava lá! Essa é outra, pá. Se for um pobre a ter uma dor de barriga, caga-se todo e ainda o fazem limpar o corredor das urgências. Agora um burguês? Até o lhe limpam o cu com a aba da bata.
Só te dão um chouriço se lhes deres um porco. E tens de ser tu a matá-lo. É como os bancos, pá! Para te darem um tostão já tu lhes destes cinquenta. Ninguém te dá nada, pá! Agora, vou eu ajudar? Tá bem, tá! E quem é que ajuda a mim?
A mim? Darem-me uma casa a mim? Uma pouca de merda é que me dão, pá! As casas são para os gajos das barracas, que não mexem uma palha e ainda recebem subsídio! Eu trabalho, pá! Tenho três filhos e a mulher desempregada! Pago quinhentos aerios de renda, ganho oitocentos: comer, água, luz, gás… e já foste. Não fosse a minha sogra a dar algum, andavam-me os putos a chuchar no dedo de manhã à noite para enganar a fome!
Mata-se um gajo aqui a trabalhar para quê? Isto tá bom é para os ladrões, pá! Um gajo assalta um banco, no dia a seguir já tá cá fora. É uma maravilha! E quanto mais roubares melhor! Olha lá aquele cabrão do Benfica! Vê lá se ele não dorme descansado! Ligas a televisão e é só merda dessa! É políticos, é empresários, é advogados, é o caralho! Agora vai lá tu roubar um pão e vais ver a volta que levas! É a mesma merda que os impostos, pá! Não pagas a horas, tás fodido. Mas se for o Estado que te deva a ti, tas fodido na mesma! Mordes o esquema? Tás sempre fodido, é o que é, pá! E nem piu!
Sabes o que é que eu te digo? Fazia cá falta era outro Salazar! Punha esta merda na linha que era um foguete!
Com o ordenado que eu tenho vai lá tu pedir um crédito. Mandam-te ir apanhar no cu e ainda se riem na tua cara! Por isso, olha, quinhentos aerios todos os meses para as unhas da senhoria e uma casa minha, nem um tijolo!
Mas depois vem o caralho dos ciganos e
bumba
toma lá uma casa nova, ó Tarota!
E aqui o Chico, que se foda! Se quiser uma casa que a compre! Alomba que nem um burro, que até se amola, e quando vai ao banco perguntar como é que funcionam a coisas dos créditos, olham para um gajo de sobrancelhas em arco como que a dizer
- Ó amigo, só de olhar para a sua camisa, digo-lhe já que isto tá mau de créditos!
Olha que caralho, hem!
E ainda por cima nunca estão satisfeitos, os cabrões dos ciganos! São como os porcos, deita-lhe palha limpa, mas vão-se é espojar na estrumeira!
É uma merda, pá!
Tudo aumenta, tudo aumenta, só o ordenado de um gajo é que parece a picha de um velho! Só quando é para caçar votos é que aparecem a prometer este mundo e a cabeça do outro. Foda-se! Vão pó caralho! Encostá-los à parede ainda era pouco! Mas os portugueses são muita burros, pá, graças a Deus! Já tínhamos feito uma revolução à séria! Olha, o que fazia cá falta era uma guerra civil! Vê lá os espanhóis onde é que eles tão. Ou atão uma merda maior ainda! Vê lá alemães. Foderam-se duas vezes e duas vezes vieram à tona. São como os cagalhões, os sacanas! Não se afundam nem à pedrada.
Agora aqui? Oh, pá! É levar no cu desde que nasces até que morres! E depois de morto só não te enrabam se não puderem! tás-te a rir? Sabes quanto é que gastámos com a morte do meu velho? Quase trezentas biscas, pá! Não tivesse ele deixado uns trocos e tinham-no enterrado na vala comum! É como eu te digo, ó Calisto! Isto tá bom é para os gatunos, pá!
Se não fosse cá por merdas assaltava um banco! Mas bater com os costados na pildra e sujeito e a apanhar sabonetes! Foda-se, tá quieto! A merda toda é essa! Senão a ver se não era!
Eu não sei onde é que isto vai parar, pá! Os putos, não têm educação nenhuma. Mandam mais eles que os pais! Na escola fazem o que lhes apetece. Se um professor lhe espeta um tabefe no focinho tá mais fodido có caralho. Havia eu de dar ao meu pai certas respostas que às vezes ouço para ai! Levava um avio de cachaporra pelos cornos abaixo que dava para o mês todo! Mas de quem é a culpa? Claro que é dos pais, pá! Dos pais e da merda dos psicólogos! Isso é outra raça que anda para aí a encher o cu à custa dos pacóvios! Eu bem gostava de saber se na casa deles os filhos fazem o que lhe dá na telha e é só conversinhas mansas, como na televisão. Gostava de saber se na casa deles não se grita. Urtigas no cu dos outros são malvas! Hoje não se pode fazer nada aos meninos! Senão ficam todos traumatizados. Coitadinhos! Levei poucas, eu! E ainda aqui ando! E digo-te que se levasse mais não tinham sido mal dadas! Sabes como é que dizia o meu pai? “A porrada não educa, mas conserva”. É como te digo, pá! Só se perdem as que caem no chão. Levassem eles umas lamparinas na trombil quando as pedem e não se via a pouca vergonha que se vê hoje!
Ó Calisto, não me fodas, pá! Atão mas antigamente havia respeito aos mais velhos e hoje não há porquê, caralho? Deixam-nos fazer tudo! Depois ficam como aquele puto do anúncio, que só dá vontade é de lhe dar duas bolachadas no focinho! E a ele e à mãe! Tem côdea! Foda-se! Tem côdea? Tivesse eu côdeas quando tinha a idade dele, pá. Vim de Angola num barco carga, com sete anos fui viver para a Charneca, para uma barraca de contraplacado, que aos meus velhos ninguém deu casa! Brinquedos eram pedras e paus, e aos onze, obras com ele, que já tinha escola a mais! Isso é que é trauma, não é umas lambadas quando fazem falta! Por isso é que esta merda anda cheia de paneleiros, ou o caralho, que até mete nojo! Tem cona! Raios partam esta merda, pá!
Havia de ser um filho meu a torcer-me o nariz ao pão! Ao pão ou ao que quer que fosse! É de pequenino que se torce o pepino, ou não é? Os meus cá, assim que começam a levantar cachimbo, e ainda são pequenitos, levam logo pela medida grossa. Era o que faltava, um fedelho meu mandar em casa! Antes cagar um pé de merda que levar um filho meu a um psicólogo! É uma corja, pá! É o que eu te digo. Vai por mim! Olha, psicólogos e políticos, era pô-los todos num barco com uma machadada no casco! Foda-se! Eu é que devia mandar nisto, pá! Não sei onde é que isto vai parar, ó Calisto… mas antes que isto piore, manda ai vir mais duas, que agora pago eu.
Segredo é segredo!
e eu a acenar sins com a cabeça
a não dizer nada
tinha jurado
não dizer nada
quando a Ana Maria
- Jura por Deus que não dizes nada a ninguém.
e eu
que sim
com a cabeça
que sim
que não dizia
- … nada a ninguém.
a cabeça por mim
- Juro.
“por Deus”
(por quem mais)
a cabeça, por mil palavras, como se dissesse
- Fica só entre nós.
porque a Ana Maria
- Se jurares que não contas a ninguém, deixo-te mexer. Queres mexer, não queres?
e eu logo
que sim
que sim
com a cabeça
“por Deus”
que sim
que queria
a não dizer nada
jurado já
e a Ana Maria
- Gostas?
e eu
que sim
com a cabeça
que sim
“por Deus”
- Juro.
a cabeça por mim
que sim
que sim.
Eu tinha sete anos e a Ana Maria… bem, não sei. Trabalhava lá em casa desde o meu aniversário
Janeiro, portanto.
Estávamos nas férias da Páscoa, quando ela
- Queres ver as minhas maminhas?
e eu
pela primeira vez
que sim
que a cabeça
por mim
que sim
de cima da minha cama
um verbo sequer
nada
a cabeça apenas.
Eu
sete anos
e a Ana Maria… bem, não sei. Quando se tem sete anos a idade dos adultos é-nos confusa. E tirando os velhos, têm todos a mesma idade. Digamos que para uma criança de sete anos
ou pelo menos eu com sete anos
os adultos eram-no a partir dos quinze
pelo menos o meu primo Ricardo já devia ser, visto fumar. Embora
como a Ana Maria
- Jura por Deus que não dizes nada a ninguém.
quando eu
no quintal
com patinhas de gato
o meu primo Ricardo
- Jura por Deus que não dizes nada a ninguém.
e eu
com a cabeça
“por Deus”
(por quem mais)
que sim
que não dizia
- …nada a ninguém.
Portanto, a Ana Maria, adulta, como os meus pais, o meu tio Almiro, a minha tia Cila, o meu primo Ricardo
já que fumava
quinze anos
e me dizia
além de
- Jura…
- A tua empregada, puto, dá-me cá uma ponta!
e eu acenava que sim com a cabeça
sem entender ponta
como sem entender ponta quando
o Ricardo
a fazer-me companhia nas férias.
Não a mim
sei-o agora
à Ana Maria
que
- …dá-me cá uma ponta!
e por
sei-o agora
seio agora
que
(- Queres ver as minhas maminhas?)
a Ana Maria
dezoito anos, talvez vinte
Quando se tem sete anos a idade dos adultos é-nos confusa. E tirando os velhos…
a Ana Maria
sei-o agora
gostava mais de mim que do meu primo Ricardo, pois nunca lhas havia mostrado. Nunca lhe havia perguntado
- Gostas das minhas maminhas?
sei-o agora
porque um juramento com a cabeça não vale, não é? Espero que Deus entenda assim
que a Ana Maria entenda que sim
um descuido
como um espirro
juro que como um espirro
“por Deus”
que como um espirro
- Juro.
- Juro que a Ana Maria não me põe em cima da cama e me mostra as maminhas para eu mexer.
- Quê, puto?
o meu primo Ricardo
- Quê, puto?
obrigando-me a jurar de novo
e eu
“por Deus”
(por quem mais)
- Juro por Deus que não me deixa apertar assim…
(a exemplificar com as mãos)
deixando o meu primo Ricardo de boca à banda
a jurar por Deus que
- … nada a ninguém.
- Juro.
Afinal eu também jurara que ele
quinze anos
adulto
portanto
- … não fuma no quintal às escondidas, tia. Nem na garagem. Juro por Deus.
Afinal um segredo é um segredo!
Se eu fosse a contar…
(ela não, a menina Estrela)
mas é a mesma coisa
ligava lá para a central
(que na altura não havia cá telemóveis)
e mandava vir o Pires.
- Tanta vez!
- Era uma senhora. Coitadinha! É assim a vida! Vão-se embora os bons e os maus ficam cá, para semente, que é boa! Anda tudo ao contrário! Mas o que é que se há-de fazer. Deus é que sabe. Olhe, que lhe tenha lá alminha em descanso!
- Tanta vez, menina! Tanta vez!
- Olhe, uma vez, eram quatro da manhã
(nunca mais me esqueço, tinha ido levar um cliente à Artilharia 1)
ligaram-me para o rádio para ir à Rua de São Bento, 193. Já sabia para quem era. Meia hora depois arrancávamos para o Porto.
- Tinha uma confiança em mim, que a menina nem calcula! Sei de coisas que nem os melhores amigos dela sonhavam! E o que já insistiram comigo para escrever um livro!? Calhando, ficava rico! Mas eu quero lá saber do dinheiro! Olhe, tenho uma casa paga, o carro é meu, uma filha formada, que já me deu dois netinhos
(são estas duas jóias, aqui ao lado do S. Cristóvão)
de modo que o dinheiro…
- Há coisas que não têm preço, menina. Não concorda? Obviamente! É uma riqueza que está aqui dentro e vai comigo para a cova. Por isso, quando a malta amiga
- Ó Pires, porque é que não escreves um livro com essas coisas, pá?
eu logo
- Não!
E não! Por dinheiro nenhum! Olhe, só se fosse pela saúde destas duas joínhas que aqui estão. Nem pela minha. Pode a menina acreditar. Nem pela minha! Segredo é segredo. Pelo menos cá comigo é assim. Quero chegar lá acima de consciência limpa, piscar o olho à sô dona Amália e receber aquela gargalhada que dizia
- Ó Pires, só você para me aturar estas coisas todas, homem!
- Ai, que saudades, meu Deus!
- Bem, não importa! O que lá vai lá vai. Como a sô dona Amália dizia, e muito bem, “ninguém foge ao seu destino”, e o meu, olhe, é este, andar de cá para lá a levar histórias de um lado para o outro. Mas se eu fosse a contar… ai Jesus! Caía outra vez o Carmo e a Trindade. Olha, olha! O coronel Baptista Lima… ui! Dava cá um livro! Mas não. Fica cá dentro que está muito bem. Ou pensa que foi para o Porto sozinha, naquela noite? Ah! As pessoas sabem lá! Os artistas são homens e mulheres, como toda a gente. Têm é de se abrigar mais, que senão comem-nos vivo. É por essas e por outras que aqui o Pires não quer outra coisa que esta vidinha discreta. Às vezes é complicada. E de que maneira! Mas não trocava isto por nada, menina. Acredite que não. E quem me tirasse este carrinho das mãos era abri uma cova e chutar-me lá para dentro. Mas ser artista… Não! Eu sou dos bastidores. Olhe, ainda fiz teatro, quando era novo. Entrei numa peça com o mestre Eugénio Salvador, que Deus tenha, no Maria Vitória. A menina já não é desse tempo. Mas não dava para aquilo. Tinha de trabalhar, e depois os ensaios… Enfim! Entretanto conheci a minha Elvira e, olhe, o teatro foi outro. Ah,ah,ah… Ai, ai! Mas prefiro assim. Vejo muito, falo é pouco!
- Falei na sô dona Amália porque causa do fadinho que passou. Ainda hoje, e os anos que já lá vão, sempre que a ouço na rádio, fico todo arrepiado. Olhe, de estar a falar nisso. Mas o que não faltam são artistas que eu já levei aqui, menina! Quer dizer, aqui não, que este é novo. Era um outro Mercedes, um 300 Diesel. Aquilo sim era uma máquina! Não é que me possa queixar deste
(Mercedes é Mercedes)
mas já não se fazem carros daqueles. Sabe quantos anos trabalhou ele nas minhas mãos? Todo o santo dia, que nas folgas ia sempre dar uma volta com a patroa a e filha? Vinte e cinco! É verdade! Vinte e cinco anos, menina! E sabe quantas vezes é que me deu problemas? Uma. Um furo! Ah,ah,ah… Ai, ai! Até dava gosto! Para mim era família. E quando tive de me desfazer dele, foi como se me tivesse morrido um irmão. Até chorei. Palavra de honra, menina! E olhe que fiz duas campanhas na Índia. Isto pode parecer parvo, mas era um companheiro. Passei mais horas com ele do que com a minha mulher. Olha, olha! Se fosse a fazer contas: dias de trabalhar doze, catorze horas. Semanas sem folgas, que isto a vida não era simples. A malta nova hoje queixa-se, e a menina desculpe, mas sabem lá o que isto já foi.
- De modo que não é este, mas… A gente que aquele menino conheceu! Olhe, aquele é que se soubesse escrever tinha mais histórias que o Diabo! Que um homem aqui à frente vai de olhos na estrada. Nem sou cá pessoa de espreitar pelo retrovisor. Se falarem comigo, tudo bem, senão, vou aqui no meu cantinho, caladinho que nem um rato. Ouço as notícias, e tal. O resto também interessa pouco. Até a rádio já não é o que era. Dantes era uma companhia, agora… O que é bom acaba depressa. Sabe? Tenho saudades é dos Parodiantes! Ah,ah,ah… Esses andavam sempre comigo para todo o lado. E cheguei a transportar alguns. Não me lembro agora é do nome de nenhum. Bem, não importa. Mas aquele menino se soubesse escrever… Ui! As coisas que às vezes se fazem nos bancos de trás dos táxis. Imagino!
- Olha-me para este agora. Anda lá com isso, pá! Cartas da farinha amparo! Hoje qualquer um tem carta! Por isso é que isto anda tudo entupido e é só acidentes. No meu tempo, menina, para se tirar a carta até aulas de mecânica tínhamos de ter! Mas não era cá aprender a mudar pneus! Era mecânica! Agora, desde que se pague, toma lá e faz-te à estrada. Tenho mais medo de certos tipos que andam na estrada que do Diabo!
- Mas como lhe dizia, menina: Tantos! Nunca mais daqui saíamos. Olhe, só para ter uma ideia: Raul Solnado; Carlos do Carmo; o falecido Ary dos Santos; a Beatriz Costa, coitadinha, que Deus também já lá tem; o grande Tony de Matos, outro que também já lá está. Tantos, menina! Olhe o Badaró. Esse nem sei se ainda é vivo ou não. Já não é do seu tempo. Ainda se lembra!? É o do limpa o pó, é. Era um prato, esse malandro. A Ivone Silva. Ai, do que eu me fui lembrar! Uma vez apanhei-a à porta do ABC, valha-me Nossa Senhora, nem sabia onde morava… Foi o saudoso José Viana que a teve de ajudar a entrar no táxi, que vinha às arrecuas.
- Não é assim, ó Ivone!
parece que o estou a ouvir
e ela
- É assim é. É para trás que mija a burra!
Era uma senhora!
Tantos, menina! Tantos! Nunca mais daqui saíamos.
Sunday, November 16, 2008
Olha o passarinho
- Está ali um pente e um espelho se quiser dar um jeitinho ao cabelo.
o fotógrafo…
corrijo
o retratista
(camisinha às flores)
a indicar-me com o dedo
(acusador)
como que a obrigar-me, ou à vergonha em mim, a dar
- … um jeitinho ao cabelo.
que
de cabelo no ar
(embora o não dissesse)
lhe estragava arte
que os fotógrafos
corrijo
os retratistas
crêem-se uns artistas
por isso
- Está ali um pente e um espelho…
(se quiser)
na ponta do dedo
(acusador)
- …um pente e um espelho…
(só se quiser, está claro)
na subtileza da comunicação, a ouvir-se
- Que de cabelo no ar estraga-me a arte.
ou
- Depois não se venha cá queixar que ficou com cara de porco-espinho!
e tudo isto no bouquet paralinguístico de
- Está ali um pente e um espelho se quiser dar um jeitinho ao cabelo.
De modo que eu
dois passinhos para o toucador
(no silêncio dos obedientes)
onde
- … um pente e um espelho…
e o meu reflexo, contrariado, à espera de mim para
- …um jeitinho ao cabelo.
O pente
bidimensional
dentes finos, dentes grossos
deitado sobre o naperon
de olhos baixos, nu, envergonhado
cheio de cabelos e caspa
a pedir-me desculpa
(prostituta entre dois fretes sem tempo de passar pelo bidé)
no embaraço próprio dos objectos sujos
conforme um espelho reflectindo o dono.
E eu a estender-lhe a mão
embaraçado por embaraçá-lo, a fingir que
nojo nenhum, importância alguma
(Coitado, não tinha culpa. Tinha era caspa, com cabelo, como muita gente!)
a pegar nele
e o pente
retraído
a mudar de cor
embaraçado
não obstante eu
- Tem de ser amigo.
a levá-lo à cabeça num gesto só
a fingir que
nojo algum, nenhuma importância
apesar das voltas do estômago
como se o pente uma garfada de mioleira pela goela abaixo, provocando-me arrancos de vómito, contracções na cárdia.
E nisto
um risco ao meio, perfeitinho, porque o cabelo a afastar-se sozinho
de mãos na boca, contendo o vómito
como o mar vermelho
metade para cada lado
com nojo de Moisés
enquanto o fotógrafo
corrijo
o retratista
(calcinha vermelha)
faraó impiedoso
procurando lentes, olhos de Rá, a umbela, pequeno pálio contra a luz forte do deserto
(salinha a que chamam estúdio)
(…uns artistas)
à espera que eu acabasse de dar
- … um jeitinho ao cabelo.
E de volta à salinha
(a que chamam estúdio)
(jeitinho dado)
o dedo acusador apontado ao centro, ao banquinho de enroscar
desenroscar
de s’ enrascar
desenrascar
o banquinho
ao centro
diante de um painel de palmeiras, gaivotas e mar
onde eu
jeitinho dado
risquinho ao meio
a tomar lugar
direito
a julgar que
direito
pois o fotógrafo…
corrijo
o retratista
(sandalinha de couro)
a dizer
- Um pouco mais para a direita.
- Já foi demais.
- Para a esquerda agora.
Numa indecisão parlamentar
- Endireite a espinha.
E eu com vontade de lhe gritar
- Quem tem espinha são os peixes.
a endireitar a “espinha”
(no silêncio dos obedientes)
não como ele queria
que os artistas nunca estão satisfeitos
a aproximar-se de mim
camisinha às flores
calcinha vermelha
sandalinha de couro
a aproximar-se de mim com dois polvos de cinco tentáculos, colando-se-me à cabeça, fazendo força
- Assim.
e sem que eu me mexesse
- Não se mexa!
E eu com vontade de lhe gritar que não me tinha mexido, “maricas de merda”
camisinha de couro
calcinha às flores
sandalinha vermelha
que não me tinha mexido
com vontade de lhe gritar
- Quem tem espinha são os peixes.
A não me mexer
(no silêncio dos obedientes)
procurando evitar os tentáculos
perfumados
cheios de anéis e pêlos
paradoxo estético
e
apesar de não me mexer
um tentáculozinho a lamber-me o queixo
- Assim!
toquezinho de nada, importância das importâncias
que os artistas nunca estão satisfeitos
que os artistas
- Cuidado, que me estraga a arte!
que os artistas
- Depois não se venha cá queixar que ficou com cara de Mário Soares.
Um toquezinho de nada e
- Está bom. Não se mexa agora. Isso. Vá, agora um sorrisinho.
e eu com uma vontade de sorrir tão grande quanto de engolir uma caixa de pregos
a forçar as bochechas
(no silêncio dos obedientes)
- … um sorrisinho.
a imaginar um polícia para mim
- … um sorrisinho.
desconfiado
porque a fotografia a não corresponder à minha cara, onde
sorrisinho nenhum
de modo que a fotografia sorridente a ter de pôr uma cara séria, carrancuda, a imitar-me, a colar-se a mim, para não me arranjar problemas com a autoridade
porque os artistas
o fotógrafo…
corrijo
o retratista
(cabelinho pelos ombros)
a insistir
- … um sorrisinho.
E eu com vontade de lhe gritar
- Quem tem espinha são os peixes.
a forçar as bochechas
(no silêncio dos obedientes)
a descolar os lábios
a imitar um sorriso
diferente de sorrir
imitar apenas
a não querer estragar-lhe a arte; para que depois não me fosse lá queixar que ficara com cara de sapo penteado e
(no silêncio dos obedientes)
a olhar para o passarinho
quando
- Agora olhe para o passarinho.
Passarinho, aonde?
anéis e pêlos
paradoxo estético
cinco tentáculos
ardil manhoso
que os passarinhos não têm tentáculos
que os passarinhos não têm anéis nem pêlos
nem paradoxos.
De modo que passarinho nenhum
passarão
não passarão
passarola
passareta
borboleta
pianola
borbotão
de patinha no botão
- Agora olhe para o passarinho.
E eu com vontade de lhe gritar
- Quem tem espinha são os peixes.
a olhar para os tentáculos penados
anéis e pêlos
direito no banquinho de enroscar
desenroscar
de s’ enrascar
desenrascar
o banquinho
ao centro
diante de um painel de palmeiras, gaivotas e mar
onde a brisa a ameaçar-me o cabelo, o risco, o penteado
de bochechas forçadas
sujeito a arranjar problemas com a autoridade
fixando o pintassilgo
o pintarroxo
o pintainho
até que
Flash
a deixar-me cego
gravado na chapa
com cara de porco espinho
Mário Soares
sapo penteado
que o artista
corrijo
o maricas de merda
camisinha pelos ombros
calcinha de couro
sandalinha às flores
cabelinho vermelho
bem me deu a entender
- Depois não se venha cá queixar…