Tuesday, September 01, 2009

Amor em coma

Hoje, à saída do hospital, quando demos as mãos, senti-me como o teu pai, que acabávamos de visitar
(porque parecia mal não o visitarmos)
embora ele, nem ali para nós
para a vida
para coisíssima nenhuma
(como sempre se queixou a tua mãe)
ligado ao ventilador
em coma profundo
esperança alguma
(pois quem está morto não tem esperança)
apesar do ventilador garantir
- Garanto!
a insuflar
a desinsuflar
- Garanto!
estar vivo.
Hoje
à saída do hospital
quando demos as mãos
(não sei que mão procurou que mão)
(se ambas)
(sequer se foi uma mão aquilo que procurou aquilo que procurou a mão)
(ou ambas)
hoje
quando demos as mãos
senti que não nos… qualquer coisa… há muito tempo
o amor em coma
esperança alguma
porque o que está morto
como quem está morto
não tem esperança
apesar do ventilador
das mãos
a insuflar(em)
a desinsuflar(em)
dois sapos húmidos, corações esverdeados pelo bolor dos dias
feitos o do teu pai que
de repente
rebentou com um cigarro na boca
pum
morto
como quando em criança no quintal da tia Amélia com o Jorge e o Fernando
- Abre-lhe a boca, pá!
ao coração
ao sapo
- Abre-lhe a boca, pá!
um cigarro
conquistado às escondidas numa gaveta da sala
e era vê-lo insuflar
insuflar
insuflar
como o coração do teu pai
pum
morto
como o nosso amor
(se é que algum dia)
amor
pum
morto
apesar do ventilador
arreliado, já
- Garanto! Já disse! Garanto!
estar vivo
morto
a ganhar cheiro
como uma casca de banana que nos caiu da mão para trás do sofá num serão qualquer, algures no tempo, e por lá ficou
a ganhar cheiro
apodrecendo num canto
como o teu pai.
Hoje
à saída do hospital
quando demos as mãos
(ou estas se deram)
uma sensação
qualquer coisa
uma sensação
em jeito de quem acordasse de um coma profundo
como se a tua mão
a minha mão
pás eléctricas de um desfibrilhador
num choque violento, ao menor contacto, arrancando-me, por instantes, ao coma, trazendo-me à cabeça
ao coração
à cabeça
a qualquer coisa
um sofá
algures no tempo
há muito tempo
uma casca de banana a cair-nos da mão.
Demos as mãos. Não demos mais nada. E seguimos de mão dada, calados, que faz muito tempo dissemos tudo.
Seguimos
calados
faz muito tempo
dissemos tudo
e por isso
não demos mais nada
e seguimos
calados
cada qual na sua vida privada
como quando nos juntamos para a cópula a que depois de eu me vir chamamos amor
mas amor nenhum
casca de banana apodrecida atrás do sofá
amor nenhum
vida nenhuma no teu pai
apesar do ventilador garantir
- Garanto!
a insuflar
a desinsuflar
- Garanto!
arreliado, já
- Garanto! Já disse! Garanto!
estar vivo.
Do mesmo modo que garantiria estar vivo o nosso amor só porque uma descarga de mãos nos fez estremecer o miocárdio
(acho que a ti também).
Mas não. Amor nenhum, vida nenhuma
casca de banana, apenas
apodrecida
atrás do sofá
pois uma descarga eléctrica não significa nada
como um dar as mãos
uns lábios mortos que encostamos por encostar quando nos juntamos para a cópula a que depois de eu…
não significa nada.
Uma descarga eléctrica. O que é que tem de especial? Uma descarga eléctrica
um formigueiro
é isso
um formigueiro que nos engana
nos ilude os sentidos
nos faz crer que o nosso amor
(o nosso amor!?
que seja!)
nos faz crer que o nosso amor
ainda vivo
como o teu pai
ligado às máquinas
por certo um formigueiro igual
mas vida nenhuma
uma questão de dias
(que a vida não é senão uma questão de dias)
mais dia, menos dia
pum
como um sapo de cigarro na boca
- Abre-lhe a boca, pá!
igual a
- Garanto!
e nem o teu pai
nem o sapo do quintal da tia Amélia
nem o nosso amor
(que seja!)
nem o nosso amor
vida alguma, já
que insuflar e desinsuflar não basta para estar vivo.
E seguimos
calados
faz muito tempo dissemos tudo
mãos dadas
cada qual na sua vida privada
como quando nos juntamos para a cópula
calados
passeio afora
a provocar inveja nos casais separados
a inveja do moribundo diante do doente terminal que se move ainda pelo próprio pé
pelas próprias mãos
terminal
apesar do ventilador
das mãos
terminal
apesar da inveja
casais como nós (ausentes de mãos) invejosos de nós, como nós
(acho que tu também)
invejosos de casais como nós
porque todos os casais
mais cedo ou mais tarde
como a morte
(uma questão de dias)
como nós.
E nisto
no olhar invejoso dos passantes
(ou eu a querer que
(olhar invejoso dos passantes)
nisto
no passamento que é tudo
um frio a surgir do nada
um medo
a lembrança do teu pai
do sapo no quintal da tia Amélia
a insuflar
já morto
a insuflar no entanto
como o nosso amor
(que seja)
já morto
um medo
um frio a surgir do nada
um azedume na boca
como se a boca um sapo insuflando a morte
um cigarro que nunca acendi
(nunca)
porque medo de
pum
medo
mais do que medo
qualquer coisa que as palavras não alcançam
um frio a surgir do nada
a apertar um pouco a mão
não eu
o medo
numa massagem cardíaca à altura da anca
num desespero
qualquer coisa que as palavras não alcançam
(pode ser medo)
a apertar um pouco
a mão
(acho que tu também
ou eu a querer que tu também)
um pouco a mão
um reflexo
capaz que reflexo
não bem um movimento
uma intencionalidade
um reflexo
como o miocárdio do teu pai
o último pulsar do sapo antes de rebentar
as melhoras da morte
a gerar em nós
(acho que em ti também
ou eu a querer que em ti também)
qualquer coisa próxima da esperança
da vida
nem uma coisa nem outra
apenas qualquer coisa próxima
um reflexo de vida
nada a ver com vida
um reflexo apenas
alguma coisa comparável a um ventilador, a garantir-nos
- Garanto!
ainda estarmos vivos.

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