Friday, December 19, 2008

Isto tá bonito, tá!

- Barda merda mais às criancinhas de África, pá! Até parece que aqui não há fome! Passei pouca, eu! Não nos quiseram de lá para fora? Atão agora desemerdem-se, amanhem-se sozinhos, olha o caralho! Ah, que Deus, que os portugueses assim, que os portugueses assado… Estão melhor agora, qués ver!? Olha, os meus velhos deixaram lá tudo! Três malas de roupa e nem uma cá chegou! 
 Isto é mau, isto é mau, mas toda a merda cá vem parar! Isso é que eu sei! Se é mau, puta que os pariu, pá! Vão lá para a terra deles, ou o caralho! Temos de ajudar? Ó Calisto, foda-se! Eu sei o que é que estou a dizer, pá! Vim de Angola com uns calções, umas cuecas, umas meias, uns sapatos, uma camisa e um boné. Mas tás a brincar comigo ou quê? Eu sei o que estou a dizer, pá! Passei por elas!
 Ajuda? Mas tu achas o Estado português tá interessado em ajudar as ex-colónias, pá? O Estado só ajuda aqueles que o ajudam a ele! Ou tu achas que têm poucos interesses por lá? Hum? É petróleo, é diamantes, é ouro, é o caralho! Têm tudo, aqueles gajos, pá! Logo não ajuda merda nenhuma, pá! Olha lá o Soares, esse verbo-de-encher… não andava lá aos diamantes, mais o caralho do filho dele, aquele cara cu mal fodido? Olha, quando caiu o helicóptero, o que é que andavam por lá a cheirar? Às zebras para fazer passadeiras, qués ver? Conta-me histórias! Olha, havia de ter sido eu e ficava lá! Essa é outra, pá. Se for um pobre a ter uma dor de barriga, caga-se todo e ainda o fazem limpar o corredor das urgências. Agora um burguês? Até o lhe limpam o cu com a aba da bata.
 Só te dão um chouriço se lhes deres um porco. E tens de ser tu a matá-lo. É como os bancos, pá! Para te darem um tostão já tu lhes destes cinquenta. Ninguém te dá nada, pá! Agora, vou eu ajudar? Tá bem, tá! E quem é que ajuda a mim?
 A mim? Darem-me uma casa a mim? Uma pouca de merda é que me dão, pá! As casas são para os gajos das barracas, que não mexem uma palha e ainda recebem subsídio! Eu trabalho, pá! Tenho três filhos e a mulher desempregada! Pago quinhentos aerios de renda, ganho oitocentos: comer, água, luz, gás… e já foste. Não fosse a minha sogra a dar algum, andavam-me os putos a chuchar no dedo de manhã à noite para enganar a fome!
 Mata-se um gajo aqui a trabalhar para quê? Isto tá bom é para os ladrões, pá! Um gajo assalta um banco, no dia a seguir já tá cá fora. É uma maravilha! E quanto mais roubares melhor! Olha lá aquele cabrão do Benfica! Vê lá se ele não dorme descansado! Ligas a televisão e é só merda dessa! É políticos, é empresários, é advogados, é o caralho! Agora vai lá tu roubar um pão e vais ver a volta que levas! É a mesma merda que os impostos, pá! Não pagas a horas, tás fodido. Mas se for o Estado que te deva a ti, tas fodido na mesma! Mordes o esquema? Tás sempre fodido, é o que é, pá! E nem piu!
 Sabes o que é que eu te digo? Fazia cá falta era outro Salazar! Punha esta merda na linha que era um foguete!
 Com o ordenado que eu tenho vai lá tu pedir um crédito. Mandam-te ir apanhar no cu e ainda se riem na tua cara! Por isso, olha, quinhentos aerios todos os meses para as unhas da senhoria e uma casa minha, nem um tijolo!  
 Mas depois vem o caralho dos ciganos e
 bumba
 toma lá uma casa nova, ó Tarota! 
 E aqui o Chico, que se foda! Se quiser uma casa que a compre! Alomba que nem um burro, que até se amola, e quando vai ao banco perguntar como é que funcionam a coisas dos créditos, olham para um gajo de sobrancelhas em arco como que a dizer
 - Ó amigo, só de olhar para a sua camisa, digo-lhe já que isto tá mau de créditos! 
 Olha que caralho, hem!
 E ainda por cima nunca estão satisfeitos, os cabrões dos ciganos! São como os porcos, deita-lhe palha limpa, mas vão-se é espojar na estrumeira! 
 É uma merda, pá!
 Tudo aumenta, tudo aumenta, só o ordenado de um gajo é que parece a picha de um velho! Só quando é para caçar votos é que aparecem a prometer este mundo e a cabeça do outro. Foda-se! Vão pó caralho! Encostá-los à parede ainda era pouco! Mas os portugueses são muita burros, pá, graças a Deus! Já tínhamos feito uma revolução à séria! Olha, o que fazia cá falta era uma guerra civil! Vê lá os espanhóis onde é que eles tão. Ou atão uma merda maior ainda! Vê lá alemães. Foderam-se duas vezes e duas vezes vieram à tona. São como os cagalhões, os sacanas! Não se afundam nem à pedrada. 
 Agora aqui? Oh, pá! É levar no cu desde que nasces até que morres! E depois de morto só não te enrabam se não puderem! tás-te a rir? Sabes quanto é que gastámos com a morte do meu velho? Quase trezentas biscas, pá! Não tivesse ele deixado uns trocos e tinham-no enterrado na vala comum! É como eu te digo, ó Calisto! Isto tá bom é para os gatunos, pá!
 Se não fosse cá por merdas assaltava um banco! Mas bater com os costados na pildra e sujeito e a apanhar sabonetes! Foda-se, tá quieto! A merda toda é essa! Senão a ver se não era!
 Eu não sei onde é que isto vai parar, pá! Os putos, não têm educação nenhuma. Mandam mais eles que os pais! Na escola fazem o que lhes apetece. Se um professor lhe espeta um tabefe no focinho tá mais fodido có caralho. Havia eu de dar ao meu pai certas respostas que às vezes ouço para ai! Levava um avio de cachaporra pelos cornos abaixo que dava para o mês todo! Mas de quem é a culpa? Claro que é dos pais, pá! Dos pais e da merda dos psicólogos! Isso é outra raça que anda para aí a encher o cu à custa dos pacóvios! Eu bem gostava de saber se na casa deles os filhos fazem o que lhe dá na telha e é só conversinhas mansas, como na televisão. Gostava de saber se na casa deles não se grita. Urtigas no cu dos outros são malvas! Hoje não se pode fazer nada aos meninos! Senão ficam todos traumatizados. Coitadinhos! Levei poucas, eu! E ainda aqui ando! E digo-te que se levasse mais não tinham sido mal dadas! Sabes como é que dizia o meu pai? “A porrada não educa, mas conserva”. É como te digo, pá! Só se perdem as que caem no chão. Levassem eles umas lamparinas na trombil quando as pedem e não se via a pouca vergonha que se vê hoje! 
 Ó Calisto, não me fodas, pá! Atão mas antigamente havia respeito aos mais velhos e hoje não há porquê, caralho? Deixam-nos fazer tudo! Depois ficam como aquele puto do anúncio, que só dá vontade é de lhe dar duas bolachadas no focinho! E a ele e à mãe! Tem côdea! Foda-se! Tem côdea? Tivesse eu côdeas quando tinha a idade dele, pá. Vim de Angola num barco carga, com sete anos fui viver para a Charneca, para uma barraca de contraplacado, que aos meus velhos ninguém deu casa! Brinquedos eram pedras e paus, e aos onze, obras com ele, que já tinha escola a mais! Isso é que é trauma, não é umas lambadas quando fazem falta! Por isso é que esta merda anda cheia de paneleiros, ou o caralho, que até mete nojo! Tem cona! Raios partam esta merda, pá! 
 Havia de ser um filho meu a torcer-me o nariz ao pão! Ao pão ou ao que quer que fosse! É de pequenino que se torce o pepino, ou não é? Os meus cá, assim que começam a levantar cachimbo, e ainda são pequenitos, levam logo pela medida grossa. Era o que faltava, um fedelho meu mandar em casa! Antes cagar um pé de merda que levar um filho meu a um psicólogo! É uma corja, pá! É o que eu te digo. Vai por mim! Olha, psicólogos e políticos, era pô-los todos num barco com uma machadada no casco! Foda-se! Eu é que devia mandar nisto, pá! Não sei onde é que isto vai parar, ó Calisto… mas antes que isto piore, manda ai vir mais duas, que agora pago eu. 
 

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