Monday, June 30, 2008

Quase Mulher

Há meses que o Valentim não me procura. Há meses que

também eu

perdi a coragem de

uma pontinha de pé nos pêlos das suas pernas, num miado de gata com…

Há meses

Fevereiro

28 para ser mais exacta

que o doutor Gama Seixas

- A senhora tem um cancro na mama.

que a vida se me cristalizou diante dos lábios, incrédulos

- Como?

- Dezoito milímetros dona Adélia. Temos de operá-la o quanto antes. E perca as ilusões de salvar o peito. Não há como arriscar.

E eu que nunca me descuidava com os exames; eu tão certinha e

- … perca as ilusões de salvar o peito.

como se negligência da minha parte, como se eu não me apalpasse, me conferisse, como se o Valentim

as mãos cegas do Valentim…

e uma raiva enorme a acumular-se em cada passo a caminho do autocarro

para Benfica

uma raiva enorme do Valentim que

de mãos no meu peito

sem me sentir

como se duas bolas de esponja para a fisioterapia das artroses. Uma raiva enorme porque nunca me prestou atenção; porque de tanto as apertar, de tanto puxar por elas

(como se eu a mãe que o deixou à porta da maternidade)

nunca sentiu nada a mais.

- Dezoito milímetros…

Por favor!

A sentir-me usada, abusada, negligenciada…

e uma raiva enorme a escorrer-me para o lenço: o último de um maço encetado na paragem

para Benfica

onde o decote da blusa ainda a ser alvo de olhares

embora eu

vontade de gritar

- Gostam do meu cancro, javardos?

com raiva, a senti-lo diminuir, desaparecer

e

dentro de uns dias

nenhuns olhos a procurarem o decote que

nunca mais coragem de usar

como nunca mais coragem para uma pontinha de pé nos pêlos das pernas do Valentim. Já lá vão uns meses

estamos em Agosto

22 para ser mais exacta

portanto, desde Fevereiro

28

um dia antes

para ser mais exacta

a 27, portanto

que o doutor Gama Seixas

- A senhora tem…

… um cancro…

Agosto

estamos em Agosto

e o calor a puxar por mim, pelos humores de mim, mas eu, a não querer ser mais rejeitada do que já me rejeito, a

nem uma pontinha de pé nos pêlos das pernas do Valentim

miado de gata com…

Nada!

- E com a luz apagada? - Eu a tentar junto de mim uma solução, uma abreviação. Mas a escuridão não apaga tudo, visto no lugar do peito apenas o lugar do peito, pois a reconstituição

- Um dia…

o doutor Gama Seixas

embora para destruir

- …o quanto antes.

mas para reconstruir, nenhum médico

- Temos de operá-la…

E o autocarro

a caminho de Benfica

a passar ao longo do cemitério

e eu

a doer-me por dentro

com vontade de agarrar-me a toda a gente, aos pés de toda a gente

a pedir

- Ajudem-me! Por favor, não me deixem morrer! Não quero morrer, por favor! Estou cheia de medo! Alguém me agarre, por amor de Deus!

a pedir

suplicar

para ser mais exacta

que tivessem pena de mim, que me ajudassem

se todos quisessem, se todos fizessem um esforço, se todos estivessem do meu lado

tudo mais fácil

tudo muito mais fácil.

Mas as caras apertadas, cheias das suas vidas, como se em cada peito um cancro, a bater em vez do coração

contagem decrescente

tum-tum, tum-tum

condenados todos.

E eu a querer chegar a casa, agarrar-me ao Valentim, na esperança de que ele me salvasse, de que ele me acordasse daquele pesadelo, de que ele…

um abraço

em silêncio

(não importa )

garantindo-me

- Foi um pesadelo, já passou!

caso não mo pudesse garantir

pelo menos

- Vai tudo correr bem. Não te preocupes. Eu estou aqui. Ao teu lado. Sempre!

Também já era pedir de mais!

Ou a minha mãe, que há anos tinha morrido

doze

para ser mais exacta

e que me faltava agora como nunca. Eu a querer voltar atrás, eu a prometer que me portaria bem, eu a jurar que faria tudo quanto ela ou Deus quisessem, eu a garantir que aprendera a lição, eu a qualquer coisa, a assinar a minha sentença de morte para me salvar

como quem se atira de um centésimo andar em chamas.

Mas nada!

A sala vazia

os quartos

eu toda

como a casa

a enrolar-me no sofá, como se nos braços de Deus, no útero materno, um instante de conforto, de protecção, couto almofadado onde nada me poderia tocar. Mas

- …um cancro…

não o jogo da apanhada. De modo que

dias depois

oito

para ser mais exacta

a acordar como uma amazona, numa floresta verde de cortinados desesperançados. A mão esquerda a procurar o seio direito, porque a direita não se podia mexer e

nada

apenas o lugar onde um dia

uma mulher completa

de encher o olho

o decote, alvo de olhares

e a enfermeira, toda sorrisos

- Como é que se sente?

com dois fartos seios apontando para mim, a encherem-me os olhos de lágrimas mutiladas.

- A operação correu muito bem! Daqui a uns dias já estará em sua casa.

Cinco

para ser mais exacta.

E agora, meses depois, o Valentim, como se eu um monstro

não uma amazona

um monstro

a não me procurar

e eu

sem coragem para uma pontinha de pé

uma pontinha pé nos pêlos das suas pernas.

Friday, May 30, 2008

Solidão em biquinhos de pés

E as tábuas das escadas

a que chamam degraus

a rangerem-me sob os pés, denunciando-me os passos aos outros hóspedes da pensão. Um resmungar que só lhes ouvia a altas horas da noite

talvez porque a dormirem já

a acordarem por minha causa

dos meus passos atordoados, pesados do vinho e do sono, no resmungar da velhice, dado que tudo o que é velho geme e resmunga.

Eu compreendo. Claro que compreendo. O dia todo para acima e para abaixo, no clep-clep fofo do tapete que lhe lhes abafa o queixume e não deixa que as agridam tanto. As escadas são de origem, e a pensão, de mil nove e tinta e nove. Passou-lhes a guerra para cima e para baixo

clep-clep

tapete nem meio tapete

que quando se é novo não se geme de queixa.

Mil nove e tinta e nove

a guerra

para cima e para baixo

de modo que agora

qualquer coisinha

os nervos à flor da cera

especialmente à noite

quando o silêncio amplifica o tamanho e o peso dos homens, e o tapete não chega para lhes amordaçar o queixume.

Mas eu não posso vir mais cedo. Compreendam vocês também que eu não posso

mais cedo

pois se me deito sem sono, ou sóbrio, penso na vida que não tenho. E porque o pensá-lo é sinal de estar vivo, entro em conflito comigo, porquanto não entendo o paradoxo de estar vivo e não ter vida. Entendem? Nem eu! Eu prometo descalçar-me à entrada

é isso

descalçar-me à entrada

aliviar o passo…

Ai é a mesma coisa? Então se é a mesma coisa não me chateiem e muito boa noite, que pago as minhas contas e tenho mais que fazer que gastar latim com um xilofone de tábuas desafinadas. Ora não querem lá ver! Não é o meu dinheiro como o dos outros? Tudo igual, minhas queridas! Só mudam os horários.

Não posso vir mais cedo! Caramba, já disse que não posso vir mais cedo, que inferno! Se me deito sem sono… sóbrio… penso na vida… sinal de estar vivo… conflito comigo

ou conflituo comigo

que às vezes não há diferença entre substantivos e verbos, quer existam quer não. Isto para verem que não sou nenhum inculto que para aqui ando. Só não posso é deitar-me sem sono

sóbrio

porque penso na vida que não tenho. E depois

conflito

como em mil nove e trinta e nove

sabem como foi

que também é sinal de estar vivo

paradoxo

estar vivo e não ter vida.

Entendem?

Eu sei que são velhas e têm direito ao sossego e ao silêncio da noite, mas olhem, estudassem, se queriam ser escadas de púlpito, que essas sim são só para enfeitar, pois sermões é coisa para dar aos peixes, e, para lhes chegar, não são vocês precisas para nada. Se fossem escadas de quinta a esta hora estavam deitadinhas no celeiro a dormir o sono dos justos, nas palhinhas como o menino, que também é filho de carpinteiro. Mas, e então?! Também eu se fosse mais fino não dormia no segundo andar desta espelunca. Dormia no Ritz, no Palace.

Ah que Deus, daqui a nada são sete da amanhã e já começa o para baixo e para cima dos que têm ou não têm que fazer. Que tenho eu com isso? Os guardas-nocturnos também dormem de dia, tal como as raparigas de má fama. E se eu fosse um desses? Hum? Como é que era, se eu fosse um nocturno de má fama, ou um guarda-raparigas? Hum? Ah, não dizem nada!

Eu que até tenho consideração, que até suavizo o peso, respirando pouco

e olhem que quatro lances de pulmões vazios não é brincadeira

disposto até a descalçar-me à entrada

aliviar o passo…

Agora se é a mesma coisa… boa noite!

E ao chegar ao quarto, a porta

uiiiick

a ranger, denunciando os meus gestos aos outros hóspedes da pensão. Também ela estava a dormir. Também ela a resmungar. Também a ela lhe passou a guerra de um lado para o outro. E eu que não casei para não ter quem me controlasse os passos, os gestos, as horas e no fim dá nisto. Irra! Mais um copo ou dois e não lhes ligava peva, agora assim, no intermédio da razão… Anda-se um homem a poupar para quê? Para ter chatices, é o que é!

Mais um copo ou dois e nem escadas nem porta, nem o raio que as partisse: uma auto-estrada sem portagens do balcão à tarimba. Agora assim tudo manda vir com um homem

que ninguém percebe isto de estar vivo e não ter vida

o paradoxo

e ao pensá-lo, olho para a cama, quieta, no seu sono madeira e molas

(a ela não lhe passou a guerra por cima).

Pelo menos a de mil nove e trinta e nove!

Passaram outras

que numa cama só há paz depois da guerra.

Sento-me à beirinha, procurando não a acordar, levanto um pé

nhec

numa demora de preguiça a trepar à árvore

pata a pata

outro pé

nheeeec

a acordá-la por fim, num rabujar de madeira e molas…

Deito-me vestido. Estou quentinho, quero que se lixe. Fecho os olhos

os ouvido não consigo

nhec-nhec…

a respirar devagarinho para não despertar nela a fúria de esposa amuada pelo despertar do sono, pelo tarde das horas, pelo cheiro a álcool, a fingir-me adormecido já, mas o ranger, como um resmungar enervante de esposa nos meus ouvidos

nhec-nhec… nhec-nhec … nhec-nhec …

como que

- E não finjas que estás a dormir. Não faças que não me ouves.

nhec-nhec… nhec-nhec … nhec-nhec …

Era mais um copo ou dois… agora assim, no intermédio da razão…

nhec-nhec… nhec-nhec … nhec-nhec …

- São isto horas de me vir acordar? Lá porque pagas as contas achas que tenho de estar sempre pronta para levar contigo em cima?

nhec-nhec… nhec-nhec … nhec-nhec …

E eu que não casei para não ter quem me controlasse os passos, os gestos, as horas e no fim… Mais um copo ou dois e podia nhecnhecar à vontade que eu

peva

agora assim, no intermédio da razão… Anda-se um homem a poupar para quê? Para ter chatices, é o que é!

Arre porra que é demais!

A nossa música

Há pouco, quando vinha no carro, passou a nossa música. Há muito tempo que não a ouvia e

apaixonei-me de novo por ti.

Temos destas coisas, não temos? Apaixonarmo-nos de novo ao som de uma música antiga, não é? Uma bebedeira que passa, como todas as coisas que passam.

Quando entrei em casa, cansado do táxi, vi-te do bengaleiro

na confusão dos tachos

nenhum segredos para ti.

e pareceste-me bonita, como há muito não te via, e até as tuas pequenas imperfeições

o olho vazado pelo acidente da fábrica; a verruga no pescoço, que desde que apareceu evito olhá-la...

Desculpa amor, nunca to ter dito! Desculpa ainda agora pensá-lo no silêncio do não te dizer ainda. Sabes que tenho pavor de insectos, não bem insectos, mas não sei que nome tem a classe das carraças. Aracnídeos? Acho que num concurso de televisão

- Aracnídeos.

Deve ser. Afinal também tenho nojo de aranhas.

Não é por mal! Os traumas nunca são por mal, não é? E ninguém sofre mais com eles que os traumatizados. Uma febre em criança. Sempre tivemos cães, e o Alentejo, quente como tu sabes… Vai daí que… Por pouco que não me apaguei, disse o Doutor Juvenal Seixas à minha mãe

o meu pai na Suiça

e estas coisas, tu sabes, marcam uma pessoa para a vida toda.

Mas agora, importância alguma. Contigo aí, vista do bengaleiro

na confusão dos tachos

nenhum segredos para ti…

Estavas calada e calada ficaste logo a seguir ao

- Olá.

mecânico, como o beijo que há muito já não damos. Não o demos um dia, por causa de uma discussão, e enquanto durou o amuo não o demos, e deve ter-se atrofiado a função. E depois, para retomar o hábito

complicado.

É sempre complicado retomar o hábito.

Devemos ter achado que estava tudo bem assim e o achá-lo criou um hábito novo, o hábito de não ser preciso dá-lo mais. Afinal vinte e dois anos de casamento e mais três de namoro dispensam formalidades e cerimónias. Não é assim?

Mas agora, que tu aí

no silêncio dos dias passados, contados pelo calendário do teu avental

1982

(aonde isso já vai!)

mas que ainda serve, tal como nós, numa recordação obstinada de dias felizes.

Pareceste-me bonita, como há muito não te via

e até as tuas pequenas imperfeições

agora

importância alguma

o olho vazado pelo acidente da fábrica, que te obrigava a olhar-me de lado, para me veres de frente e que sempre me irritou, como se tu

num olhar de esguelha, para me provocar

sem que algum dia me tenhas dito

- Não entendes que é por causa da vista, Samuel?

ou a verruga no pescoço que

por pouco que não me apaguei; o Doutor Juvenal Seixas; minha mãe, quente como tu sabes; o Alentejo, o meu pai na Suiça… vai daí que traumas. Não por mal, mas ninguém sofre mais com eles que uma criança. E estas coisas, tu sabes, marcam uma pessoa para a vida toda. Vai daí que talvez febre alguma, cão algum. Pensando bem, nem televisão, nem concursos; quaisquer aracnídeos traumatizados; e uma aranha não bem numa aranha: uma carraça apenas; uma outra forma de pôr as coisas, embora o nojo todo lá.

Mas agora

(aonde isso já vai!)

importância alguma

apenas tu

aí

vista do bengaleiro

bonita, como há muito não te via

na confusão dos tachos

nenhum segredos para ti

fazendo mil coisas ao mesmo tempo para que a vida não pare, como eu, às vezes, pela cidade, às voltas, para que taxímetro não pare, como se o coração parasse com ele.

Mil coisas ao mesmo tempo.

Sempre admirei essa capacidade em ti; a aptidão que te permitia fazer amor e bocejar ao mesmo tempo.

Agora

alguma coisa estava diferente em mim naquele dia

(a nossa música… Temos destas coisas, não temos?)

mas em ti tudo igual

confusão dos tachos

nenhum segredos para ti…

Nessa noite procurei-te, sem jeito. Não sabia bem como me chegar a ti…

Deve ter-se atrofiado a função. E depois

complicado

sempre complicado retomar o hábito.

Tapei-te os ombros, puxando o lençol

(não encontrei melhor desculpa).

Percebeste o gesto, disseste não ter frio

a voz a pedir um abraço

não importa de quem

um abraço

a luz apagada, um pouco de claridade pelas frinchas dos estores

o candeeiro da rua e espreitar indiscreto

um olho apenas

como vês, importância alguma

e eu uma perna sobre a tua

onde os pêlos

como ervas

crescidos pelo desmazelo do amor

pequenas imperfeições

importância alguma

juro que importância alguma

porque eu

ou melhor

a nossa música

Entendes?

É que…

há muito tempo… e…

apaixonei-me de novo

por ti.

Temos destas coisas, não temos?

Não te preocupes, vai tudo correr bem. Pensei dizer e não disse. Afinal vinte e dois anos de casamento e mais três de namoro dispensam formalidades e cerimónias. Não é assim? De modo que eu

outra perna agora

tu a dares o jeito, a aceitares-me o peso

estranho

no silêncio das palavra que vinte e dois anos de casamento e mais três de namoro

dispensam

à espera de um abraço que depois viria

(viria, sim)

de olhar fixo nas sombras do quarto, acordadas pelo o candeeiro da rua

indiscreto

um olho apenas

(para quê dois quando não há muito já que ver?)

vazia

como a orbita esquerda de ti

(talvez mais coisas vazias desse lado)

por causa do acidente da fábrica

Por que mais haveria de ser?

estando ali e não estando

tu

como olho cego

morto talvez

que os olhos já nascem dentro do caixão que os há-de sepultar

à espera de um abraço

não importa de quem

um abraço.

Presente envenenado

Sabíamos que não o devíamos. Mas sabê-lo não chegava para não o fazermos. Há muito que nos olhávamos com olhos de cobiça. Um homem e uma mulher que nunca se tocaram só se olham em silêncio por um motivo: o desejo de tocarem-se.

Eu sabia-o. E ela, por ser mulher, sabia-o, sentia-o e pressentia-o. A Mila não merecia que lho fizéssemos, e nós não merecíamos ficar por fazê-lo. É difícil julgar. Quem está por dentro julga por defeito e quem por fora, julga por excesso. Somos bichos, que podemos contra isso?

Eu sei que a Suzy era irmã dela, mas dessa parte não me cabia a mim a responsabilidade. A minha responsabilidade era para com a Mila, já nem digo para com a família, ou para com Deus, a quem prometi amá-la e respeita-la por toda a vida. Casámos pela igreja porque a Mila

- Oh, Válter, é o sonho da minha vida!

e porque o sonho

da vida dela

eu a prometer

- ... amar-te e respeitar-te…

Por isso, já nem digo para com Deus

ou para com a família que

nunca me gramou. Especialmente o doutor Silvério, aos olhos de quem eu tinha olhos de manequim, frios e baços. Embora lhe dissesse

(à filha)

- Tu é que sabes!

A Suzy ainda era uma miúda quando eu e a Mila encetámos o namoro, e nessa altura, os seus olhares, provocadores já, encarava-os como provocação de adolescente; afirmação da auto-estima, ou coisa que o valha. Mas quando fez dezoito anos

no exacto dia dos seus

dezoito anos

pareço ter reparado pela primeira vez nela. Como se agora já fosse permitido olhá-la

a filha mais nova do doutor Silvério

com os meus olhos de manequim, frios e baços

contemplá-la, e às formas que tinha, mais perfeitas que a irmã. Agora que

- És finalmente uma mulher.

no abraço orgulhoso que dona Silvana lhe dera por amor e orgulho de mãe.

Estremeci, quando, durante as palmas, deixou a sala às escuras com um sopro só e, de novo, ao acender das luzes, quando os seus olhos em mim, com um morder vela pedindo um desejo

para dois.

Um sopro só

e eu

como a sala

às escuras

dentro de mim, perdido na caverna vazia da culpa do meu desejo.

Morder de vela

dentes e lábios

um pouco de língua

- …finalmente uma mulher

completa

olhos em mim

que um homem e uma mulher que nunca se tocaram só se olham em silêncio por um motivo.

Mas não logo. Não. Um anos depois. Na véspera dos dezanove

mais mulher ainda

impossível de ignorar.

- O meu presente de aniversário. - sussurrou-me - O presente de todos os meus aniversários juntos.

Oh, Deus, como podes ser tão bom e tão cruel!? Como podes ser tão carrasco com a fraqueza de um homem, que sabes, porque sabes, que não será capaz de resistir a uma maçã, quanto mais a duas?

- O meu presente de aniversário.

Sabíamos que não o devíamos. Mas sabê-lo não chegava para

- Isto é uma loucura! - na minha voz trémula de desejo; a não conseguir evitar-lhe

o hálito açucarado

morder de vela

dentes e lábios

um pouco de língua

- …finalmente uma mulher.

a dizer-me num sopro só

- Eu sei que tu me queres.

e eu

como a sala

às escuras

dentro de mim, perdido no poço do inferno, que aquele calor não era

não podia ser

humano

a dizer

- Quero-te.

a repetir

- Quero-te, quero-te, quero-te…

num desespero de primeira vez, e a deixar-me ir, aos poucos, até à ruína de mim; a dar razão ao doutor Silvério, que nunca me gramou, nem aos meus olhos

de manequim, frios e baços

fechados agora

porque eu morto

de prazer e loucura

a querer dizer que não, mas a repetir

- Quero-te, quero-te, quero-te…

E porque eu já dominado, como um boi diante da muleta, a Suzy, num passo de matador, cruel, a perguntar-me diante dos cornos, em cuecas apenas

- Continuamos?

sabendo-me sem forças para resistir à morte

perdido do juízo, delirante de febre

implorando

- Sim, sim, sim…

de modo que ela, desfazendo-se da última peça

um trapinho de nada

fixando-me o olhar nos olhos de manequim, frios e baços, a devolver-me com a voz do pai, numa estocada final

- Tu é que sabes!

Friday, April 25, 2008

O defeito de ser canhoto

Não sei que horas eram. Era de noite, mais nada. Estava um frio de morte e Janeiro parecia que estava do lado deles. Acordaram-me à bruta e levaram-me para o pátio. Um pátio pequeno, um asilo de loucos para o vento, que não parava quieto de um lado para o outro.

Tiraram-me roupa

um cachaço no pescoço

- Que é para abrires a pestana!

Era hora do suplício. Não sei que horas eram

de noite mais nada

um frio de morte

Janeiro do lado deles

pátio

vento

arrepios e medo

um balde de água gelada pela alma abaixo e

- Como é que é meu rouxinol? Vais cantar ou não?

Tremer, tremer, tremer

medo e frio e morte e vento e Janeiro do lado deles.

Preso há três, quatro dias

(um homem acaba por perder-se do tempo)

e ainda mal tinha pregado olho.

Não sei que horas eram; quanto tempo dormi. Se calhar o tempo apenas de fechar os olhos e o guarda

- Upa, upa, que já é dia!

- Quem mais é que está metido nisto?

Tremer, tremer, tremer

medo e frio e morte e vento e Janeiro do lado deles

e uma bota na pontinha dos pés descalços a arrancarem-me uma confissão de dor.

- Quem mais é que está metido nisto? À terceira respondes sem dentes.

- Não sei. Não sei de nada. Juro que não sei de nada.

nem que horas eram nem a quantos estávamos

perdido, mas tão perdido

e nova pisadela nos pés a poupar-me os dentes por mais um pouco.

- Sete.

a lembrar-me por fim. O cansaço tolda-nos a memória; baralha-nos as noções

- Quê?

- Sete. Estávamos sete.

- Quem eram os outros seis?

- Não sei. Juro que não sei.

Mas um homem, entretanto, acaba por se lembrar. Um homem acaba sempre por se lembrar. Só depende da forma como a pergunta é feita e de quem a faz. Um homem que sabe acaba sempre por responder, mais cedo ou mais tarde

Sempre por responder

Por se ir abaixo

por fraquejar

não é bem fraqueza

é instinto.

Muito aguenta ele!

… há três, quatro dias

(um homem acaba por perder-se do tempo)

a tremer de frio e medo e medo e medo

um homem acaba por se ir abaixo

não é bem fraqueza

depende da forma como a pergunta é feita

eles sabem disso

eles sabem de tudo, muito antes de nós

mas é um desporto como outro qualquer

como o professor Romão, da primeira à quarta classe

- Estica a mão.

para me corrigir a deficiência congénita de ser canhoto.

- Já te avisei que não é com essa mão que se escreve. Hás-de aprender, nem que ta tenha de arrancar.

ciente de que, mais cedo ou mais tarde, haveria de mudar de mão, pois

- A esquerda não serve nem para limpar o rabo!

De modo que também eles

à força de porrada haveriam de corrigir-me o defeito

problema antigo

já o professor Romão

- Cem vezes na ardósia.

…direita, direita, direita, direita…

eu a explicar-lhes

Não é por mal, senhores, nasci assim, que posso fazer. Não se bate nos deficientes.

- Qual deficiência, minha senhora!

o professor Romão para a minha mãe, com pena de mim e da minha mão inchada, mas

- Já nasceu com ele. - minha mãe a argumentar. - Não é por mal. Que quer o senhor professor? Há-de agora castigar-se o rapaz por isso. Não escreve Deus por linhas tortas, também? Porque não poderá ele escrever com a mão canhota que é a mais direita que tem e, justiça se lhe faça, senhor professor, caligrafa melhor que muita direita que para aí há. Não sou eu quem o diz, é o senhor Marcelino.

…

- O da mercearia. - a minha mãe a descuidar-se sem querer, a fazer a cama ao merceeiro, coitado, que não o dizia por mal.

…

Mas há que Deus que é assim! O que pode uma mãe fazer?! O senhor professor é que sabe. Eu não conheço uma letra nem do tamanho de um comboio. Mentira, conheço três

Ana

A minha pobre mãe, até nisso ingénua. Conhecia apenas duas. Duas letritas apenas e tinha o nome escrito, igual da direita para a esquerda e da esquerda para a direita.

Ainda expliquei isso, mas os senhores

que quem está acima de nós é senhor

ou Senhor

a não quererem explicações

nomes apenas

de modo que eu

Rui Gomes; Guilherme Pato; Rosa Fusca; Patrocínio Almeida; João Bolhas e Fernando Lopes.

Um homem acaba sempre por se lembrar. Só depende da forma como a pergunta é feita e de quem a faz. Um homem que sabe acaba sempre por responder, mais cedo ou mais tarde

não é bem fraqueza

é instinto.

Solitariamente gira

Sábado à noite

um grupo de amigos

e eu

à espera da hora de ir para casa. Hoje em dia, ao fim de um bocado, sinto sempre já serem horas de ir para casa, embora acabe invariavelmente por ficar mais um pouco. Acontece-me quando já me dói o corpo de estar no sofá; quando o despertador toca de manhã, ou quando o sono aperta à hora de ir para a cama. Não sei porquê, mas não duvido que hajam centenas de livros a explicarem o fenómeno.

Como Curar a Falta de Imediatismo

Não Desperdice um Minuto na Vida

Aprenda a Derrotar a Inércia em Dez Lições

Onde é que isto já vai!?

Sábado à noite

amigos

eu

à espera…

uma conversa que não me lembro, e tu

a abrires a cortina da rua

a surgires

a passares diante de nós…

Não duraste muito

o resto da rua apenas

(que por ali as esquinas engolem as pessoas como baleias gigantes)

desaparecendo-me da vista e da vida nunca mais, pensei. Não podia ser! As coincidências não são tão coincidentes assim. Jamais te tornaria a ver, embora pudesse vir a casar-me contigo, visto ter demorado o tempo todo a olhar-te e nenhum a prestar-te atenção, o que faria com que jamais te reconhecesse, o que faria com que fosses apenas aqueles vinte segundos da minha vida, e qualquer outro encontro, pura novidade. Ou a obstinação de perguntar por ti a cada nova pessoa que a vida me fosse apresentando no teu formato.

- Sim, Sábado à noite

dia tal, às tanta horas

um grupo de malta à porta do bar.

Descrevendo-lhe os meus amigos.

Impossível!

Tu não olhaste para ninguém

levavas pressa no olhar

ou determinação

(tenho tendência para confundir as duas)

mas ainda assim a perguntar

- Não te lembras?

e tu

ou não tu

talvez para a pessoa que nos apresentasse

- Este teu amigo não é lá muito bom da cabeça, pois não?

Por isso

para que não fosses para sempre

como essa noite, de que fazes parte eternamente

segui-te.

Era Inverno, mas a noite estava quente

ou era eu

(tenho tendência para confundir…)

e compreendi que a pressa que levavas era apenas a vontade de me levar dali. De modo que

depois da esquina que pareceu engolir-te

um sorriso nos olhos e um braço à espera de um braço, a dizer

- Estava a ver que era preciso chamar-te!

Furámos pelo meio dos corpos - apenas corpos - que apinhavam as ruas estreitas do bairro e descemos para a calçada do Duque, onde uma porta aceitou numa harmonia silenciosa a chave da tua mão. Há coisas que foram feitas umas para as outras, não achas?!

Subimos, e em menos de nada estávamos na Sé de Braga, onde toda a vida sonhaste casar

e eu

que nunca vira igrejas em sonhos, alianças ou grinaldas, a dizer

- Sim, aceito.

quase sem força nas pernas.

Os teus pais, os meus pais, a tua avó, tão querida; o meu tio Rolando a arrancar-te gargalhadas com as histórias de África, a dona Fernanda

uma segunda mãe para ti

com os olhinhos de molho.

Um dia fantástico, sem uma nuvem no céu.

Não haveria de ser isso a impedir-nos a felicidade. Nem um nem outro éramos supersticiosos. A lua-de-mel no México e o chão da sala cheio de fotografias a passarem de mão em mão, ante o bocejo disfarçado dos amigos. Depois o Rodrigo e a Bia

e um dia o faísca, abandonado à borda da estrada para os lados do Bombarral.

E no dia em que o veterinário

- Isto daqui para a frente é só a sofrer.

a deitar-te à cama

mas não havia outro remédio

ouviste o médico

uma cardiopatia não sei das quantas

e lá o levámos, coitadinho

mas antes assim.

E o Rodrigo

(a Bia nove mesinhos, a não fazer perguntas)

o Rodrigo

- O Faíca?

e tu

foi para o hospital, filho.

- Puquê?

uma cardiopatia não sei das quantas, apeteceu-me dizer-lhe logo. Para quê esconder a verdade à criança. Mais cedo ou mais tarde haveria de saber que

uma cardiopatia não sei das quantas

mas tu a achares por bem que

- Com calma, Alexandre.

Uns anos mais tarde o apartamento em Quarteira. Quer dizer, para os lados de

que Quarteira: um lugar horrível

daí dizer

Quarteira apenas para situar melhor

embora na verdade

para os lados de.

O mês de Agosto todo por nossa conta. O resto do ano, um fim-de-semana ou outro.

O Rodrigo em Coimbra, finalista de Direito

a Bia caloira de enfermagem em Lisboa.

Depois a Paula e o Sérgio a levarem-nos de vez, mas a trazerem-nos o Salvador, o Duarte e a Carolina

e a mesa da consoada sem espaço para os cotovelos, e a lareira, o pinheirinho, os enfeites nas janelas

sempre foste dada a essas coisas

daí que eu

- São coisas da Maria!

O meu primeiro dia de reforma e o nosso cruzeiro no Mediterrâneo, agora que os filhos e os netos criados e encaminhados na vida

Malta, Creta, Chipre, Rodes, Alexandria…

O que tu gostaste de Alexandria!

Alexandria

- O Alexandre ia.

- Alexandre. Alexandre!

- Hum?

- Não ias para casa?

e eu a acordar de repente, a procurar-te com a cabeça, os olhos presos ao farol daquela esquina que girou e te apagou da minha vista

uns segundos apenas

em dando a volta já te acenderá de novo… mas dez voltas, cem voltas

sem volta

que por ali as esquinas engolem as pessoas como baleias gigantes

a afundar-me as mãos nos bolsos, a cabeça nos ombros, um suspiro no peito, a ideia na conformação da verdade que foram aqueles vinte segundos

em que passaste por mim

naquele ar que levavas

solitariamente gira

para todo o sempre

ou para nunca mais

…

pois ninguém sabe quanto tempo é uma vida inteira.