Friday, May 30, 2008

A nossa música

Há pouco, quando vinha no carro, passou a nossa música. Há muito tempo que não a ouvia e

apaixonei-me de novo por ti.

Temos destas coisas, não temos? Apaixonarmo-nos de novo ao som de uma música antiga, não é? Uma bebedeira que passa, como todas as coisas que passam.

Quando entrei em casa, cansado do táxi, vi-te do bengaleiro

na confusão dos tachos

nenhum segredos para ti.

e pareceste-me bonita, como há muito não te via, e até as tuas pequenas imperfeições

o olho vazado pelo acidente da fábrica; a verruga no pescoço, que desde que apareceu evito olhá-la...

Desculpa amor, nunca to ter dito! Desculpa ainda agora pensá-lo no silêncio do não te dizer ainda. Sabes que tenho pavor de insectos, não bem insectos, mas não sei que nome tem a classe das carraças. Aracnídeos? Acho que num concurso de televisão

- Aracnídeos.

Deve ser. Afinal também tenho nojo de aranhas.

Não é por mal! Os traumas nunca são por mal, não é? E ninguém sofre mais com eles que os traumatizados. Uma febre em criança. Sempre tivemos cães, e o Alentejo, quente como tu sabes… Vai daí que… Por pouco que não me apaguei, disse o Doutor Juvenal Seixas à minha mãe

o meu pai na Suiça

e estas coisas, tu sabes, marcam uma pessoa para a vida toda.

Mas agora, importância alguma. Contigo aí, vista do bengaleiro

na confusão dos tachos

nenhum segredos para ti…

Estavas calada e calada ficaste logo a seguir ao

- Olá.

mecânico, como o beijo que há muito já não damos. Não o demos um dia, por causa de uma discussão, e enquanto durou o amuo não o demos, e deve ter-se atrofiado a função. E depois, para retomar o hábito

complicado.

É sempre complicado retomar o hábito.

Devemos ter achado que estava tudo bem assim e o achá-lo criou um hábito novo, o hábito de não ser preciso dá-lo mais. Afinal vinte e dois anos de casamento e mais três de namoro dispensam formalidades e cerimónias. Não é assim?

Mas agora, que tu aí

no silêncio dos dias passados, contados pelo calendário do teu avental

1982

(aonde isso já vai!)

mas que ainda serve, tal como nós, numa recordação obstinada de dias felizes.

Pareceste-me bonita, como há muito não te via

e até as tuas pequenas imperfeições

agora

importância alguma

o olho vazado pelo acidente da fábrica, que te obrigava a olhar-me de lado, para me veres de frente e que sempre me irritou, como se tu

num olhar de esguelha, para me provocar

sem que algum dia me tenhas dito

- Não entendes que é por causa da vista, Samuel?

ou a verruga no pescoço que

por pouco que não me apaguei; o Doutor Juvenal Seixas; minha mãe, quente como tu sabes; o Alentejo, o meu pai na Suiça… vai daí que traumas. Não por mal, mas ninguém sofre mais com eles que uma criança. E estas coisas, tu sabes, marcam uma pessoa para a vida toda. Vai daí que talvez febre alguma, cão algum. Pensando bem, nem televisão, nem concursos; quaisquer aracnídeos traumatizados; e uma aranha não bem numa aranha: uma carraça apenas; uma outra forma de pôr as coisas, embora o nojo todo lá.

Mas agora

(aonde isso já vai!)

importância alguma

apenas tu

vista do bengaleiro

bonita, como há muito não te via

na confusão dos tachos

nenhum segredos para ti

fazendo mil coisas ao mesmo tempo para que a vida não pare, como eu, às vezes, pela cidade, às voltas, para que taxímetro não pare, como se o coração parasse com ele.

Mil coisas ao mesmo tempo.

Sempre admirei essa capacidade em ti; a aptidão que te permitia fazer amor e bocejar ao mesmo tempo.

Agora

alguma coisa estava diferente em mim naquele dia

(a nossa música… Temos destas coisas, não temos?)

mas em ti tudo igual

confusão dos tachos

nenhum segredos para ti…

Nessa noite procurei-te, sem jeito. Não sabia bem como me chegar a ti…

Deve ter-se atrofiado a função. E depois

complicado

sempre complicado retomar o hábito.

Tapei-te os ombros, puxando o lençol

(não encontrei melhor desculpa).

Percebeste o gesto, disseste não ter frio

a voz a pedir um abraço

não importa de quem

um abraço

a luz apagada, um pouco de claridade pelas frinchas dos estores

o candeeiro da rua e espreitar indiscreto

um olho apenas

como vês, importância alguma

e eu uma perna sobre a tua

onde os pêlos

como ervas

crescidos pelo desmazelo do amor

pequenas imperfeições

importância alguma

juro que importância alguma

porque eu

ou melhor

a nossa música

Entendes?

É que…

há muito tempo… e…

apaixonei-me de novo

por ti.

Temos destas coisas, não temos?

Não te preocupes, vai tudo correr bem. Pensei dizer e não disse. Afinal vinte e dois anos de casamento e mais três de namoro dispensam formalidades e cerimónias. Não é assim? De modo que eu

outra perna agora

tu a dares o jeito, a aceitares-me o peso

estranho

no silêncio das palavra que vinte e dois anos de casamento e mais três de namoro

dispensam

à espera de um abraço que depois viria

(viria, sim)

de olhar fixo nas sombras do quarto, acordadas pelo o candeeiro da rua

indiscreto

um olho apenas

(para quê dois quando não há muito já que ver?)

vazia

como a orbita esquerda de ti

(talvez mais coisas vazias desse lado)

por causa do acidente da fábrica

Por que mais haveria de ser?

estando ali e não estando

tu

como olho cego

morto talvez

que os olhos já nascem dentro do caixão que os há-de sepultar

à espera de um abraço

não importa de quem

um abraço.

1 comment:

Anonymous said...

Que livro!!!
Que escrita!!!
Completamente rendida.
Muitos Parabéns! Ganhou uma admiradora.