Thursday, April 30, 2009

Diálogo Monológico

- Estou?
- Sou eu.
- Então se sabes que sou eu podias pelo menos fingir e ser simpático!
- Não, não estou a começar, André. Infelizmente!
- O que eu quero é saber como é que é logo. Ficaste de me dizer qualquer coisa, lembras-te?!
- Estás sempre muito ocupado. Só os outros é que não fazem nada.
- Que humor é que queres que eu tenha, André? Estive a tarde toda à espera que me ligasses para combinarmos as coisas. Não me posso comprometer com as pessoas sem saber como é que é contigo, e tu, nem ai nem ui. E ainda tens o desplante de me dizer, com um arzinho todo calmo, que estou com um “humozinho que vai lá vai”.
- Pelo amor de Deus, André! Agora digo-te eu, não comeces. Como é que é afinal?
- Ó André, caramba! Como é que é o quê? Vamos ou não vamos?
- Ainda tens de ver? É que só podes estar a brincar comigo!
- Se tu te lembrasses é que eu me admirava.
- E quando é que sabes?
- Daqui a uma hora!
- Eu disse à Sónia que o mais tardar às quatro horas lhe dizia alguma coisa. São três e meia.
- Então se está bem, vamos, porque é que é que disseste que só daqui a uma hora é que sabias?
- E agora já não precisas de falar com o Director?
- Vê lá, não arranjes problemas por causa de mim!
- Não, não estou a ser chata, André! Tu é que te esqueces das coisas que combinas comigo e depois e vens com desculpazinhas esfarrapadas, como os miúdos.
- Vá, esquece! Não vale a pena estar agora a discutir isso. Há-de ser sempre a mesma coisa!
- Como é que é, apanhas o Ruben e deixa-lo na tua mãe?
- Ó André, sabes perfeitamente que estou sem carro.
- Não te lembraste? Novidade!
- Sai às cinco. Nem sequer sabes a que hora a que o teu filho sai do colégio!
- Não estou a pegar por tudo e por nada, André. Agora se tu achas que estares-te nas tintas para tudo o que não tenha a ver directamente contigo é normal, então se calar estou a pegar por tudo e por nada.
- Claro, falamos depois! Contigo é sempre depois!
- Sim, vá, não interessa. Apanha mas é o teu filho e deixa-o na tua mãe. Ah, e avisa-a que ele dorme lá hoje. Mas não te esqueças, senão já sabes como é.
- Como é quê? Parece tu que não sabes como é! Ah que Deus que nunca me dizem para onde vão, quando é que vêm, e fica aqui o menino, e não sei se o deito, se espero por vocês. Ninguém se preocupa comigo; só sirvo para tapar buracos… nhanhanha nhanhanha…
- Oh! Não é verdade, queres ver?
- Ó André, não estou nada em dia não. Que maçada!
- É mentira o que eu disse? Parece que não conheces a tua mãe.
- Pronto! Mas eu disse que a minha é melhor? Quem parece que está a querer embirrar és tu.
- Claro! Não fosse sempre eu a começar! Eu disse apenas para deixares o Ruben na tua mãe e para a avisares de que o neto dela dorme lá hoje, mais nada.
- O que eu disse foi que, se não lhe dizes ela fica preocupada.
- Pronto, não foi isso que eu disse. Esquece. Tens razão.
- Sim, sim… Se não tivesses é que eu me admirava!
- Bem, esquece lá isso. Avisa-a, é só o que eu te peço. Ah, e já agora, se não for abusar muito do meu marido, passa na lavandaria e apanha-me o vestido que lá deixei.
- É nas amoreiras. Conheces outra?
- Sim, no centro comercial.
- Não, não precisas de nenhum talão. Diz que é para mim, elas sabem.
- Não, não quero mais nada. A não ser que me apanhes às seis.
- Espero lá em baixo.
- Mas custa-te muito dar a volta? Não vens de carro?
- Oh!
- Toda a gente sai daqui, só para ti é que é muito trânsito.
- É só porque estou carregada. Tenho uma caixa de dossiers, a pasta, a mala, o portátil… Se achas que são só dois passinhos com isto tudo às costas.
- Mas se te custar muito, diz, que eu apanho um táxi. Vê lá, não apanhes um esgotamento nervoso no trânsito por minha causa.
- É em Cascais.
- Eu já tinha-te dito, André.
- Que culpa tenho eu que a Sónia e o Marcelo vivam em Cascais, que seja hora de ponta, sexta-feira e esteja tudo a sair de Lisboa?
- Olha, se é para isto, mais vale dizeres de uma vez que não queres ir.
- Parece! São só complicações!
-Pronto, está bem.
- Então vá.
- Sim, às seis.
- Até logo.

Reflexo

E a vir-me à memória, nós
agora que te foste embora
nós na roulotte do teu tio
nós em Armação de Pêra
nós na casa de campo do Paulo e da Marta
nós na Arrifana
nós no banco de trás do carro dos meus pais
como a Anita no Jardim Zoológico
a Anita no Parque
a Anita na Floresta
nós
a vir-me à memória, nós
agora que te foste embora
porque de repente
ou eu a achar que de repente
(agora que te foste embora)
os meus olhos no teu espelho
à procura de restos de ti
uma sombra
uma ponta de cabelo
um resto de brilho dos teus olhos, que tantas horas ali pousaram
(que o espelho é o poleiro dos olhos)
tristes
tantas horas ali
interrogativos
à procura de ti
como eu agora que te foste embora
à procura de ti
um resto
alguma coisa esquecida
(tu que eras tão distraída…)
alguma coisa te há-de ter ficado para trás
alguma coisa deves ter esquecido entre um retoque de batom e uma escovadela de rímel…
alguma coisa…
desespero
(não o substantivo, o verbo)
desespero
alguma coisa
mas nada
apenas eu
o mesmo que nada
a minha cara transtornada pela tua ausência.
Onde será que os espelhos guardam os reflexos?
Pergunto-lhe, aos gritos
desgraçado
desespero
(… o verbo)
desespero
arranco-o da parede, chocalho-o, louco…
tens de cair
tens de cair
tens de cair
alguma coisa tua
uma sombra
uma ponta de cabelo
um resto de brilho dos teus olhos…
Por Deus, alguma coisa!
um resto
um sinal de ti.
Mas nada de coisa nenhuma
apenas eu
o mesmo que nada
a minha cara transtornada pela tua ausência.
Onde será que os espelhos guardam os reflexos?
pergunto
aos gritos
atirando-o ao chão
desgraçado
num revolver de cacos
sou mil pedaços, agora
que te foste embora
mil pedaços
mil nadas
mil caras transtornadas pela tua ausência
espalhados
dentro
fora de mim
as caras, os cacos
transtornados
fora de si
dentro
fora de mim
louco
os dedos em sangue e…
nada
agora que te foste embora
apenas eu
o mesmo que nada
em mil pedaços.
Não creio em superstições absurdas: sete anos de azar. Sem ti, a vida toda. Não me chegaria a vida toda a partir espelhos para cobrir o azar que é não ter-te
alguma coisa tua
uma sombra
uma ponta de cabelo
um resto de brilho dos teus olhos…
alguma coisa tua…
Por Deus, alguma coisa!
um resto
um sinal de ti
alguma coisa esquecida
(tu que eras tão distraída…)
alguma coisa te há-de ter ficado para trás
alguma coisa deves ter esquecido entre um retoque de batom e uma escovadela de rímel…
alguma coisa
alguma coisa
…
Sete anos de azar? Quem dera sete anos de azar e depois
tu
alguma coisa tua de volta ao espelho
(a outro espelho)
uma sombra
uma ponta de cabelo
um resto de brilho dos teus olhos…
Os dedos em sangue, mas de ti…
nem sombra.
Sete anos de azar
sete anos de desespero
(o substantivo, agora)
sete anos no meio dos cacos
sete anos na merda
sete anos no Tibete…
como a Anita no circo
a Anita no Ballet
a Anita na cozinha
uma espécie de penitência: sete anos da tua ausência; sete anões
ou lá como se diz anos grandes!
Sete anos. O que são sete anos!? Azar é não encontrar-te aqui, onde sei que estás
porque sei que estás
tens de estar
alguma coisa te há-de ter ficado para trás
que os reflexos, como os espíritos, não desaparecem da noite para o dia
alguma coisa
no meio dos cacos
mil lamelas de vidro salpicadas de sangue sob o meu olhar microscópico na procura de ti
caco a caco
dia a dia
(reflexo estilhaçado da nossa existência).
Eu sei que estás
ainda há cacos
de espelho
de mim
de nós
eu sei que estás
ainda há cacos
e enquanto há cacos há esperança.

Wednesday, April 01, 2009

Quando estamos carentes…

A Ana, nua, é uma mulher com movimentos de gata. Estica-se, rebola, ronrona e entrega-se num abandono manso que as palavras que conheço me não bastam para o explicar. Ana tem vinte e nove anos e quando não está na cama comigo preocupa-se com a idade. Não é muito bonita, tem sardas no peito magro, dedos compridos, púbis negra, ligada ao umbigo por um carreiro de penugem descolorada. Podia dizer que Ana é esguia, mas já lhe referi os dedos e a magreza do peito. Se não refiro mais é, talvez, porque Ana seja apenas isto. Insisto: se não refiro mais… apenas isto.
Embora pudesse encher a página com coisas de Ana… não o faço. Isto apenas me basta. E a quem lê… a quem lê tanto lhe dá, e mais espaço fica para compor como for. De Ana apenas mais três coisas: casada, mãe de um filho e minha amante.
Conhecemo-nos pela Internet. Facilitador de emoções e conversas
bonequinhos amarelos que falam por nós; uma flor, um “lol” e
um encontro na Sé
cafezinho discreto…
- Parece que nos conhecemos há muito tempo, já!
a Ana a dizer e eu a concordar.
Quando estamos carentes sentimos afinidade com um número muito maior de gente. Olhamos para alguém na rua que nos devolve o olhar e logo
- Parece que nos conhecemos há muito tempo, já!
E apesar de o saber
quando a Ana
- Parece que nos conhecemos há muito tempo, já!
eu a concordar
porque discordar é adiantar conversa e conversa não adianta nada.
De modo que

qualquer coisa que a Ana
- …, não achas?
eu
(que talvez nem achasse)
- Sem dúvida!
Porque quando estamos carentes concordamos com um número muito maior de gente. Olhamos para alguém na rua que nos devolve o olhar e logo
- Sem dúvida!
e daí a um encontro na Sé
cafezinho discreto
um pulinho
como dali para a minha cama
onde a Ana
nua
movimentos de gata
entregando-se
num abandono manso que as palavras que conheço me não bastam para o explicar
a garantir que
- Nunca tinha sentido isto antes.
Porque quando estamos carentes somos compatíveis na cama com um número muito maior de gente. Olhamos para alguém na almofada que nos devolve o olhar e logo
- Nunca tinha sentido isto antes.
porque quando estamos carentes a memória é uma coisa difusa, um suspiro de açúcar que engana a fome. Daí que
- Nunca tinha sentido isto antes.
e um olhar, um sorriso, um gesto parvo, uma carantonha, uma gargalhada, um abraço rebolado em lençóis adolescentes
e
- És tão parvo!
- … tão parva!
Porque quando estamos carentes achamos graça a um número muito maior de gente. Olhamos para alguém na dobra do lençol que nos devolve o olhar e logo
- És tão parvo!
- … tão parva!
em gargalhadas com vontade de infinito, porque nos sentimos apaixonados, já
tão certos, já, de que
- Acho que estou apaixonado…
- … apaixonada por ti!
Porque quando estamos carentes apaixonamo-nos por um número muito maior de gente. Olhamos para alguém na rua, na almofada, na dobra do lençol, que nos devolve o olhar e logo
- Amo-te!
prenhes de força, capazes de tudo
seguros da correspondência exacta entre o sentimento e a expressão
- Amo-te!
Porque quando estamos carentes amamos um número muito maior de gente. Olhamos para alguém no ecrã, que nos devolve um bonequinho amarelo, uma flor… e
- Amo-te!
“lol”
com a mesma facilidade com que
- Podemos encontrar-nos na Sé.
cafezinho discreto
e
num pulinho
movimentos de gata
sardas no peito magro, dedos compridos, púbis negra, ligada ao umbigo por um carreiro de penugem descolorada.
Não custa nada
um bonequinho amarelo, uma flor, um “lol”
e…
- Parece que nos conhecemos há muito tempo, já!
Afinal, quando estamos carentes sentimos afinidade com um número muito maior de gente. Olhamos para alguém na rua que nos devolve o olhar e logo
- Parece que nos conhecemos!?
- Há muito tempo, já!

Dez cêntimos

- Olhe, desculpe! Eu sou do Barreiro e fui assaltado. Vim aqui à Loja do Cidadão tratar do bilhete de identidade
que vou para Espanha trabalhar daqui a duas semanas
o cunhado de um primo meu, que vive na Suiça, tem um restaurante em Sevilha e arranjou-me lá trabalho
e como o B.I. estava quase a caducar, vim aqui tratar disso
que lá no Barreiro demora muito mais tempo.
Mas enganei-me na saída do metro
que eu não conheço muito bem Lisboa
e saí ali no Martim Moniz.
Andei às voltas, às voltas a ver se dava com isto, até que lá me resolvi a perguntar alguém.
Olhe, foi a minha desgraça!
Três tipos disseram-me que também iam para lá
marroquinos, ou não sei
que tinham de tratar de uns papeis e que se quisesse podia ri com eles.
Na minha boa fé lá fui.
Se eu soubesse!
Meteram-se por umas ruas estreitas e depois lá por uns becos…
e eu a achar aquilo esquisito
até que às tantas, viraram-se a mim e, olhe
marcaram-me todo
tenho aqui na perna, no braço…
E agora estou desesperado.
Roubaram-me tudo.
Até o telemóvel.
Que senão ligava ao meu cunhado
que ele trabalha ali para o Prior Velho, ou Sete Rios, ou o que é que é
e ele vinha-me buscar
mas nem sei o número de cor
que uma pessoa agora habitua-se a guardar tudo no telemóvel.
Sacanas!
Ainda para mais a minha sobrinha faz anos hoje.
Dois aninhos!
Olhe, tinha uma fotografia dela na carteia. Até lha mostrava. Mariana. Chama-se mariana. E eu… olhe
estou todo dorido, minha senhora. E tenho a roupa toda suja, até me rasgaram o casaco
Sacanas, pá!
Estes não apanha a polícia. Tá quéto! Agora e fosse eu, ou a senhora…
Eu ainda pensei ir à polícia! Mas neste estado? Iam mesmo acreditar em mim. Tenho umas dores neste braço que nem imagina, minha senhora.
Até tenho vergonha de estar aqui a incomodar as pessoas. Ainda hão-de pensar que é para droga. E neste estado. Eu pensava o mesmo! Mas não é minha senhora. Juro que não é. Pela saúde da minha sobrinha, que é coisa que mais amo nesta vida.
Mas estou desesperado. Estou aqui há mais de uma hora para arranjar isto, minha senhora: um euro e meio. Mas neste estado quem é que me ajuda? Se a senhora pudesse. São só dez cêntimos que me faltam, minha senhora. Dez cêntimos para o bilhete.

Gina

Gina
(já de si o nome é mau)
trabalhava a dias em casas particulares e a noites
(fins-de-semana apenas)
em casas… particularmente.
Cinjamo-nos ao que importa: a dias em casas particulares. Dois filhos: Berta e Lucas. Ambos mulatos
de pais diferentes
e ela
Gina
(já de si o nome…)
branquinha como um cadáver exangue. E como um cadáver, magra; peito nenhum. O rosto… nada de especial
aliás
(para vinte e sete anos)
muito mal tratadinho.
Numa orelha, nem um furo, na outra, uma colecção de argolas, aranhas, meias-luas, o diabo…
Calças de ganga ruças
sempre…
minto
quase sempre ruças.
Ténis grandes, tipo bota, e t-shirt branca com qualquer coisa estampada
sempre…
minto
quase sempre estampada
letras, figuras, abstracções, o diabo…
Perfume? Desodorizante, talvez. É capaz que, desodorizante. Agora que penso nisso, é capaz que, desodorizante
capaz de jurar que desodorizante.
Olhos baços. Apenas para enfeitar o rosto.
Gina
a dias
a noites
(fins-de-semana apenas)
… particularmente.
Berta e Lucas
pais diferentes
ambos pretos
mulatos os filhos
a garantir que
(ainda que se não possa provar)
Gina
(já de si o nome é mau)
um gosto especial pelo exótico
(exótico para nós, caucasianos descoloridos)
diria.
Fazia dias
(noites…
…particularmente)
que não aparecia pelo bairro. Os filhos
Berta e Lucas
ambos mulatos
de pais diferentes
de pais ausentes
dois dias em casa, fechados à fome.
Fazia dias
(noites…
…particularmente)
Que
Gina
(já de si o nome é mau)
que não aparecia
até que a notícia
no lugar das calças ruças
da orelha intacta
ao contrário dos braços, das pernas, das mãos…
nem um furo
a notícia a chegar primeiro que a colecção de argolas, aranhas, meias-luas, o diabo…
a notícia
num sprint de etíope esganado com fome
a passar pelos ténis
pela t-shirt
qualquer coisa estampada
letras, figuras, abstracções, o diabo…
dispensando perfume…
Desodorizante, talvez.
A notícia
num sprint de corcel pela encosta da Maria Pia
nomeando os perigos do desporto equestre
afirmando que quem se mete na equitação arrisca-se a cair do cavalo.

Monday, March 02, 2009

Abracadabra

No dia em que o meu tio Américo se transformou num javali foi a loucura naquela casa. Eu não teria mais de quatro anos, mas recordo-me como se ontem. A princípio tive medo, claro, e não queria acreditar quando a mamã
- É o tio Américo, filho.
fazendo-lhe festas na cabeça de porco desgrenhado.
- Não tenhas medo, tonto.
como se fosse dizer
- Não tenhas medo, tonto.
o medo
puf
num passe de mágica
igual ao tio Américo
naquele almoço de domingo entre o arroz doce e o café
- Senhoras e senhores, convosco, Péricles, o albatroz dos sete mares!
e nisto
puf
um javali
arrancando um abanão geral à plateia de familiares que, a aguardar por um penado mergulhão
puf
sai-lhes um foçador de trufas de capachinho à António Calvário.
- Não vês que é o tio, palerma?! Olha lá para o cabelo.
E de facto
- … o cabelo
o penteado
risquinho ao lado entre o ruivo e o louro, a manter-se intacto. Assim como os olhos, pequenos e curiosos… iguais.
- Não vês que é o tio, palerma?! Olha lá para o cabelo.
e o capachinho
a garantir-me que
- … o tio…
palerma
- …o tio, palerma…
o tio palerma
o capachinho
a descolar-me, aos poucos, das saias da mamã, que lhe arrancava grunhidos satisfeitos com a mão sobre o pêlo e a mim gargalhadas felizes. Também lhe quis fazer uma festa. Era o meu tio preferido. Não me levem a mal os outros, mas…
o meu tio preferido.
Fiz-lhe a festa
(era quase do meu tamanho)
arrancando-lhe um grunhido de contentamento
um brilho nos olhos
pequenos e curiosos…
Quem não achou graça nenhuma foi a tia Zulinda, mulher do tio Américo, que
- Isso não tem graça nenhuma, Américo!
apesar das gargalhas de toda a gente.
Mas o tio Américo parecia não estar nem ali para os amuos dela, passando o resto da tarde entre as pernas das cunhadas.
- És um sacana, ó Américo!
o meu tio Roberto, quando o irmão lhe começou a foçar as saias à Guidinha.
- Já chega, Américo!
mas não chegava. Não é todos os dias que um homem pode ser um porco dos sete costados e foçar sem pejo vontades antigas, como era o caso da tia Guidinha.
- Ou paras imediatamente com isso…
a tia Zulinda
- … ou chateio-me a sério.
na sentença mais alta que pôde a vozinha fraca que lhe ficou da pleurisia.
- Ouviste o que eu disse, Américo?
aumentando meio tom esforçado à reprimenda.
E o tio Américo, que não podia responder, a levantar os olhos
pequenos e curiosos
a soltar um ronco
incompreensível
que a tia Zulinda entendeu como uma provocação, ou não teria ido à cozinha buscar a vassoura grande e varrê-lo ido para o quintal, deixando um silêncio fúnebre na sala.
Nos olhos de todos se via brilhar a esperança de que o tio Américo entrasse a qualquer momento pela janela num voo picado de albatroz e aterrasse em cima da mesa, entre os restos do almoço, anunciando, envolto numa nuvem de fumo
- Charã!
o homem que sempre foi, arrancando gargalhadas e aplausos a todos e lágrimas de contentamento e fúria à tia Zulinda, antes de descer para a beijar e apertar-lhe a bochecha no seu clássico
- Não custa nada, Dindinha!
Mas o tio Américo não veio e, ao fim de uma hora, uma excursão de família foi à rua, para dar com ele deitado sobre o capacho à espera de misericórdia.
O segundo grande silêncio formou-se, e nem o tio Sequeira que tinha sempre explicação para tudo se atreveu a abrir a boca. Pareciam começar a compreender que algo havia corrido mal naquele truque trocado, e que o tio Américo desta vez não seria capaz de desatar o nó górdio do feitiço.
- Ai, valha-me Nossa Senhora!
a tia Zulinda à beira do desmaio.
O ambiente adensou-se. A consternação era geral e só eu parecia achar graça àquela brincadeira. A minha mãe segurou-me pelo ombro, puxando-me quando me tentei aproximar do tio para lhe passar a mão pelo penteado.
Não estava a compreender. Uma hora atrás estavam todos divertidos e agora…
- É o tio Américo...
tive vontade de dizer
- Não tenham medo, tontos.
e quase me saiu
- Não vêem que é o tio, palermas?! Olhem lá para o cabelo.
mas um ronco interrompeu-me a intenção
um ronco fraco, indecifrável, mas cuja impotência dos olhos
pequenos e curiosos…
faziam compreender que estava arrasado.
Concordaram que talvez o tempo solucionasse ou remediasse a questão, e com dois cobertores fizeram-lhe uma cama na adega
ao lado do lagar
onde ainda em Setembro
mosto até à cintura
mosto que agora o afogaria
que de gatas não se pisam uvas.
Uma cama
dois cobertores
ao lado do lagar
duas voltas à chave
e a tarde a morrer baixinho
num gemer doído
a tarde
o meu tio Américo
mais do que a tarde
capaz que
mais do que a tarde
o meu tio Américo
baixinho
num gemer doído de quem sofre dentro de uma virgem de ferro em forma de porco-montês.
Eu não teria mais de quatro anos, mas recordo-me como se ontem
afinal
o meu tio preferido. Não me levem a mal os outros, mas…

Saturday, January 31, 2009

Já não sei como se começa

Já não sei como se faz, como se beija, o que se diz depois do sexo. Já não sei como se chega a casa e diz aos pais
 ao meu pai
 - Pai, este é o…
 - … o meu novo namorado.
 Não sei quantos foram. Sei. Claro que sei. Uma mulher não esquece nunca o frio que sente depois das pernas fechadas, das portas fechadas.
 E depois aos meus amigos
 às minhas amigas
 mais do que aos meus amigos
 às minhas amigas
 - … este é …
 - … o Bernardo.
 - … o António.
 - … o Miguel.
 - … o Kuka.
 e o meu pai
 - Isso é lá nome de gente?!
 Porque para o meu pai nenhum homem é ideal para mim.
 E pelo visto tem razão.
 De modo que agora
 cinco anos depois 
 três desde que terminou
 não sei como se chega a casa e se diz aos pais
 ao meu pai
 - Pai, este é o…
 - … o meu novo namorado.
 (Até porque já deixam de ser tão novos assim!)
 Brincadeira.
 Mas para além disso, muito antes disso tudo
 eu a não saber como se começa. 
 Tudo de novo: música preferida, viagem de sonho, filme da minha vida, o livro que mais me fez chorar…
 (O meu diário se o leio).
 Quero um homem já feito
 sem perguntas
 sem dúvidas
 existenciais ou físicas.
 E não sei se o Roberto…
 (um amigo, ainda)
 não sei, dizia
 se o Roberto o é
 apesar de seguro
 aparentemente seguro
 que aquilo que me dá a parecer é que os homens nunca são seguros. Bóias insufláveis que vão perdendo o ar, e no fim, ainda temos de ser nós a arrastá-los para terra. De modo que 
 não sei se o Roberto…
 apesar da sua aparência insuflada de dragão
 de crocodilo
 de orca
 das mil formas penduradas nas tendinhas da praia
 o homem que procuro.
 Procuro? 
 Acho que o amor da minha vida
 (se é que há um amor da minha vida)
  já passou por mim. 
 Não sei qual foi…
 Não sejas ridícula, Clara! Claro que sabes. Uma mulher não esquece nunca o frio que sente depois das pernas fechadas, das portas fechadas. Quando as noites ficam de repente maiores, intermináveis. O sono demora, como a felicidade que não chega por mais carneiros que se contem
 a felicidade não chega. A cama
 enorme
 coberta de Inverno, de um vento frio que se mete por debaixo dos lençóis, internando-se nos ossos, cobrindo-os de musgo…
 uma mulher não esquece nunca
 e é por isso que agora
 aos trinta e sete anos
 solteira, independente
 aparentemente forte, segura
 como o Roberto
 (um amigo, ainda)
 aparência insuflada 
 dragão
 crocodilo
 orca
 mil formas penduradas nas tendinhas da praia…
 agora
 aos trinta e sete anos
 aparência só
 solteira, independente
 forte, segura
 aparência 
 só
 a não saber já como se faz
 como se beija, o que se diz depois do sexo…
 como se chega a casa e diz aos pais
 ao meu pai
 - Este é o Roberto.
 aos meus amigos
 - Este é o Roberto.
 às minhas amigas
 mais do que aos meus amigos
 às minhas amigas
 - Este é o Roberto.
 às minhas amigas que vão dar gritinhos de felicidade por mim e quando eu
 à casa de banho
 a juntarem-se ao centro da mesa 
 num concílio de comadres
 para se questionarem se 
 - Será desta que ela desencalha?
 Cabras!
 O problema não é falarem, é ser verdade. Eu própria não tenho a certeza se o Roberto 
 (um amigo, ainda)
 o tal homem já feito
 sem perguntas
 sem dúvidas
 existenciais ou físicas
 que procuro.
 Procuro? 
 Não tenho a certeza.
 E os trinta e sete anos a baralharem-se as ideias, os sentimentos
 que a partir de certa idade deixamos de estar certas das nossas certezas. Nunca uma paixão é tão segura quanto aos doze anos, aos quinze anos, até mesmo aos dezoito o mundo não nos assusta porque tudo absoluto e seguro. 
 Mas aos trinta e sete…
 Claro que gosto do Roberto!
 É inteligente, bem disposto
 uma excelente pessoa…
 E parece que ao dizer
 excelente pessoa
 uma sensação de não gostar assim tanto.
 É atencioso
 o Roberto
 faz-me rir 
 sinto-me bem ao lado dele
 mas
 como é que se começa?
 Como é que se faz?
 Como é que se beija?
 O que é que se diz depois do sexo?
 Três anos sozinha. Não sei se já tinha dito.
 Ou melhor
 três anos sem ninguém
 que sozinha, creio, há muito mais. De modo que…
 não sei…
 como é que se chega a casa e diz aos pais
 ao meu pai
 - Pai, este é o…
 … Roberto… 
 … um amigo. (?)
 Aos meus amigos
 -este é o…
 … Roberto… 
 … um amigo. (?)
 às minhas amigas
 mais do que aos meus amigos
 às minhas amigas
 - Este é o Roberto… 
 … um amigo. (?)
 Tenho trinta e sete anos…
 Um amigo?
 e quando eu
 à casa de banho…
 Cabras! 
 E se no fim, o Roberto, mais uma bóia rota no mar inquieto da minha vida? Afinal, há um dia em que a bóia rebenta e por mais que lhe sopremos dentro, que apertemos o furo, com ambas as mãos, com ambos os braços, como ambas as pernas, como o corpo inteiro, o ar acabará por ir-se todo. 
 E talvez seja esse o medo
 não de o Roberto não ser
 que talvez seja
 não o de começar
 o de não saber como se faz
 como se beija
 o que se diz depois do sexo
 que isso talvez saiba
 (uma mulher não esquece nunca)
 não o de chegar a casa 
 - Pai, este é o Roberto, o meu novo namorado.
 junto dos amigos
 nem sequer das minhas amigas
 - Pessoal, este é o Roberto, o meu novo namorado.
 mas do dia em que tudo arrefece, o dia em que o Inverno se instala em nós, se mete por debaixo dos lençóis, internando-se nos ossos, cobrindo-os de musgo e por mais que as pernas se fechem, as portas se fechem, o calor, como o ar de uma bóia rota, acaba sempre por ir embora. 

Havia de ser comigo!

O Luís a pedir-me desculpa
 que perdera a cabeça
 que não sabia o que lhe tinha dado
 que não tornaria a acontecer
 a jurar
 - Juro…
 que não sabia o que lhe tinha dado
 que
 - … não torna a acontecer!
 e eu
 eu que sempre dissera alto
 - Um homem a mim só me batia uma vez!
 que jurava
 - Denunciava-o à polícia!
 eu que 
 quando a Catarina me contou que a Cármen 
 - … levou uma sova do marido que até manca de uma perna.
 a garantir
 - Havia de ser comigo!
 eu
 no dia em que o Luís
 - Desculpa, Ana! Desculpa!
 eu
 a mesma eu 
 a desculpar
 a não dizer nada a ninguém
 porque o Luís
 - Perdi a cabeça. Não sei o que me deu.
 porque o Luís
 - Juro que não torna a acontecer.
 porque o Luís
 - Juro!
 eu
 a mesma eu 
 a desculpar
 a dar a outra face, ou a perder a legitimidade para a negar
 a dizer para mim mesma que era um bom marido, que sabia que não se iria repetir, que perdera de facto a cabeça, que o provocara…
 sim, que o provocara
 que quando quero 
 eu sei
 sou provocadora
 a prová-lo, portanto
 a assumir parte da culpa
 do estalo
 dois dedos e meio
 polegar, indicador, meio anelar, a pertencerem-me…
 E quando a Catarina, umas semanas depois
 - A Cármen tornou a apanhar.
 eu
 silêncio
 -Ouviste o que eu disse?
 e eu que, perfeitamente
 a encolher os ombros
 a
 - Não quero saber mais dessa história.
 a não
 - Havia de ser comigo!
 e ao invés de
 - Havia de ser comigo!
 a
 - Não quero saber mais dessa história.
 porque o verbo mudara de tempo
 a encher-me de vergonha, como se algo o denunciasse em mim, nos meus gestos
 como se a minha face batida
 - Catarina! 
 a encher-se de sangue e vergonha
 - Catarina! Olha…
 a denunciar-me e à minha cobardia.
 Por isso, quando a Catarina
 - O que é que te deu?
 eu
 direitinha à maquina do café 
 cara baixa
 (nenhuma marca
 uma semana já
 nem no próprio dia
 mas)
 cara baixa
 maquina do café 
 - É bem feito! Que é para não ser parva. Quem leva o primeiro estalo merece uma sova. E das grandes!
 a expurgar a minha frustração
 até que a Catarina
 - Calma!
 e eu
 calma
 a voltar para a secretária
 papéis e teclas
 papéis e teclas
 papéis e teclas
 até às quarto e meia
 papéis e teclas…
 Até àquele dia, o Luís… pouco a dizer. Uma discussão ou outra, o normal. Quem não tem? Mas as discussões são um prenúncio
 sei-o agora
 soube-o sempre
 um alerta, um sinal, um indicador de doença. São a febre que acusa uma inflamação escondida. E um dia a voz põe-se em bicos de pés, como se o volume legitimasse as opiniões, e sai o primeiro
 - Estúpida de merda!
 o primeiro
 - Estúpida de merda é a tua mãe!
 e daí ao primeiro estalo uma distância muito curta
 porque quando se deixam as conversas fermentar, azedam.
 e agora
 - Desculpa, Ana! Desculpa!
 - Perdi a cabeça. Não sei o que me deu.
 - Não torna a acontecer.
 - Juro!
 E eu a pensar
 o casamento, a casa, o carro, as contas…
 filhos ainda não, mas
  famílias à mistura e 
 dizer o quê? 
 - O Luís deu-me um estalo? 
 O meu pai, a minha mãe, a minha irmã que
 tenho a certeza
 já apanhou do namorado
 um estúpido desocupado que lhe vive às custas
 a dizerem
 - Mas vais deixar tudo por causa disso?
 o meu pai que
 na minha mãe
 a minha mãe que
 do meu pai 
 a minha irmã
 que
 tenho a certeza
 do namorado
 um estúpido desocupado
 todos
 a
 - Mas vais deixar tudo por causa disso?
 de modo que eu 
 a desculpar
 porque o Luís
 - Desculpa, Ana! Desculpa!
 porque o Luís
 - Perdi a cabeça. Não sei o que me deu.
 porque o Luís
 - Não torna a acontecer.
 porque o Luís
 - Juro!
 E porque quem mais jura mais mente, quatro meses depois o Luís a perder a cabeça, a dar-me uma sova e a sair de casa sem 
 - Desculpa, Ana! Desculpa!
 a voltar a casa sem pedir desculpa
 a não me dirigir a palavra para coisa nenhuma
 a dormir no sofá
 não porque eu
 - Aqui…
 (no quarto)
 - …não entras!
 Um dia, dois dias, três dias… e eu a penar “vou à minha vida. Isto não é nada.” A lembrar-me da Catarina
 - A Cármen tornou a apanhar.
 a ter-lhe raiva
 (que sabe ela da vida? Nunca teve uma relação. Namorados, mil. Mas uma relação? Que sabe ela da vida? Casa, carro, contas, família… Que sabe ela para falar assim dos outros?)
 E no meio dos pensamentos 
 o meu pai
 a minha mãe
 a minha irmã
 - Mas vais deixar tudo por causa disso?
 A casa, o carro, as contas…
 filhos ainda não, mas
  famílias à mistura e 
 mais isto
 mais aquilo
 que desculpas não faltam quando as queremos dar
 como
 esperar mais um dia
 até ao próximo Sábado
 a jurar que 
 só até Sábado
 e Domingo e quarta e sexta e quinta e terça 
 segunda após segunda
 e nunca mais era Sábado,
 nunca mais o Luís
 - Desculpa, Ana! Desculpa!
 - Perdi a cabeça. Não sei o que me deu.
 nunca mais o Luís
 - Não torna a acontecer.
 - Juro!
 nunca mais 
 nem uma palavra.
 Nada!
 Mas porque haveria o Luís de me pedir perdão se eu própria não pedi?
 Se eu própria não…
 - Desculpa, Ana! Desculpa!
 Se eu própria não…
 - Perdi a cabeça. Não sei o que me deu.
 - Não torna a acontecer.
 - Juro!
 - Juro!
 - Juro!

Friday, December 19, 2008

O fantasma da Madalena

Conheci-a em cada da Edite
 festa de anos
 chamava-se Odete e
 como eu
 estava sozinha.
 A Edite, amiga de longa data
 (do tempo já da 5 de Outubro, quando o escritório ainda rejeitava clientes, por “excesso de trabalho”)
 sempre teve queda para padroeira do encalhados. De modo que
 a não me admirar 
 se ela
 - Tens de conhecer o Óscar.
 falasse nestes termos à amiga
 … Odete.
 - Divorciado faz dois anos.
 (trabalhinho arranjado pela padroeira Edite)
 - Não tornou a ter ninguém.
 Um caso ou outro mal sucedido, que a Madalena nuca saiu por completo lá de casa
 ou de mim, quando eu lá em casa.
 (mas esta parte a Edite a omitir)
 apenas
 - Divorciado faz dois anos.
 e
 - Não tornou a ter ninguém.
 Pois o facto de a Madalena nunca (…) por completo… 
 …lá de casa
 a fazer com que
 de cada vez que uma mulher no 3º esquerdo
 (não digo o número) 
 da Rua de Arroios
 o fantasma da Madalena
 - É impressão minha ou cheira-me a puta!?
 e o amor
 ou a carência que o parece
 a sair gorado.
 Duas apenas, em dois anos
 uma por ano, numa análise estatística
 embora nenhuma mais de duas semanas, que o fantasma da Madalena
 (casada já, e com um filho que nunca lhe fui capaz)
 a ironizar de nariz torcido
 - É impressão minha ou cheira-me a puta!?
 Por isso, quando a Edite
 - É o Óscar. É a Odete.
 o meu estômago a ficar nervoso
 não por ela
 mas porque a história a tentar de novo
 e o fantasma da Madalena
 “Alerta” 
 como um escuteirinho irritante
 a
 - É impressão minha ou…!? 
 razão porque eu
 o meu estômago
 a ficar nervoso
 porque um homem
 se homem 
 - Divorciado faz dois anos.
 não tem como
 - Não faz o meu género.
 pois dá logo vontade de perguntar
 - Ai não?! E que género é o teu?
 No fim de contas foi a Madalena quem
 - Quero o divórcio.
 a Madalena quem
 distante há muito
 um pé dentro, outro fora
 embora sempre
 - É impressão minha ou cheira-me a puta!?
 De maneira que 
 se eu
 - Não faz o meu género.
 capaz de os narizes todos 
 - Ai não?! 
 a torcerem as ventas
 - E que género é o teu?
 Pelo que
 apesar do estômago nervoso
 a passar a noite na conversa com a Odete. Diferente de mim: dia e noite, preto e branco, cara e coroa… alegre, gordinha, gargalhadas de copos pela cristaleira abaixo, enfermeira em São José, solteira
 - … e boa rapariga.
 como achou graça dizê-lo.
 Toda ela clichés. Como eu todo clichés. Só que ela clichés alegres, gordinhos
 vidros em estilhaços
 e eu
  cinzento, gravata azul, camisa sem cor, como as cuecas velhas do papá no estendal da marquise em Sete-Rios.
 Mas a verdade é que
 nessa noite
 depois das velas e do champanhe
 (porque qualquer gasosa é champanhe)
 portanto
 depois das velas e do champanhe
 que o bolo a mim não me cai bem
 nessa noite…
 como hei-de dizer?
 a Odete que
 - Acho que já estou a ficar tonta!
 a pegar-me no braço e, entre marteladas na cristaleira, a garantir-me
 - Você é tão engraçado, Óscar!
 a fazer-me sentir na obrigação de
 - Trata-me por tu.
 como se lhe levasse a mão ao interior da blusa e lhe soltasse a mola do soutien que lhe oprimia o peito
 arrancando-lhe um suspiro
 - Acho uma óptima ideia! 
 de maneira que
 ao despedir-me
 a Edite logo
 - E tu, Odete, como é que vais?
 puxando-me pela prontificação
 e antes de a Odete
 um táxi, ou coisa que o valha
 eu logo
 - Posso levá-la.
 que na opinião da Odete
 - … uma óptima ideia! 
 Num chover de copos pela cristaleira abaixo.
 Há um mês que passa cá os fins-de-semana e já plantou uma escova no copinho da casa de banho. Ainda não é nada certo, mas há duas coisas que me fazem crer que é possível. Uma é a Odete não sair da cama a correr para ir lavar o amor ao bidé
 não me rejeitando
 não me expelindo de dentro dela para correnteza do Tejo
 como as outras
 a Madalena, talvez
 não me lembro se a Madalena 
 depois de…
 a Madalena
 ou a torneira do bidé
 numa cumplicidade secreta
 para correnteza do Tejo
 como as outras duas
 que
 mal acabávamos
 - Vou só à casa de banho num instante. 
 Agora a Madalena não me lembro.
 A verdade é que nunca um filho meu
 (e agora
 casada já, e com um filho que nunca lhe fui capaz)
 dois abortos espontâneos 
 a própria palavra
 espontâneos 
 a dizer tudo
 a rejeitar-me atrasadamente
 enquanto a Odete 
 depois de nós (…)
 a ficar
 gargalhando alto
 por tudo e por nada um desastre de copos pela cristaleira abaixo
 - És tão engraçado, Óscar!
 a não sair da cama a correr 
 a não
 - Vou só à casa de banho num instante. 
 a achar tudo
 - … uma óptima ideia! 
 a rir
 gordinha
 feliz. 
 A outra coisa
 das duas que me fazem crer que é possível
 é o facto do fantasma da Madalena nunca mais
 - É impressão minha ou…!?
 uma pontinha de nariz
 de vez em quando
 torcido, é certo
 mas nunca mais
 - É impressão minha ou…!?
 assustado, é possível, pelo estilhaçar de copos da Odete 
 que não acreditava em fantasmas nem em palermices e está cá 
 parece-me
 para ficar
 o que eu
 de certa forma 
 até acho
 - …uma óptima ideia! 

Isto tá bonito, tá!

- Barda merda mais às criancinhas de África, pá! Até parece que aqui não há fome! Passei pouca, eu! Não nos quiseram de lá para fora? Atão agora desemerdem-se, amanhem-se sozinhos, olha o caralho! Ah, que Deus, que os portugueses assim, que os portugueses assado… Estão melhor agora, qués ver!? Olha, os meus velhos deixaram lá tudo! Três malas de roupa e nem uma cá chegou! 
 Isto é mau, isto é mau, mas toda a merda cá vem parar! Isso é que eu sei! Se é mau, puta que os pariu, pá! Vão lá para a terra deles, ou o caralho! Temos de ajudar? Ó Calisto, foda-se! Eu sei o que é que estou a dizer, pá! Vim de Angola com uns calções, umas cuecas, umas meias, uns sapatos, uma camisa e um boné. Mas tás a brincar comigo ou quê? Eu sei o que estou a dizer, pá! Passei por elas!
 Ajuda? Mas tu achas o Estado português tá interessado em ajudar as ex-colónias, pá? O Estado só ajuda aqueles que o ajudam a ele! Ou tu achas que têm poucos interesses por lá? Hum? É petróleo, é diamantes, é ouro, é o caralho! Têm tudo, aqueles gajos, pá! Logo não ajuda merda nenhuma, pá! Olha lá o Soares, esse verbo-de-encher… não andava lá aos diamantes, mais o caralho do filho dele, aquele cara cu mal fodido? Olha, quando caiu o helicóptero, o que é que andavam por lá a cheirar? Às zebras para fazer passadeiras, qués ver? Conta-me histórias! Olha, havia de ter sido eu e ficava lá! Essa é outra, pá. Se for um pobre a ter uma dor de barriga, caga-se todo e ainda o fazem limpar o corredor das urgências. Agora um burguês? Até o lhe limpam o cu com a aba da bata.
 Só te dão um chouriço se lhes deres um porco. E tens de ser tu a matá-lo. É como os bancos, pá! Para te darem um tostão já tu lhes destes cinquenta. Ninguém te dá nada, pá! Agora, vou eu ajudar? Tá bem, tá! E quem é que ajuda a mim?
 A mim? Darem-me uma casa a mim? Uma pouca de merda é que me dão, pá! As casas são para os gajos das barracas, que não mexem uma palha e ainda recebem subsídio! Eu trabalho, pá! Tenho três filhos e a mulher desempregada! Pago quinhentos aerios de renda, ganho oitocentos: comer, água, luz, gás… e já foste. Não fosse a minha sogra a dar algum, andavam-me os putos a chuchar no dedo de manhã à noite para enganar a fome!
 Mata-se um gajo aqui a trabalhar para quê? Isto tá bom é para os ladrões, pá! Um gajo assalta um banco, no dia a seguir já tá cá fora. É uma maravilha! E quanto mais roubares melhor! Olha lá aquele cabrão do Benfica! Vê lá se ele não dorme descansado! Ligas a televisão e é só merda dessa! É políticos, é empresários, é advogados, é o caralho! Agora vai lá tu roubar um pão e vais ver a volta que levas! É a mesma merda que os impostos, pá! Não pagas a horas, tás fodido. Mas se for o Estado que te deva a ti, tas fodido na mesma! Mordes o esquema? Tás sempre fodido, é o que é, pá! E nem piu!
 Sabes o que é que eu te digo? Fazia cá falta era outro Salazar! Punha esta merda na linha que era um foguete!
 Com o ordenado que eu tenho vai lá tu pedir um crédito. Mandam-te ir apanhar no cu e ainda se riem na tua cara! Por isso, olha, quinhentos aerios todos os meses para as unhas da senhoria e uma casa minha, nem um tijolo!  
 Mas depois vem o caralho dos ciganos e
 bumba
 toma lá uma casa nova, ó Tarota! 
 E aqui o Chico, que se foda! Se quiser uma casa que a compre! Alomba que nem um burro, que até se amola, e quando vai ao banco perguntar como é que funcionam a coisas dos créditos, olham para um gajo de sobrancelhas em arco como que a dizer
 - Ó amigo, só de olhar para a sua camisa, digo-lhe já que isto tá mau de créditos! 
 Olha que caralho, hem!
 E ainda por cima nunca estão satisfeitos, os cabrões dos ciganos! São como os porcos, deita-lhe palha limpa, mas vão-se é espojar na estrumeira! 
 É uma merda, pá!
 Tudo aumenta, tudo aumenta, só o ordenado de um gajo é que parece a picha de um velho! Só quando é para caçar votos é que aparecem a prometer este mundo e a cabeça do outro. Foda-se! Vão pó caralho! Encostá-los à parede ainda era pouco! Mas os portugueses são muita burros, pá, graças a Deus! Já tínhamos feito uma revolução à séria! Olha, o que fazia cá falta era uma guerra civil! Vê lá os espanhóis onde é que eles tão. Ou atão uma merda maior ainda! Vê lá alemães. Foderam-se duas vezes e duas vezes vieram à tona. São como os cagalhões, os sacanas! Não se afundam nem à pedrada. 
 Agora aqui? Oh, pá! É levar no cu desde que nasces até que morres! E depois de morto só não te enrabam se não puderem! tás-te a rir? Sabes quanto é que gastámos com a morte do meu velho? Quase trezentas biscas, pá! Não tivesse ele deixado uns trocos e tinham-no enterrado na vala comum! É como eu te digo, ó Calisto! Isto tá bom é para os gatunos, pá!
 Se não fosse cá por merdas assaltava um banco! Mas bater com os costados na pildra e sujeito e a apanhar sabonetes! Foda-se, tá quieto! A merda toda é essa! Senão a ver se não era!
 Eu não sei onde é que isto vai parar, pá! Os putos, não têm educação nenhuma. Mandam mais eles que os pais! Na escola fazem o que lhes apetece. Se um professor lhe espeta um tabefe no focinho tá mais fodido có caralho. Havia eu de dar ao meu pai certas respostas que às vezes ouço para ai! Levava um avio de cachaporra pelos cornos abaixo que dava para o mês todo! Mas de quem é a culpa? Claro que é dos pais, pá! Dos pais e da merda dos psicólogos! Isso é outra raça que anda para aí a encher o cu à custa dos pacóvios! Eu bem gostava de saber se na casa deles os filhos fazem o que lhe dá na telha e é só conversinhas mansas, como na televisão. Gostava de saber se na casa deles não se grita. Urtigas no cu dos outros são malvas! Hoje não se pode fazer nada aos meninos! Senão ficam todos traumatizados. Coitadinhos! Levei poucas, eu! E ainda aqui ando! E digo-te que se levasse mais não tinham sido mal dadas! Sabes como é que dizia o meu pai? “A porrada não educa, mas conserva”. É como te digo, pá! Só se perdem as que caem no chão. Levassem eles umas lamparinas na trombil quando as pedem e não se via a pouca vergonha que se vê hoje! 
 Ó Calisto, não me fodas, pá! Atão mas antigamente havia respeito aos mais velhos e hoje não há porquê, caralho? Deixam-nos fazer tudo! Depois ficam como aquele puto do anúncio, que só dá vontade é de lhe dar duas bolachadas no focinho! E a ele e à mãe! Tem côdea! Foda-se! Tem côdea? Tivesse eu côdeas quando tinha a idade dele, pá. Vim de Angola num barco carga, com sete anos fui viver para a Charneca, para uma barraca de contraplacado, que aos meus velhos ninguém deu casa! Brinquedos eram pedras e paus, e aos onze, obras com ele, que já tinha escola a mais! Isso é que é trauma, não é umas lambadas quando fazem falta! Por isso é que esta merda anda cheia de paneleiros, ou o caralho, que até mete nojo! Tem cona! Raios partam esta merda, pá! 
 Havia de ser um filho meu a torcer-me o nariz ao pão! Ao pão ou ao que quer que fosse! É de pequenino que se torce o pepino, ou não é? Os meus cá, assim que começam a levantar cachimbo, e ainda são pequenitos, levam logo pela medida grossa. Era o que faltava, um fedelho meu mandar em casa! Antes cagar um pé de merda que levar um filho meu a um psicólogo! É uma corja, pá! É o que eu te digo. Vai por mim! Olha, psicólogos e políticos, era pô-los todos num barco com uma machadada no casco! Foda-se! Eu é que devia mandar nisto, pá! Não sei onde é que isto vai parar, ó Calisto… mas antes que isto piore, manda ai vir mais duas, que agora pago eu. 
 

Segredo é segredo!

- Gostas das minhas maminhas?
 e eu a acenar sins com a cabeça
 a não dizer nada
 tinha jurado 
 não dizer nada
 quando a Ana Maria
 - Jura por Deus que não dizes nada a ninguém.
 e eu 
 que sim 
 com a cabeça
 que sim
 que não dizia 
 - … nada a ninguém.
 a cabeça por mim
 - Juro.
 “por Deus”
 (por quem mais)
 a cabeça, por mil palavras, como se dissesse
 - Fica só entre nós.
 porque a Ana Maria
 - Se jurares que não contas a ninguém, deixo-te mexer. Queres mexer, não queres?
 e eu logo
 que sim
 que sim
 com a cabeça
 “por Deus”
 que sim
 que queria 
 a não dizer nada
 jurado já 
 e a Ana Maria  
 - Gostas?
 e eu
 que sim 
 com a cabeça
 que sim
 “por Deus”
 - Juro.
 a cabeça por mim
 que sim
 que sim.
 Eu tinha sete anos e a Ana Maria… bem, não sei. Trabalhava lá em casa desde o meu aniversário
 Janeiro, portanto.
 Estávamos nas férias da Páscoa, quando ela
 - Queres ver as minhas maminhas?
 e eu 
 pela primeira vez 
 que sim
 que a cabeça 
 por mim
 que sim
 de cima da minha cama
 um verbo sequer
 nada
 a cabeça apenas.
 Eu 
 sete anos 
 e a Ana Maria… bem, não sei. Quando se tem sete anos a idade dos adultos é-nos confusa. E tirando os velhos, têm todos a mesma idade. Digamos que para uma criança de sete anos
 ou pelo menos eu com sete anos
 os adultos eram-no a partir dos quinze
 pelo menos o meu primo Ricardo já devia ser, visto fumar. Embora
  como a Ana Maria
 - Jura por Deus que não dizes nada a ninguém.
 quando eu
 no quintal
 com patinhas de gato
 o meu primo Ricardo
 - Jura por Deus que não dizes nada a ninguém.
 e eu
 com a cabeça
 “por Deus”
 (por quem mais)
 que sim
 que não dizia 
 - …nada a ninguém.
 Portanto, a Ana Maria, adulta, como os meus pais, o meu tio Almiro, a minha tia Cila, o meu primo Ricardo
 já que fumava
 quinze anos
 e me dizia
 além de 
 - Jura…
 - A tua empregada, puto, dá-me cá uma ponta!
 e eu acenava que sim com a cabeça
 sem entender ponta 
 como sem entender ponta quando
 o Ricardo
 a fazer-me companhia nas férias.
 Não a mim
 sei-o agora
 à Ana Maria 
 que 
 - …dá-me cá uma ponta!
 e por
 sei-o agora
 seio agora
 que
 (- Queres ver as minhas maminhas?)
 a Ana Maria
 dezoito anos, talvez vinte
 Quando se tem sete anos a idade dos adultos é-nos confusa. E tirando os velhos…
 a Ana Maria
 sei-o agora
 gostava mais de mim que do meu primo Ricardo, pois nunca lhas havia mostrado. Nunca lhe havia perguntado
 - Gostas das minhas maminhas?
 sei-o agora
 porque um juramento com a cabeça não vale, não é? Espero que Deus entenda assim
 que a Ana Maria entenda que sim
 um descuido
 como um espirro
 juro que como um espirro
 “por Deus”
 que como um espirro
 - Juro.
 - Juro que a Ana Maria não me põe em cima da cama e me mostra as maminhas para eu mexer.
 - Quê, puto?
 o meu primo Ricardo
 - Quê, puto?
 obrigando-me a jurar de novo
 e eu
 “por Deus”
 (por quem mais)
 - Juro por Deus que não me deixa apertar assim…
 (a exemplificar com as mãos)
 deixando o meu primo Ricardo de boca à banda
 a jurar por Deus que
 - … nada a ninguém.
 - Juro.
 Afinal eu também jurara que ele
 quinze anos
 adulto
 portanto
 - … não fuma no quintal às escondidas, tia. Nem na garagem. Juro por Deus. 
 Afinal um segredo é um segredo!

Se eu fosse a contar…

- Tanta vez que eu levei aqui a sô dona Amália! Tanta vez! Nem queira a menina saber. Sempre que precisava de um táxi ligava lá para a central
 (ela não, a menina Estrela)
 mas é a mesma coisa
 ligava lá para a central
 (que na altura não havia cá telemóveis)
 e mandava vir o Pires. 
 - Tanta vez!
 - Era uma senhora. Coitadinha! É assim a vida! Vão-se embora os bons e os maus ficam cá, para semente, que é boa! Anda tudo ao contrário! Mas o que é que se há-de fazer. Deus é que sabe. Olhe, que lhe tenha lá alminha em descanso! 
 - Tanta vez, menina! Tanta vez!
 - Olhe, uma vez, eram quatro da manhã
 (nunca mais me esqueço, tinha ido levar um cliente à Artilharia 1) 
 ligaram-me para o rádio para ir à Rua de São Bento, 193. Já sabia para quem era. Meia hora depois arrancávamos para o Porto.  
 - Tinha uma confiança em mim, que a menina nem calcula! Sei de coisas que nem os melhores amigos dela sonhavam! E o que já insistiram comigo para escrever um livro!? Calhando, ficava rico! Mas eu quero lá saber do dinheiro! Olhe, tenho uma casa paga, o carro é meu, uma filha formada, que já me deu dois netinhos
 (são estas duas jóias, aqui ao lado do S. Cristóvão)
 de modo que o dinheiro… 
 - Há coisas que não têm preço, menina. Não concorda? Obviamente! É uma riqueza que está aqui dentro e vai comigo para a cova. Por isso, quando a malta amiga
 - Ó Pires, porque é que não escreves um livro com essas coisas, pá?
 eu logo
 - Não!
 E não! Por dinheiro nenhum! Olhe, só se fosse pela saúde destas duas joínhas que aqui estão. Nem pela minha. Pode a menina acreditar. Nem pela minha! Segredo é segredo. Pelo menos cá comigo é assim. Quero chegar lá acima de consciência limpa, piscar o olho à sô dona Amália e receber aquela gargalhada que dizia
 - Ó Pires, só você para me aturar estas coisas todas, homem!
 - Ai, que saudades, meu Deus! 
 - Bem, não importa! O que lá vai lá vai. Como a sô dona Amália dizia, e muito bem, “ninguém foge ao seu destino”, e o meu, olhe, é este, andar de cá para lá a levar histórias de um lado para o outro. Mas se eu fosse a contar… ai Jesus! Caía outra vez o Carmo e a Trindade. Olha, olha! O coronel Baptista Lima… ui! Dava cá um livro! Mas não. Fica cá dentro que está muito bem. Ou pensa que foi para o Porto sozinha, naquela noite? Ah! As pessoas sabem lá! Os artistas são homens e mulheres, como toda a gente. Têm é de se abrigar mais, que senão comem-nos vivo. É por essas e por outras que aqui o Pires não quer outra coisa que esta vidinha discreta. Às vezes é complicada. E de que maneira! Mas não trocava isto por nada, menina. Acredite que não. E quem me tirasse este carrinho das mãos era abri uma cova e chutar-me lá para dentro. Mas ser artista… Não! Eu sou dos bastidores. Olhe, ainda fiz teatro, quando era novo. Entrei numa peça com o mestre Eugénio Salvador, que Deus tenha, no Maria Vitória. A menina já não é desse tempo. Mas não dava para aquilo. Tinha de trabalhar, e depois os ensaios… Enfim! Entretanto conheci a minha Elvira e, olhe, o teatro foi outro. Ah,ah,ah… Ai, ai! Mas prefiro assim. Vejo muito, falo é pouco!
 - Falei na sô dona Amália porque causa do fadinho que passou. Ainda hoje, e os anos que já lá vão, sempre que a ouço na rádio, fico todo arrepiado. Olhe, de estar a falar nisso. Mas o que não faltam são artistas que eu já levei aqui, menina! Quer dizer, aqui não, que este é novo. Era um outro Mercedes, um 300 Diesel. Aquilo sim era uma máquina! Não é que me possa queixar deste 
 (Mercedes é Mercedes)
 mas já não se fazem carros daqueles. Sabe quantos anos trabalhou ele nas minhas mãos? Todo o santo dia, que nas folgas ia sempre dar uma volta com a patroa a e filha? Vinte e cinco! É verdade! Vinte e cinco anos, menina! E sabe quantas vezes é que me deu problemas? Uma. Um furo! Ah,ah,ah… Ai, ai! Até dava gosto! Para mim era família. E quando tive de me desfazer dele, foi como se me tivesse morrido um irmão. Até chorei. Palavra de honra, menina! E olhe que fiz duas campanhas na Índia. Isto pode parecer parvo, mas era um companheiro. Passei mais horas com ele do que com a minha mulher. Olha, olha! Se fosse a fazer contas: dias de trabalhar doze, catorze horas. Semanas sem folgas, que isto a vida não era simples. A malta nova hoje queixa-se, e a menina desculpe, mas sabem lá o que isto já foi.
 - De modo que não é este, mas… A gente que aquele menino conheceu! Olhe, aquele é que se soubesse escrever tinha mais histórias que o Diabo! Que um homem aqui à frente vai de olhos na estrada. Nem sou cá pessoa de espreitar pelo retrovisor. Se falarem comigo, tudo bem, senão, vou aqui no meu cantinho, caladinho que nem um rato. Ouço as notícias, e tal. O resto também interessa pouco. Até a rádio já não é o que era. Dantes era uma companhia, agora… O que é bom acaba depressa. Sabe? Tenho saudades é dos Parodiantes! Ah,ah,ah… Esses andavam sempre comigo para todo o lado. E cheguei a transportar alguns. Não me lembro agora é do nome de nenhum. Bem, não importa. Mas aquele menino se soubesse escrever… Ui! As coisas que às vezes se fazem nos bancos de trás dos táxis. Imagino!
 - Olha-me para este agora. Anda lá com isso, pá! Cartas da farinha amparo! Hoje qualquer um tem carta! Por isso é que isto anda tudo entupido e é só acidentes. No meu tempo, menina, para se tirar a carta até aulas de mecânica tínhamos de ter! Mas não era cá aprender a mudar pneus! Era mecânica! Agora, desde que se pague, toma lá e faz-te à estrada. Tenho mais medo de certos tipos que andam na estrada que do Diabo!
 - Mas como lhe dizia, menina: Tantos! Nunca mais daqui saíamos. Olhe, só para ter uma ideia: Raul Solnado; Carlos do Carmo; o falecido Ary dos Santos; a Beatriz Costa, coitadinha, que Deus também já lá tem; o grande Tony de Matos, outro que também já lá está. Tantos, menina! Olhe o Badaró. Esse nem sei se ainda é vivo ou não. Já não é do seu tempo. Ainda se lembra!? É o do limpa o pó, é. Era um prato, esse malandro. A Ivone Silva. Ai, do que eu me fui lembrar! Uma vez apanhei-a à porta do ABC, valha-me Nossa Senhora, nem sabia onde morava… Foi o saudoso José Viana que a teve de ajudar a entrar no táxi, que vinha às arrecuas. 
 - Não é assim, ó Ivone! 
 parece que o estou a ouvir
 e ela
 - É assim é. É para trás que mija a burra!
 Era uma senhora!
 Tantos, menina! Tantos! Nunca mais daqui saíamos.

Sunday, November 16, 2008

Olha o passarinho

- Está ali um pente e um espelho se quiser dar um jeitinho ao cabelo.

o fotógrafo…

corrijo

o retratista

(camisinha às flores)

a indicar-me com o dedo

(acusador)

como que a obrigar-me, ou à vergonha em mim, a dar

- … um jeitinho ao cabelo.

que

de cabelo no ar

(embora o não dissesse)

lhe estragava arte

que os fotógrafos

corrijo

os retratistas

crêem-se uns artistas

por isso

- Está ali um pente e um espelho…

(se quiser)

na ponta do dedo

(acusador)

- …um pente e um espelho…

(só se quiser, está claro)

na subtileza da comunicação, a ouvir-se

- Que de cabelo no ar estraga-me a arte.

ou

- Depois não se venha cá queixar que ficou com cara de porco-espinho!

e tudo isto no bouquet paralinguístico de

- Está ali um pente e um espelho se quiser dar um jeitinho ao cabelo.

De modo que eu

dois passinhos para o toucador

(no silêncio dos obedientes)

onde

- … um pente e um espelho…

e o meu reflexo, contrariado, à espera de mim para

- …um jeitinho ao cabelo.

O pente

bidimensional

dentes finos, dentes grossos

deitado sobre o naperon

de olhos baixos, nu, envergonhado

cheio de cabelos e caspa

a pedir-me desculpa

(prostituta entre dois fretes sem tempo de passar pelo bidé)

no embaraço próprio dos objectos sujos

conforme um espelho reflectindo o dono.

E eu a estender-lhe a mão

embaraçado por embaraçá-lo, a fingir que

nojo nenhum, importância alguma

(Coitado, não tinha culpa. Tinha era caspa, com cabelo, como muita gente!)

a pegar nele

e o pente

retraído

a mudar de cor

embaraçado

não obstante eu

- Tem de ser amigo.

a levá-lo à cabeça num gesto só

a fingir que

nojo algum, nenhuma importância

apesar das voltas do estômago

como se o pente uma garfada de mioleira pela goela abaixo, provocando-me arrancos de vómito, contracções na cárdia.

E nisto

um risco ao meio, perfeitinho, porque o cabelo a afastar-se sozinho

de mãos na boca, contendo o vómito

como o mar vermelho

metade para cada lado

com nojo de Moisés

enquanto o fotógrafo

corrijo

o retratista

(calcinha vermelha)

faraó impiedoso

procurando lentes, olhos de Rá, a umbela, pequeno pálio contra a luz forte do deserto

(salinha a que chamam estúdio)

(…uns artistas)

à espera que eu acabasse de dar

- … um jeitinho ao cabelo.

E de volta à salinha

(a que chamam estúdio)

(jeitinho dado)

o dedo acusador apontado ao centro, ao banquinho de enroscar

desenroscar

de s’ enrascar

desenrascar

o banquinho

ao centro

diante de um painel de palmeiras, gaivotas e mar

onde eu

jeitinho dado

risquinho ao meio

a tomar lugar

direito

a julgar que

direito

pois o fotógrafo…

corrijo

o retratista

(sandalinha de couro)

a dizer

- Um pouco mais para a direita.

- Já foi demais.

- Para a esquerda agora.

Numa indecisão parlamentar

- Endireite a espinha.

E eu com vontade de lhe gritar

- Quem tem espinha são os peixes.

a endireitar a “espinha”

(no silêncio dos obedientes)

não como ele queria

que os artistas nunca estão satisfeitos

a aproximar-se de mim

camisinha às flores

calcinha vermelha

sandalinha de couro

a aproximar-se de mim com dois polvos de cinco tentáculos, colando-se-me à cabeça, fazendo força

- Assim.

e sem que eu me mexesse

- Não se mexa!

E eu com vontade de lhe gritar que não me tinha mexido, “maricas de merda”

camisinha de couro

calcinha às flores

sandalinha vermelha

que não me tinha mexido

com vontade de lhe gritar

- Quem tem espinha são os peixes.

A não me mexer

(no silêncio dos obedientes)

procurando evitar os tentáculos

perfumados

cheios de anéis e pêlos

paradoxo estético

e

apesar de não me mexer

um tentáculozinho a lamber-me o queixo

- Assim!

toquezinho de nada, importância das importâncias

que os artistas nunca estão satisfeitos

que os artistas

- Cuidado, que me estraga a arte!

que os artistas

- Depois não se venha cá queixar que ficou com cara de Mário Soares.

Um toquezinho de nada e

- Está bom. Não se mexa agora. Isso. Vá, agora um sorrisinho.

e eu com uma vontade de sorrir tão grande quanto de engolir uma caixa de pregos

a forçar as bochechas

(no silêncio dos obedientes)

- … um sorrisinho.

a imaginar um polícia para mim

- … um sorrisinho.

desconfiado

porque a fotografia a não corresponder à minha cara, onde

sorrisinho nenhum

de modo que a fotografia sorridente a ter de pôr uma cara séria, carrancuda, a imitar-me, a colar-se a mim, para não me arranjar problemas com a autoridade

porque os artistas

o fotógrafo…

corrijo

o retratista

(cabelinho pelos ombros)

a insistir

- … um sorrisinho.

E eu com vontade de lhe gritar

- Quem tem espinha são os peixes.

a forçar as bochechas

(no silêncio dos obedientes)

a descolar os lábios

a imitar um sorriso

diferente de sorrir

imitar apenas

a não querer estragar-lhe a arte; para que depois não me fosse lá queixar que ficara com cara de sapo penteado e

(no silêncio dos obedientes)

a olhar para o passarinho

quando

- Agora olhe para o passarinho.

Passarinho, aonde?

anéis e pêlos

paradoxo estético

cinco tentáculos

ardil manhoso

que os passarinhos não têm tentáculos

que os passarinhos não têm anéis nem pêlos

nem paradoxos.

De modo que passarinho nenhum

passarão

não passarão

passarola

passareta

borboleta

pianola

borbotão

de patinha no botão

- Agora olhe para o passarinho.

E eu com vontade de lhe gritar

- Quem tem espinha são os peixes.

a olhar para os tentáculos penados

anéis e pêlos

direito no banquinho de enroscar

desenroscar

de s’ enrascar

desenrascar

o banquinho

ao centro

diante de um painel de palmeiras, gaivotas e mar

onde a brisa a ameaçar-me o cabelo, o risco, o penteado

de bochechas forçadas

sujeito a arranjar problemas com a autoridade

fixando o pintassilgo

o pintarroxo

o pintainho

até que

Flash

a deixar-me cego

gravado na chapa

com cara de porco espinho

Mário Soares

sapo penteado

que o artista

corrijo

o maricas de merda

camisinha pelos ombros

calcinha de couro

sandalinha às flores

cabelinho vermelho

bem me deu a entender

- Depois não se venha cá queixar…

Agora ou Nunca

Olhava com inveja para as barrigas vaidosas das grávidas que se passeavam felizes pelo jardim da Estrela, quando

- Importa-se que fume?

a rouquidão de uma voz, ainda mal se havia sentado no banco que passámos a ter em comum.

Não me importava. Não estava grávida. Infelizmente nenhum motivo para

- Preferia que não.

- Estou farta desta merda! Tenho quase quarenta anos

(na verdade apenas trinta e cinco)

e não consigo engravidar.

A Isabel aos gritos, num misto de frustração e desespero. Enquanto eu

a ouvi-la e pouco mais.

Também eu queria um filho…dela!

- Quero fazer um teste de fertilidade. Quero saber se sou seca! Quero saber se o castigo é meu!

num misto de frustração e desespero.

- Esteja à vontade!

respondi, quase sem tirar os olhos de um vestido salmão que se arredondava sobre o ventre de outra mulher que por ali passava

(cabra)

de braço dado.

- Se o problema for meu, deixas-me?

o Paulo a perguntar-me com um olhar de cachorro preso à matricula diminuinte do carro dos donos.

- Claro que não! Estás parvo?

foi a resposta da Isabel, ganhando coragem para fazer a mesma pergunta.

- Eu também não! Nunca, Tolinha!

tomando-a nos braços e rematando

- Por isso não vale a pena castigarmo-nos com a verdade. Não importa de quem é o problema. É nosso. Basta. Não quero que te agonies, nem me quero agoniar eu.

Mas para mim não bastava. Queria sabê-lo. Queria-o quase tanto quanto a um filho. E por isso agoniava-me; agoniava-o. E no limite do desespero

A Isabel aninhar-se-me nos braços e, apesar de não satisfeita com a proposta, a deixar-se ficar em silêncio à espera do silêncio húmido dos meus lábios. Tentámos mais uma vez!

- Fuma?

a voz, desconcertante, estendendo o maço na minha direcção.

A coisa parecia descontrolada. Devorávamo-nos até ao limite do possível, num desespero incompreensível à razão. O desejo era tal, e tal a sofreguidão, que foi a melhor vez da minha vida; apesar de não o termos feito um com o outro. Eu, com uma fantasia selvática tornada realidade, e a Isabel, com o desejo enraivecido se ser mãe.

(Era agora ou…

- Não costumo… mas aceito um, sim!

Afinal de contas, nenhum motivo para

- …não.

e uma mão morena com uma chama na ponta avançando na minha direcção. E o cheiro a tabaco a misturar-se com um perfume quente que me entrou pelas narinas adentro despertando-me um desejo desconhecido. Estava aceso o instinto; o cigarro também.

- Nunca me deixas, Paulo?

- Claro que não, tolinha!

E mais saliva e mais suor e mais pêlos da carpete colados à humidade dos corpos (…)

… ou nunca!)

Eu sabia o problema não ser meu. Não que alguma vez tivesse feito um espermograma na vida, mas porque

- “Ou tu casa com a Rosinha, ou eu te mato, desgraçado!”

as palavras sentenciosas do pai da rapariga (da moça, melhor será dizê-lo) mal a barriga da filha se começou a tornar indiscreta. Uma aventura sem importância, um par de vezes: uma tarde, uma noite ou duas, que me obrigou a fugir da Baía sob ameaça de morte.

- Quando olho para estas crianças a correr de um lado para o outro, sinto uma vontade enorme de ser pai.

a voz do companheiro de banco e de fumo, envolta na neblina do cigarro, que já não fumava desde os tempos do Liceu Francês, a trazer-me de volta à Estrela, ao banco, ao seu lado. Parecia ter voado com o fumo, até à idade em que os sonhos e a realidade são uma e a mesma coisa, mas aquela voz pétrea rebentou a bola de sabão em forma de ventre prenhe que me envolvia os sentidos, no preciso momento em que as minhas mãos mentais se dirigiam descontroladamente para o pescoço da rapariga de salmão que tornava a passar. Parecia que de propósito para me provocar.

Cabra!

Cabras! Todas!

Tinha vontade de as espancar, de lhes arrancar a beleza das faces plenas de felicidade à chapada, mas… porque a voz

- Quando olho para estas crianças…

eu

- Como disse?

- Quando olho para estas crianças a correr de um lado para o outro, sinto uma vontade enorme de ser pai.

Duas semanas depois, sob o pretexto de ir tratar dos papéis para o casório, apanhei um autocarro e mil e duzentos quilómetros depois, num avião para Portugal.

- A senhora tem filhos?

- Tenho dois! - menti, no meio de duas passas denunciadoras.

- A vida nunca me deu essa felicidade! - e puxando fumo, acrescentou de peito cheio: - Mas ainda não perdi a esperança! - olhando-me desarmante para a alma nua.

Era agora ou nunca! Caídos um para cada lado do chão onde

exaustos, encharcados, plenos…

Eu na minha virilidade de macho; Isabel na sua maternidade de fêmea.

- Nunca me deixas, Paulo?

- Claro que não, tolinha!

Há coisas que não se explicam e… A tarde começava a acinzentar e o vento tinha tomado a forma de uma mão sob a aba do meu vestido, ali onde a coxa começa e a penugem se arrepia ao mínimo contacto. Quando dei por mim o banco tinha desaparecido e, no seu lugar, o alto miradouro do jardim, onde aquela voz rouca, um cavalo a galope pelas colinas das minhas espaldas acima, num encaixe completo até à medula dos ossos.

Hoje terá nove anos. Menino ou menina! Não sei. Creio que não vou saber nunca. Tal como

saber nunca

se meu ou não

pois apenas um par de vezes: uma tarde, uma noite ou duas

apesar de ela

- Por tudo o que há dji mais sagrado que é seu, Paulo! - lavada em lágrimas.

Nestas coisas as mulheres não se enganam.

As minhas mamas famintas de leite enchiam a cada investida e o meu ventre morto respondia a cada massagem cardíaca que aquele estranho paramédico me ministrava. Não sei explicar. Não quero explicar.

Foi uma loucura aquela noite!

Foi uma loucura aquela tarde!

No mês seguinte o período não veio e no lugar dele uma sensação de intraduzível felicidade. Um exame de farmácia confirmou o anseio, e dois meses depois a ecografia dava-me a melhor das notícias.

- São dois!

podia dizê-lo agora sem mentir quando alguém

- …tem filhos?

Não podia nem acreditar. Isabel estava grávida e eu ia ser pai!

- Só pode ter sido feito daquela vez! - assegurava o Paulo numa excitação infantil.

E eu

- Claro que foi, tolinho!

Afinal… quem poderia saber?!

Nestas coisas as mulheres não se enganam.