Friday, August 29, 2008
O Antigo Monumental
- …para os dois…
insistias
- … e assim o pequeno…
Paulo Filipe
(não me lembro de alguma vez lhe ter ouvido o nome na tua boca)
- … o pequeno…
passava mais tempo comigo, que
- O mal da Revolução foi esse!
dizias e eu acreditava
- Desintegrar as famílias.
E como em casa não se fazem amigas, e num prédio de doze apartamentos não se conhece ninguém
bom dia, boa tarde
que à noite já é para se ter a porta trancada, que
- O mal da Revolução foi esse!
não tenho amiga alguma.
A dona Odete? Não! Conhecida apenas.
bom dia, boa tarde
que à noite
vai dormir ao lar
- O mal da Revolução foi esse!
Por isso, Zé, tem lá paciência, mas preciso de falar com alguém. Não é ser chata, Zé, é ser tua mulher, é estar à toa! É não saber o que se passa e tu não falares comigo. Quase não olhas para mim e nunca te deitas à mesma hora que eu. Ah que Deus que tu trabalhas e sustentas a casa. Caramba, Zé! Então e o meu trabalho não custa nada? Quanto pensas que leva uma empregada hoje em dia?
Parece que é só o cheque que distingue o trabalho da obrigação. Mas se eu não tenho cheque é porque o que tu ganhavas chegava
- …para os dois…
Mas já éramos três, Zé! Já éramos três.
- … o pequeno…
Sim, o pequeno, Zé
Paulo Filipe.
E é só por isso que não ponho um cheque ao lado do teu. Como os bilhetes, alianças de papel, sobre o balcão do Monumental, quando tu, mais tempo a olhar para mim que para a tela, a suar-me a mão nas matinés de domingo, e ao meu ouvido
- És tão bonita, Rosa!
Ai, meu Deus! Nem imaginas as saudades, Zé! Uma mulher nunca se esquece destas coisas.
Sempre ali, aos domingos. E depois do filme, avenida abaixo, mão dada, desde que chegavas até me deixares à porta dos meus pais
Rua do Salitre, 31
de mão dorida
tão feliz
porque tu no meu ouvido
- És tão bonita, Rosa!
Tão feliz
até à hora de dormir, contigo ali, apertadinho nos dedos. Ai, Zé! Uma mulher nunca se esquece destas coisas.
Uma cerimónia simples. Estavas tão nervoso… tão bonito, Zé. A igreja dos Anjos…
e o amor prometia planícies de lírios em flor
De lírios em flor, Zé!
Delírios em flor…
Dois anos de felicidade. Três de namoro. Até que
vai a baixo o Monumental
e tu
alguma coisa em ti
a ir abaixo também.
Insistias não ser nada: o trabalho, a reprografia, o cansaço, as responsabilidades
altas horas
e eu
sozinha
com o Paulo Filipe
(Sim, o pequeno, Zé!)
até tu
altas horas
pé ante pé para debaixo do lençol
e eu
sem pregar olho
a fingir que dormia, a sentir-te torturado, com vontade de me agarrar a ti, entrançar os meus dedos nos teus, e ficar ali
como antigamente
apenas ficar
ali
como antigamente
na almofada morna do teu ombro… mas
a não mexer um músculo
a fingir
a sentir-te torturado
a torturar-me
porque tu nunca gostaste de falar sobre este assunto.
Eu entendo, meu querido! Também amava o Monumental
o nosso refúgio
(três anos de namoro)
Por ti tínhamos casado lá. Mais sagrado que a igreja do Anjos. Mas a família, as tradições…
Bem dizes não ser nada disso. Disfarças. Mas eu conheço-te, Zé. São muitos anos. Tenho ouvido psicólogos na televisão a falarem dessas coisas
traumas.
Há mais gente que ficou assim. Olha a Laura Alves, coitadinha! Dizem que tudo se resolve. Mas fala comigo, Zé. Por favor fala comigo. Senão começo a criar macaquinhos no sótão
como tu dizes.
O que é que te custa descansar-me, Zé?
O metro, a hora de ponta, toda a gente ao monte, homens e mulheres
(é normal que cabelos louros na lapela, um perfume estranho)
eu sei.
Mas o que é que te custa dizer-me
metro
hora de ponta
gente ao monte
homens e mulheres
amante nenhuma…
O que é que te custa, Zé
por causa do Monumental
que me amas
que
- És tão bonita, Rosa!
o que é que te custa, Zé? O que é que te custa?
Saturday, July 26, 2008
Eta frescura braba!
Não sei porque continuo recebendo ele. Aliás, sei sim. O cara me paga como nenhum outro. Normalmente cobro por hora
Cinquenta minutos para ser mais exacta.
duzentos euros
mas o preço varia um pouco conforme a variedade da coisa. Tem cliente que chega a deixar quase o dobro e outros que vêm sempre com um carinho extra. Mas esse, me deixa quinhentinhos, direitinhos, na mesinha.
E apenas para fica no chove não molha, no beijinho bobo.
É por isso que eu sigo fazendo ele. Depois que ele sai, fico meia hora no chuveiro, esfregando a pele como se coberta de um grude melento que parece não sair por nada desse mundo. É como se os seus beijos se entranhassem por debaixo da pele.
Da primeira vez em que ele
- Tenho um pedido muito especial a fazer-lhe.
fiquei logo com a pulga atrás da orelha. Sempre que um cliente chega com esse papo mole, vem bomba na certa.
- Queria ficar apenas a contemplá-la. A vê-la nua.
Não falei? Fiquei gelada. Na minha profissão a gente também se acanha. Para quem pensa que é tudo moleza. É sempre preferível o cliente tradicional. Chega, faz o tem a fazer, paga e se despede. Quanto menos frescura melhor. De preferência que seja simpático, atencioso e meigo. Mas entre um cara bruto e um cara fresco… não sei mesmo o que é pior.
E aí foi. Tirei a roupa, me deitei na cama… não disse nada. E ao final, quinhentinhos na minha mão. Nem queria acreditar. Nunca tinha ganho dinheiro desse jeito. Nuinha sobre a cama… Deus do céu! Vê se pode!? E o cara ali, me olhando, como se uma pintura famosa ou uma borboleta rara.
Da segunda vez
mal reconheci a voz no celular
(faz parte do meu trabalho. Afinal a gente tem de se proteger de algum jeito. E a voz - o papo - é o primeiro filtro)
ainda hesitei em aceitar, mas
pô
o cara foi generoso, delicado comigo. E apesar da frescura…
quinhentinhos na minha mão.
Por isso
(quem sabe se não volta a pagar bem! Se não for assim, não aceito mais)
- Na quarta está bom para você?
- …
- Às sete? Deixa eu ver.
É sempre bom dar a ideia de que se tem de dar uma checada na agenda preenchida.
- Às sete para mim está perfeito.
- …
- Até lá, então!
No dia e hora marcados lá estava ele de novo, cheio das frescuras. Dessa vez
- Permite-me que a cheire?
E ao meu consentimento mudo com a cabeça começou a me fungar por todo o corpo. Me senti como um traque no meio de um ônibus cheio de gente. Mas, fazer o quê? Nunca me tinha sentido tão desnuda diante de ninguém e, para quem diz que é “vida fácil”, foi porque nunca se sentiu bunda de cachorro farejada. O sujeito me cheirava por debaixo do meu perfume; me procurando onde eu sou de mim e de quem me quero dar. Me sentindo nua por debaixo da minha própria pele. Invadida. Não sei explicar. Um negócio estranho; perturbador. Porque a nudez não está na roupa que se tira e era precisamente essa intimidade que ele buscava em mim.
Faz dois meses já que faço esse cliente e, de cada vez que vai, nunca me deixa sem os quinhentinhos. Não sei até quando seguirei fazendo ele. Talvez até ao dia em que ele com o papo de
- Permite-me que a lamba?
pois já passou da festinha para o beijinho
e temo que quando esse dia chegar, o seguinte seja para me comer. Não seria isso um problema se fosse ele um cara normal. Mas com tanta frescura, receio bem que me queira comer de faca e garfo e não com o talher de pau que Deus lhe deu. Se é que Deus lhe deu algum!
Há pessoas que nascem para serem únicas
(zona privilegiada da cidade).
Cursou engenharia electrónica no Instituto Superior Técnico e sempre viveu ali perto, na casa que ainda hoje habita, depois do súbito desaparecimento do pai
(- … a PIDE.)
e da morte da mãe. Por isso não terminou o curso
no qual
assegura
(e ninguém tem motivos para não crê-lo)
não havia pai para ele
porque o Hilário
- Conheci pessoalmente o Elvis Presley.
numa das muitas viagens que fez aos Estados Unidos.
Mas a vida dá mais voltas que um tambor de uma máquina de lavar, e umas vezes está-se por cima e outras enrolado de cabeça para baixo.
Poucas coisas, para não dizer nenhumas, havia que, contadas por outros, não tivessem acontecido ao Hilário levantadas à potência. De modo que, quando um dia o Paulo Luís
cliente habitual da casa
- Arranjei um sarrabulho no Cais do Sodré ontem à noite, que se não fosse a bófia ter chegado a tempo, tinha desgraçado a minha vida.
todos torcemos nariz.
- Três sacanas estiveram mais de uma hora a espicaçar-me a paciência. E vocês sabem que se há gajo pacífico sou eu.
O Paulo Luís fora praticante de luta livre em novo
(treinado pelo grande Tarzan Taborda)
e só nunca entrou em competições para não matar do coração a senhora sua mãe, a quem faltava o ar sempre que o filho metia a roupa do treino no saco e saía para a Caparica. Um campeão sem nunca ter competido. E não houve falta de ofertas para que o “Cordeiro Negro” entrasse no ringue para matar.
- Este tipo é perigosíssimo!
(ouviram uma vez o mestre Taborda dizer)
- É melhor mesmo que nunca entre no ringue. No dia que entrar… - e pendurou a frase, passando o polegar pela saliência do pescoço
E nada disto era mentira, porque no dia em que Paulo Luís pisasse o ringue, a sua pobre mãe haveria de cair para o lado, mortinha da Silva.
No entanto, quando o PauloLuís
- Arranjei um sarrabulho no Cais do Sodré ontem à noite…
todos torcemos o nariz.
Não que fosse uma história impossível, mas…
De qualquer das formas éramos testemunhas que se havia gajo pacífico era ele.
O Hilário, a respeito disso, declarou logo
- A mim, uma vez…
(assim começava sempre as suas histórias)
- … no México, tinha ido com um grupo de camaradas
(era um comuna dos sete costados, como o pai)
- …a um bar, fora do hotel. E nisto, um grupo de mexicanos cai-lhes em cima na hora em que eu vou à casa de banho. Assim que volto e vejo aquele sarrabulho… meus meninos… nunca na história do México caiu uma tempestade de cadeiras pelos cornos abaixo como aquela noite! Se não eram trinta, não eram nada! Deixei ali uma despesa, que nem a vida toda a alombar daria para pagá-la. Nem a polícia escapou!
E nós a não duvidarmos, porque há pessoas que nascem para serem únicas. É o caso do Hilário, dono de um potencial inacreditável
(única coisa inacreditável nele)
e de um Snack-Bar na avenida de Paris.
(zona privilegiada da cidade).
Cursou engenharia electrónica no Instituto Superior Técnico e sempre viveu ali perto, na casa que ainda hoje habita, depois do súbito desaparecimento do pai
(comuna dos sete costados)
e da morte da mãe. Por isso não terminou o curso
no qual
assegura
(e ninguém tem motivos para não crê-lo)
não havia pai para ele
porque o Hilário
- Quantas vezes não vêm aqui professores do Técnico tomar uma cervejinha, como quem não quer a coisa e, vai no fim, tumba, estão a tirar dúvidas comigo. Colegas meus, da faculdade, pois. Eram umas nódoas. E hoje, professores! É assim a vida! Meus amigos, isto quem não tem paizinho nem padrinhos, está tramado e bem tramado! De modo que eu, que não sou um tipo orgulhoso, tiro-lhas todas como se fossem criancinhas de seis anos. Está aqui o Lerpa que não me deixa mentir.
e o Lerpa
que não o deixa mentir
a fazer sinal com a cabeça
sinal apenas
sim, talvez
talvez não
mas que todos entenderam com um
“- É verdade, sim senhor.”
Ensurdecera em Angola, mas nunca se habituara à ideia. Uma mina. Sabia-se, sem que nunca o tivesse contado. Quando falava ninguém o interrompia. Nem havia como. Aprendera a ler nos lábios e isso chegava-lhe para se fazer presente. Um dia, sem mais nem menos
- Uma vez tive um combate de nove horas. Nunca pensei sair de lá vivo.
E nós a torcermos o nariz
apesar do Lerpa
sempre cheio de medalhas na lapela do camuflado
que não despia nunca.
Nós a torcermos o nariz
(na Feira da Ladra já as vi à venda por bom preço)
apesar do testemunho de outros companheiros
dos recortes de jornal
porque
(na Feira da Ladra já as vi
por bom preço)
enquanto que o Hilário
- Isso não é nada! A mim, uma vez…
e a servir-nos uma história das suas, quentinha, numa travessa de pipis.
E nós a não duvidarmos, porque há pessoas que nascem para serem únicas.
não são todas.
caso do Hilário
potencial inacreditável
Snack-bar na Avenida
(…privilegiada da cidade)
engenharia electrónica
Instituto Superior
sempre
ali perto
casa que ainda hoje
desaparecimento do pai
morte da mãe
(a PIDE e a miséria)
por isso
o curso…
no entanto
as dúvidas aos ex-colegas
- …umas nódoas…
apesar de
sempre que alguém
- Ó Hilário, não me podes passar lá por casa para dares um olhadela na instalação?
responder sempre
- Eh, pá, ando com o tempo todo contadinho.
E nós a não duvidarmos, porque há pessoas que nascem para serem únicas.
Monday, June 30, 2008
Quase Mulher
Há meses que o Valentim não me procura. Há meses que
também eu
perdi a coragem de
uma pontinha de pé nos pêlos das suas pernas, num miado de gata com…
Há meses
Fevereiro
28 para ser mais exacta
que o doutor Gama Seixas
- A senhora tem um cancro na mama.
que a vida se me cristalizou diante dos lábios, incrédulos
- Como?
- Dezoito milímetros dona Adélia. Temos de operá-la o quanto antes. E perca as ilusões de salvar o peito. Não há como arriscar.
E eu que nunca me descuidava com os exames; eu tão certinha e
- … perca as ilusões de salvar o peito.
como se negligência da minha parte, como se eu não me apalpasse, me conferisse, como se o Valentim
as mãos cegas do Valentim…
e uma raiva enorme a acumular-se em cada passo a caminho do autocarro
para Benfica
uma raiva enorme do Valentim que
de mãos no meu peito
sem me sentir
como se duas bolas de esponja para a fisioterapia das artroses. Uma raiva enorme porque nunca me prestou atenção; porque de tanto as apertar, de tanto puxar por elas
(como se eu a mãe que o deixou à porta da maternidade)
nunca sentiu nada a mais.
- Dezoito milímetros…
Por favor!
A sentir-me usada, abusada, negligenciada…
e uma raiva enorme a escorrer-me para o lenço: o último de um maço encetado na paragem
para Benfica
onde o decote da blusa ainda a ser alvo de olhares
embora eu
vontade de gritar
- Gostam do meu cancro, javardos?
com raiva, a senti-lo diminuir, desaparecer
e
dentro de uns dias
nenhuns olhos a procurarem o decote que
nunca mais coragem de usar
como nunca mais coragem para uma pontinha de pé nos pêlos das pernas do Valentim. Já lá vão uns meses
estamos em Agosto
22 para ser mais exacta
portanto, desde Fevereiro
28
um dia antes
para ser mais exacta
a 27, portanto
que o doutor Gama Seixas
- A senhora tem…
… um cancro…
Agosto
estamos em Agosto
e o calor a puxar por mim, pelos humores de mim, mas eu, a não querer ser mais rejeitada do que já me rejeito, a
nem uma pontinha de pé nos pêlos das pernas do Valentim
miado de gata com…
Nada!
- E com a luz apagada? - Eu a tentar junto de mim uma solução, uma abreviação. Mas a escuridão não apaga tudo, visto no lugar do peito apenas o lugar do peito, pois a reconstituição
- Um dia…
o doutor Gama Seixas
embora para destruir
- …o quanto antes.
mas para reconstruir, nenhum médico
- Temos de operá-la…
E o autocarro
a caminho de Benfica
a passar ao longo do cemitério
e eu
a doer-me por dentro
com vontade de agarrar-me a toda a gente, aos pés de toda a gente
a pedir
- Ajudem-me! Por favor, não me deixem morrer! Não quero morrer, por favor! Estou cheia de medo! Alguém me agarre, por amor de Deus!
a pedir
suplicar
para ser mais exacta
que tivessem pena de mim, que me ajudassem
se todos quisessem, se todos fizessem um esforço, se todos estivessem do meu lado
tudo mais fácil
tudo muito mais fácil.
Mas as caras apertadas, cheias das suas vidas, como se em cada peito um cancro, a bater em vez do coração
contagem decrescente
tum-tum, tum-tum
condenados todos.
E eu a querer chegar a casa, agarrar-me ao Valentim, na esperança de que ele me salvasse, de que ele me acordasse daquele pesadelo, de que ele…
um abraço
em silêncio
(não importa )
garantindo-me
- Foi um pesadelo, já passou!
caso não mo pudesse garantir
pelo menos
- Vai tudo correr bem. Não te preocupes. Eu estou aqui. Ao teu lado. Sempre!
Também já era pedir de mais!
Ou a minha mãe, que há anos tinha morrido
doze
para ser mais exacta
e que me faltava agora como nunca. Eu a querer voltar atrás, eu a prometer que me portaria bem, eu a jurar que faria tudo quanto ela ou Deus quisessem, eu a garantir que aprendera a lição, eu a qualquer coisa, a assinar a minha sentença de morte para me salvar
como quem se atira de um centésimo andar em chamas.
Mas nada!
A sala vazia
os quartos
eu toda
como a casa
a enrolar-me no sofá, como se nos braços de Deus, no útero materno, um instante de conforto, de protecção, couto almofadado onde nada me poderia tocar. Mas
- …um cancro…
não o jogo da apanhada. De modo que
dias depois
oito
para ser mais exacta
a acordar como uma amazona, numa floresta verde de cortinados desesperançados. A mão esquerda a procurar o seio direito, porque a direita não se podia mexer e
nada
apenas o lugar onde um dia
uma mulher completa
de encher o olho
o decote, alvo de olhares
e a enfermeira, toda sorrisos
- Como é que se sente?
com dois fartos seios apontando para mim, a encherem-me os olhos de lágrimas mutiladas.
- A operação correu muito bem! Daqui a uns dias já estará em sua casa.
Cinco
para ser mais exacta.
E agora, meses depois, o Valentim, como se eu um monstro
não uma amazona
um monstro
a não me procurar
e eu
sem coragem para uma pontinha de pé
uma pontinha pé nos pêlos das suas pernas.
Friday, May 30, 2008
Solidão em biquinhos de pés
E as tábuas das escadas
a que chamam degraus
a rangerem-me sob os pés, denunciando-me os passos aos outros hóspedes da pensão. Um resmungar que só lhes ouvia a altas horas da noite
talvez porque a dormirem já
a acordarem por minha causa
dos meus passos atordoados, pesados do vinho e do sono, no resmungar da velhice, dado que tudo o que é velho geme e resmunga.
Eu compreendo. Claro que compreendo. O dia todo para acima e para abaixo, no clep-clep fofo do tapete que lhe lhes abafa o queixume e não deixa que as agridam tanto. As escadas são de origem, e a pensão, de mil nove e tinta e nove. Passou-lhes a guerra para cima e para baixo
clep-clep
tapete nem meio tapete
que quando se é novo não se geme de queixa.
Mil nove e tinta e nove
a guerra
para cima e para baixo
de modo que agora
qualquer coisinha
os nervos à flor da cera
especialmente à noite
quando o silêncio amplifica o tamanho e o peso dos homens, e o tapete não chega para lhes amordaçar o queixume.
Mas eu não posso vir mais cedo. Compreendam vocês também que eu não posso
mais cedo
pois se me deito sem sono, ou sóbrio, penso na vida que não tenho. E porque o pensá-lo é sinal de estar vivo, entro em conflito comigo, porquanto não entendo o paradoxo de estar vivo e não ter vida. Entendem? Nem eu! Eu prometo descalçar-me à entrada
é isso
descalçar-me à entrada
aliviar o passo…
Ai é a mesma coisa? Então se é a mesma coisa não me chateiem e muito boa noite, que pago as minhas contas e tenho mais que fazer que gastar latim com um xilofone de tábuas desafinadas. Ora não querem lá ver! Não é o meu dinheiro como o dos outros? Tudo igual, minhas queridas! Só mudam os horários.
Não posso vir mais cedo! Caramba, já disse que não posso vir mais cedo, que inferno! Se me deito sem sono… sóbrio… penso na vida… sinal de estar vivo… conflito comigo
ou conflituo comigo
que às vezes não há diferença entre substantivos e verbos, quer existam quer não. Isto para verem que não sou nenhum inculto que para aqui ando. Só não posso é deitar-me sem sono
sóbrio
porque penso na vida que não tenho. E depois
conflito
como em mil nove e trinta e nove
sabem como foi
que também é sinal de estar vivo
paradoxo
estar vivo e não ter vida.
Entendem?
Eu sei que são velhas e têm direito ao sossego e ao silêncio da noite, mas olhem, estudassem, se queriam ser escadas de púlpito, que essas sim são só para enfeitar, pois sermões é coisa para dar aos peixes, e, para lhes chegar, não são vocês precisas para nada. Se fossem escadas de quinta a esta hora estavam deitadinhas no celeiro a dormir o sono dos justos, nas palhinhas como o menino, que também é filho de carpinteiro. Mas, e então?! Também eu se fosse mais fino não dormia no segundo andar desta espelunca. Dormia no Ritz, no Palace.
Ah que Deus, daqui a nada são sete da amanhã e já começa o para baixo e para cima dos que têm ou não têm que fazer. Que tenho eu com isso? Os guardas-nocturnos também dormem de dia, tal como as raparigas de má fama. E se eu fosse um desses? Hum? Como é que era, se eu fosse um nocturno de má fama, ou um guarda-raparigas? Hum? Ah, não dizem nada!
Eu que até tenho consideração, que até suavizo o peso, respirando pouco
e olhem que quatro lances de pulmões vazios não é brincadeira
disposto até a descalçar-me à entrada
aliviar o passo…
Agora se é a mesma coisa… boa noite!
E ao chegar ao quarto, a porta
uiiiick
a ranger, denunciando os meus gestos aos outros hóspedes da pensão. Também ela estava a dormir. Também ela a resmungar. Também a ela lhe passou a guerra de um lado para o outro. E eu que não casei para não ter quem me controlasse os passos, os gestos, as horas e no fim dá nisto. Irra! Mais um copo ou dois e não lhes ligava peva, agora assim, no intermédio da razão… Anda-se um homem a poupar para quê? Para ter chatices, é o que é!
Mais um copo ou dois e nem escadas nem porta, nem o raio que as partisse: uma auto-estrada sem portagens do balcão à tarimba. Agora assim tudo manda vir com um homem
que ninguém percebe isto de estar vivo e não ter vida
o paradoxo
e ao pensá-lo, olho para a cama, quieta, no seu sono madeira e molas
(a ela não lhe passou a guerra por cima).
Pelo menos a de mil nove e trinta e nove!
Passaram outras
que numa cama só há paz depois da guerra.
Sento-me à beirinha, procurando não a acordar, levanto um pé
nhec
numa demora de preguiça a trepar à árvore
pata a pata
outro pé
nheeeec
a acordá-la por fim, num rabujar de madeira e molas…
Deito-me vestido. Estou quentinho, quero que se lixe. Fecho os olhos
os ouvido não consigo
nhec-nhec…
a respirar devagarinho para não despertar nela a fúria de esposa amuada pelo despertar do sono, pelo tarde das horas, pelo cheiro a álcool, a fingir-me adormecido já, mas o ranger, como um resmungar enervante de esposa nos meus ouvidos
nhec-nhec… nhec-nhec … nhec-nhec …
como que
- E não finjas que estás a dormir. Não faças que não me ouves.
nhec-nhec… nhec-nhec … nhec-nhec …
Era mais um copo ou dois… agora assim, no intermédio da razão…
nhec-nhec… nhec-nhec … nhec-nhec …
- São isto horas de me vir acordar? Lá porque pagas as contas achas que tenho de estar sempre pronta para levar contigo em cima?
nhec-nhec… nhec-nhec … nhec-nhec …
E eu que não casei para não ter quem me controlasse os passos, os gestos, as horas e no fim… Mais um copo ou dois e podia nhecnhecar à vontade que eu
peva
agora assim, no intermédio da razão… Anda-se um homem a poupar para quê? Para ter chatices, é o que é!
Arre porra que é demais!
A nossa música
Há pouco, quando vinha no carro, passou a nossa música. Há muito tempo que não a ouvia e
apaixonei-me de novo por ti.
Temos destas coisas, não temos? Apaixonarmo-nos de novo ao som de uma música antiga, não é? Uma bebedeira que passa, como todas as coisas que passam.
Quando entrei em casa, cansado do táxi, vi-te do bengaleiro
na confusão dos tachos
nenhum segredos para ti.
e pareceste-me bonita, como há muito não te via, e até as tuas pequenas imperfeições
o olho vazado pelo acidente da fábrica; a verruga no pescoço, que desde que apareceu evito olhá-la...
Desculpa amor, nunca to ter dito! Desculpa ainda agora pensá-lo no silêncio do não te dizer ainda. Sabes que tenho pavor de insectos, não bem insectos, mas não sei que nome tem a classe das carraças. Aracnídeos? Acho que num concurso de televisão
- Aracnídeos.
Deve ser. Afinal também tenho nojo de aranhas.
Não é por mal! Os traumas nunca são por mal, não é? E ninguém sofre mais com eles que os traumatizados. Uma febre em criança. Sempre tivemos cães, e o Alentejo, quente como tu sabes… Vai daí que… Por pouco que não me apaguei, disse o Doutor Juvenal Seixas à minha mãe
o meu pai na Suiça
e estas coisas, tu sabes, marcam uma pessoa para a vida toda.
Mas agora, importância alguma. Contigo aí, vista do bengaleiro
na confusão dos tachos
nenhum segredos para ti…
Estavas calada e calada ficaste logo a seguir ao
- Olá.
mecânico, como o beijo que há muito já não damos. Não o demos um dia, por causa de uma discussão, e enquanto durou o amuo não o demos, e deve ter-se atrofiado a função. E depois, para retomar o hábito
complicado.
É sempre complicado retomar o hábito.
Devemos ter achado que estava tudo bem assim e o achá-lo criou um hábito novo, o hábito de não ser preciso dá-lo mais. Afinal vinte e dois anos de casamento e mais três de namoro dispensam formalidades e cerimónias. Não é assim?
Mas agora, que tu aí
no silêncio dos dias passados, contados pelo calendário do teu avental
1982
(aonde isso já vai!)
mas que ainda serve, tal como nós, numa recordação obstinada de dias felizes.
Pareceste-me bonita, como há muito não te via
e até as tuas pequenas imperfeições
agora
importância alguma
o olho vazado pelo acidente da fábrica, que te obrigava a olhar-me de lado, para me veres de frente e que sempre me irritou, como se tu
num olhar de esguelha, para me provocar
sem que algum dia me tenhas dito
- Não entendes que é por causa da vista, Samuel?
ou a verruga no pescoço que
por pouco que não me apaguei; o Doutor Juvenal Seixas; minha mãe, quente como tu sabes; o Alentejo, o meu pai na Suiça… vai daí que traumas. Não por mal, mas ninguém sofre mais com eles que uma criança. E estas coisas, tu sabes, marcam uma pessoa para a vida toda. Vai daí que talvez febre alguma, cão algum. Pensando bem, nem televisão, nem concursos; quaisquer aracnídeos traumatizados; e uma aranha não bem numa aranha: uma carraça apenas; uma outra forma de pôr as coisas, embora o nojo todo lá.
Mas agora
(aonde isso já vai!)
importância alguma
apenas tu
aí
vista do bengaleiro
bonita, como há muito não te via
na confusão dos tachos
nenhum segredos para ti
fazendo mil coisas ao mesmo tempo para que a vida não pare, como eu, às vezes, pela cidade, às voltas, para que taxímetro não pare, como se o coração parasse com ele.
Mil coisas ao mesmo tempo.
Sempre admirei essa capacidade em ti; a aptidão que te permitia fazer amor e bocejar ao mesmo tempo.
Agora
alguma coisa estava diferente em mim naquele dia
(a nossa música… Temos destas coisas, não temos?)
mas em ti tudo igual
confusão dos tachos
nenhum segredos para ti…
Nessa noite procurei-te, sem jeito. Não sabia bem como me chegar a ti…
Deve ter-se atrofiado a função. E depois
complicado
sempre complicado retomar o hábito.
Tapei-te os ombros, puxando o lençol
(não encontrei melhor desculpa).
Percebeste o gesto, disseste não ter frio
a voz a pedir um abraço
não importa de quem
um abraço
a luz apagada, um pouco de claridade pelas frinchas dos estores
o candeeiro da rua e espreitar indiscreto
um olho apenas
como vês, importância alguma
e eu uma perna sobre a tua
onde os pêlos
como ervas
crescidos pelo desmazelo do amor
pequenas imperfeições
importância alguma
juro que importância alguma
porque eu
ou melhor
a nossa música
Entendes?
É que…
há muito tempo… e…
apaixonei-me de novo
por ti.
Temos destas coisas, não temos?
Não te preocupes, vai tudo correr bem. Pensei dizer e não disse. Afinal vinte e dois anos de casamento e mais três de namoro dispensam formalidades e cerimónias. Não é assim? De modo que eu
outra perna agora
tu a dares o jeito, a aceitares-me o peso
estranho
no silêncio das palavra que vinte e dois anos de casamento e mais três de namoro
dispensam
à espera de um abraço que depois viria
(viria, sim)
de olhar fixo nas sombras do quarto, acordadas pelo o candeeiro da rua
indiscreto
um olho apenas
(para quê dois quando não há muito já que ver?)
vazia
como a orbita esquerda de ti
(talvez mais coisas vazias desse lado)
por causa do acidente da fábrica
Por que mais haveria de ser?
estando ali e não estando
tu
como olho cego
morto talvez
que os olhos já nascem dentro do caixão que os há-de sepultar
à espera de um abraço
não importa de quem
um abraço.
Presente envenenado
Sabíamos que não o devíamos. Mas sabê-lo não chegava para não o fazermos. Há muito que nos olhávamos com olhos de cobiça. Um homem e uma mulher que nunca se tocaram só se olham em silêncio por um motivo: o desejo de tocarem-se.
Eu sabia-o. E ela, por ser mulher, sabia-o, sentia-o e pressentia-o. A Mila não merecia que lho fizéssemos, e nós não merecíamos ficar por fazê-lo. É difícil julgar. Quem está por dentro julga por defeito e quem por fora, julga por excesso. Somos bichos, que podemos contra isso?
Eu sei que a Suzy era irmã dela, mas dessa parte não me cabia a mim a responsabilidade. A minha responsabilidade era para com a Mila, já nem digo para com a família, ou para com Deus, a quem prometi amá-la e respeita-la por toda a vida. Casámos pela igreja porque a Mila
- Oh, Válter, é o sonho da minha vida!
e porque o sonho
da vida dela
eu a prometer
- ... amar-te e respeitar-te…
Por isso, já nem digo para com Deus
ou para com a família que
nunca me gramou. Especialmente o doutor Silvério, aos olhos de quem eu tinha olhos de manequim, frios e baços. Embora lhe dissesse
(à filha)
- Tu é que sabes!
A Suzy ainda era uma miúda quando eu e a Mila encetámos o namoro, e nessa altura, os seus olhares, provocadores já, encarava-os como provocação de adolescente; afirmação da auto-estima, ou coisa que o valha. Mas quando fez dezoito anos
no exacto dia dos seus
dezoito anos
pareço ter reparado pela primeira vez nela. Como se agora já fosse permitido olhá-la
a filha mais nova do doutor Silvério
com os meus olhos de manequim, frios e baços
contemplá-la, e às formas que tinha, mais perfeitas que a irmã. Agora que
- És finalmente uma mulher.
no abraço orgulhoso que dona Silvana lhe dera por amor e orgulho de mãe.
Estremeci, quando, durante as palmas, deixou a sala às escuras com um sopro só e, de novo, ao acender das luzes, quando os seus olhos em mim, com um morder vela pedindo um desejo
para dois.
Um sopro só
e eu
como a sala
às escuras
dentro de mim, perdido na caverna vazia da culpa do meu desejo.
Morder de vela
dentes e lábios
um pouco de língua
- …finalmente uma mulher
completa
olhos em mim
que um homem e uma mulher que nunca se tocaram só se olham em silêncio por um motivo.
Mas não logo. Não. Um anos depois. Na véspera dos dezanove
mais mulher ainda
impossível de ignorar.
- O meu presente de aniversário. - sussurrou-me - O presente de todos os meus aniversários juntos.
Oh, Deus, como podes ser tão bom e tão cruel!? Como podes ser tão carrasco com a fraqueza de um homem, que sabes, porque sabes, que não será capaz de resistir a uma maçã, quanto mais a duas?
- O meu presente de aniversário.
Sabíamos que não o devíamos. Mas sabê-lo não chegava para
- Isto é uma loucura! - na minha voz trémula de desejo; a não conseguir evitar-lhe
o hálito açucarado
morder de vela
dentes e lábios
um pouco de língua
- …finalmente uma mulher.
a dizer-me num sopro só
- Eu sei que tu me queres.
e eu
como a sala
às escuras
dentro de mim, perdido no poço do inferno, que aquele calor não era
não podia ser
humano
a dizer
- Quero-te.
a repetir
- Quero-te, quero-te, quero-te…
num desespero de primeira vez, e a deixar-me ir, aos poucos, até à ruína de mim; a dar razão ao doutor Silvério, que nunca me gramou, nem aos meus olhos
de manequim, frios e baços
fechados agora
porque eu morto
de prazer e loucura
a querer dizer que não, mas a repetir
- Quero-te, quero-te, quero-te…
E porque eu já dominado, como um boi diante da muleta, a Suzy, num passo de matador, cruel, a perguntar-me diante dos cornos, em cuecas apenas
- Continuamos?
sabendo-me sem forças para resistir à morte
perdido do juízo, delirante de febre
implorando
- Sim, sim, sim…
de modo que ela, desfazendo-se da última peça
um trapinho de nada
fixando-me o olhar nos olhos de manequim, frios e baços, a devolver-me com a voz do pai, numa estocada final
- Tu é que sabes!
Friday, April 25, 2008
O defeito de ser canhoto
Não sei que horas eram. Era de noite, mais nada. Estava um frio de morte e Janeiro parecia que estava do lado deles. Acordaram-me à bruta e levaram-me para o pátio. Um pátio pequeno, um asilo de loucos para o vento, que não parava quieto de um lado para o outro.
Tiraram-me roupa
um cachaço no pescoço
- Que é para abrires a pestana!
Era hora do suplício. Não sei que horas eram
de noite mais nada
um frio de morte
Janeiro do lado deles
pátio
vento
arrepios e medo
um balde de água gelada pela alma abaixo e
- Como é que é meu rouxinol? Vais cantar ou não?
Tremer, tremer, tremer
medo e frio e morte e vento e Janeiro do lado deles.
Preso há três, quatro dias
(um homem acaba por perder-se do tempo)
e ainda mal tinha pregado olho.
Não sei que horas eram; quanto tempo dormi. Se calhar o tempo apenas de fechar os olhos e o guarda
- Upa, upa, que já é dia!
- Quem mais é que está metido nisto?
Tremer, tremer, tremer
medo e frio e morte e vento e Janeiro do lado deles
e uma bota na pontinha dos pés descalços a arrancarem-me uma confissão de dor.
- Quem mais é que está metido nisto? À terceira respondes sem dentes.
- Não sei. Não sei de nada. Juro que não sei de nada.
nem que horas eram nem a quantos estávamos
perdido, mas tão perdido
e nova pisadela nos pés a poupar-me os dentes por mais um pouco.
- Sete.
a lembrar-me por fim. O cansaço tolda-nos a memória; baralha-nos as noções
- Quê?
- Sete. Estávamos sete.
- Quem eram os outros seis?
- Não sei. Juro que não sei.
Mas um homem, entretanto, acaba por se lembrar. Um homem acaba sempre por se lembrar. Só depende da forma como a pergunta é feita e de quem a faz. Um homem que sabe acaba sempre por responder, mais cedo ou mais tarde
Sempre por responder
Por se ir abaixo
por fraquejar
não é bem fraqueza
é instinto.
Muito aguenta ele!
… há três, quatro dias
(um homem acaba por perder-se do tempo)
a tremer de frio e medo e medo e medo
um homem acaba por se ir abaixo
não é bem fraqueza
depende da forma como a pergunta é feita
eles sabem disso
eles sabem de tudo, muito antes de nós
mas é um desporto como outro qualquer
como o professor Romão, da primeira à quarta classe
- Estica a mão.
para me corrigir a deficiência congénita de ser canhoto.
- Já te avisei que não é com essa mão que se escreve. Hás-de aprender, nem que ta tenha de arrancar.
ciente de que, mais cedo ou mais tarde, haveria de mudar de mão, pois
- A esquerda não serve nem para limpar o rabo!
De modo que também eles
à força de porrada haveriam de corrigir-me o defeito
problema antigo
já o professor Romão
- Cem vezes na ardósia.
…direita, direita, direita, direita…
eu a explicar-lhes
Não é por mal, senhores, nasci assim, que posso fazer. Não se bate nos deficientes.
- Qual deficiência, minha senhora!
o professor Romão para a minha mãe, com pena de mim e da minha mão inchada, mas
- Já nasceu com ele. - minha mãe a argumentar. - Não é por mal. Que quer o senhor professor? Há-de agora castigar-se o rapaz por isso. Não escreve Deus por linhas tortas, também? Porque não poderá ele escrever com a mão canhota que é a mais direita que tem e, justiça se lhe faça, senhor professor, caligrafa melhor que muita direita que para aí há. Não sou eu quem o diz, é o senhor Marcelino.
…
- O da mercearia. - a minha mãe a descuidar-se sem querer, a fazer a cama ao merceeiro, coitado, que não o dizia por mal.
…
Mas há que Deus que é assim! O que pode uma mãe fazer?! O senhor professor é que sabe. Eu não conheço uma letra nem do tamanho de um comboio. Mentira, conheço três
Ana
A minha pobre mãe, até nisso ingénua. Conhecia apenas duas. Duas letritas apenas e tinha o nome escrito, igual da direita para a esquerda e da esquerda para a direita.
Ainda expliquei isso, mas os senhores
que quem está acima de nós é senhor
ou Senhor
a não quererem explicações
nomes apenas
de modo que eu
Rui Gomes; Guilherme Pato; Rosa Fusca; Patrocínio Almeida; João Bolhas e Fernando Lopes.
Um homem acaba sempre por se lembrar. Só depende da forma como a pergunta é feita e de quem a faz. Um homem que sabe acaba sempre por responder, mais cedo ou mais tarde
não é bem fraqueza
é instinto.