Monday, April 23, 2007

um anjo

Não havia bicho naquela santa casa de que se apiedassem as mãos da dona Irene. Pombos, galinhas, patos - os mais tramados de depenar - coelhos, perus, enfim, o que houvesse de comer. Marchava tudo a eito ainda que lhe ouvisse dizer, não poucas as vezes

- Eu tenho muita pena, mas o que é que eu hei-de fazer!? Não os comemos vivos!

E realmente isso era uma verdade.

De tudo

- …tenho muita pena…

mas o que haveria de fazer!? Não os comíamos vivos!

- …muita pena…

mas de nada mais do que dos gatos.

Felizmente, ou num dizer mais católico, graças a Deus - que serão com certeza duas formas de dizer o mesmo, por isso -

felizmente

naquela casa nunca faltaram animais, principalmente gatos. Não me lembro de um único dia sem um miado. Mas sempre que nascia mais um, que nunca era mais um, lá ia a piedosa da dona Irene

- Tonito, filho, tenho ali um trabalhinho para ti.

E o Tonito já sabia do que se tratava.

Tonito era um miúdo, também, um pouco mais velho que eu e, por isso, para mim, adulto já. Vivia numa casa quase em frente à nossa e era a ele a quem a minha avó dava cinco escudos, naquela altura, para a aliviar da tortura de se ver livre daquelas pequenas criaturas, das quais

- …muita pena…

Ficava sempre um para tirar o leite à gata

- Tadinha!

para que não encaroçasse e ganhasse febre.

- Tadinha!

Pelo menos um. E nem sequer ela a escolhê-lo. Normalmente um macho, que as fêmeas (como na Índia; na China) ninguém as quer, e apesar de não haver dote ao barulho, um macho, na pior das hipóteses, havia apenas que se lhe dar de comer e umas vassouradas quando marcasse o território junto à porta de casa . Já que nenhuma vizinha se haveria de queixar

- Ó vizinha Irene, olhe que o seu gato andou lá por casa a fazer das suas!

Já que nenhuma vizinha…

- E agora, como é que é?

Punha-os num saco, num berreiro cego, que ainda eram criaturas de um dia ou dois, e lá ia ele, com os cinco dinheiros no bolso.

Sentia que ele era o máximo, pois fazia, para a idade que tinha, uma tarefa que a minha própria avó não era capaz de fazer. Ela que era uma mulher de mãos impiedosas no que tocava a pombos, galinhas, patos - os mais tramados de depenar - coelhos, perus, enfim, o que houvesse de comer.

E eu a achá-lo corajoso porque matava gatos e eu um cobarde porque, o olhar de esguelha, sempre que a dona Irene a caminho do poço com uma galinha numa mão e uma tigela e uma faca na outra.

- Eu tenho muita pena… Não os comemos vivos!

e daí a nada, a regressar do patíbulo, onde à sombra de uma macieira tinha apartado a galinha para um lado e a vida para o outro.

Eu um cobarde, com vontade de me lançar ao pescoço do Tonito, ou aos pés, esbofeteá-lo ou implorar-lhe que não matasse os gatinhos, que ninguém precisava de saber de nada

- … um segredo só da gente!

Levar a gata para longe, com os filhotes todos. Um final feliz para uma história tão simples. Que partiria o meu porquinho e lhe dava dez escudo para o resgate

- …quinze

- …tudo o que tiver

mas a não dizer nada. A ficar-me pela vontade estéril de um gesto apenas; a ir com ele, a vê-lo abrir um buraco onde os haveria de…

a pedir-lhe

não que os não matasse. Não que se apiedasse daquelas pobres criaturas, mas a

- Deixa-me experimentar.

e a deixar cair um gatinho dentro do buraco, a querer matá-lo com cuidado; a não querer magoá-lo; a não querer sentir-me culpado. O gatinho num miado aflito, como se a mãe o tivesse deixado cair de cima de um precipício, numa aflição cega

que ainda eram criaturas de um dia ou dois

enquanto o Tonito a tirar-me o saco das mão assassinas, com os cinco dinheiros no bolso, num

- Não é assim que se matam os gatos, pá!

numa repreensão de mestre verdugo.

- Não é assim…

como se eu um perfeito imbecil. Um perfeito imbecil.

e a chapar um de encontro ao fundo da cova num silêncio cego.

que ainda eram criaturas de um dia ou dois

numa execução perfeita. Enquanto eu de olhos nas mãos para não ver. Como quando a minha avó a caminho do poço com uma galinha numa mão e uma tigela e uma faca na outra. De olhos nas mãos, para não estar presente, para não ser culpado, a caminho de casa, com aquela imagem a correr nos meus calcanhares e a acordar de noite com num miado aflito, como se a mãe o tivesse deixado cair à porta do quarto, dos sonhos, não para se vingar, que os gatinhos mortos não são vingativos.

Eu um fraco, um cobarde, debaixo das mantas, de mãos nos ouvidos para não estar presente, para não ser culpado, sem uma única moeda, um único

- Obrigada, joinha! És um anjo.

embora os anjos, tanto quanto sei, não matam gatos por cinco dinheiros.

Tuesday, March 20, 2007

Não se passa nada!

Os beijos do Edgar já não me sabiam ao mesmo. Não sei a que sabe o mesmo, mas já não sabiam. Sabiam a frango guisado, a cerveja, a café, a tabaco, a tudo quanto se lhe entranhava no bigode amarelado pelo tempo que se esfumou juntamente com os seus cigarros e a minha memória do “mesmo”. E mesmo o nome, ao qual achava tanta graça, começou-me a soar profundamente ridículo. Edgar!?

Edgar

Edgar

Ednghar

Deixou de me dar atenção. Queixume típico de mulher, podem dizê-lo. Mas eu sou uma mulher típica, e, por isso

“Deixou de me dar atenção.”

Queria atenção, sim. Queria que me perguntasse uma, duas, mil vezes

- O que tens, amor?

ainda que eu

Uma, duas, mil vezes

- Não tenho nada!

no lugar de

- Quéqse passa?

num sopro de enfado, num desejo ansioso de

- Não se passa nada!

para não ter de reperguntar.

E eu a fazer-lhe a vontade

- Não se passa nada!

que uma mulher casada já devia saber que à primeira

- Quéqse passa?

é logo para dizer aquilo que a aflige, para não castigar o fígado.

- Faz hoje quinze anos que nos conhecemos e tu nem a amabilidade de um beijo tiveste para comigo!

À primeira é logo

- Faz hoje quinze anos…

em vez de

- Sabes que dia é hoje?

ou

- O que é que se passa, Edgar?

À primeira é logo

- Não valho nada para ti, é o que é!

e não

- Não se passa nada!

Apenas quinze anos que nos conhecemos. Não que casámos, conhecemos apenas, e por isso não tão importante, talvez. A não ser para mim… bláblá, bláblá, bláblá…

Assim

- Não se passa nada!

a afundar-me no sofá, cada vez mais rendido ao meu peso de mulher frustrada.

Deixou de me dar atenção. Queixume típico de mulher, podem dizê-lo. Mas eu… mas eu também me tinha deixado de dar atenção. Como não haveria ele de fazer o mesmo?

- Não se passa nada!

Nada!

Nada!

Às vezes um pé, quando lá calhava, a tropeçar no lençol de neve e a cair em cima dos meus, num

- Estão gelados!

como se

- Perdão!

o mesmo que

- Chega-te para aqui, não sejas tola! De quem é que eu havia de gostar, ãh?!

e eu a chegar-me

- …para aqui…

a não ser

- …tola!

mas duas coxas de frango mastigadas debaixo de um bigode amarelado, que escondia a boca

de enfado

do Edgar

porque quando o amor, quer dizer, a atenção, acaba, desaparecem os lábios, a língua, sobra apenas a boca

de enfado

onde os beijos já não sabem ao mesmo, mesmo que não saibamos já a que costumavam saber.

Além disso

- Não se passa nada!

Nada!

Nada!

Não se passa rigorosamente nada!

- Não se passa nada, como assim? - um colega de trabalho.

- Não se passa nada!

- Que não queiras falar é uma coisa, agora que se passa, passa!

- Coisas minhas! - a amolecer. Um biscoito de manteiga no vapor do chá.

- Se quiseres falar, sabes que tens aqui um amigo.

E eu que não sabia que tinha ali um amigo a acabar por falar. Não logo, não no dia seguinte

um biscoito de manteiga

típico de mulher, podem dizê-lo. Mas eu sou uma mulher típica, e, por isso

não logo, não no dia seguinte, mas na semana seguinte

no vapor do chá

aceitando um convite para um café.

- Uma desculpa curta.

que se ouviu

- Uma bica curta.

E os meus problemas a dissolverem-se na volta da colher. E o meu colega, Alexandre, pronto,

a absorvê-los

a recordar-me a diferença entre o café doce e café amargo. Não entre o gosto ao mesmo que tinham os beijos, não. Café apenas

na volta da colher

a absorvê-los

os meus problemas

a absorver-me

a mim

na volta da colher

até que aos poucos fui saindo de casa. Primeiro um pensamento, depois um batom, um perfume novo. A seguir uma saia comprida com as cores da moda, que a Madalena achava que me favorecia o rabo

(que vergonha, meu Deus!)

depois um corte de cabelo que o Ednghar nem se dava ao trabalho de comentar, ainda que talvez tivesse reparado, se reparasse em mim.

Talvez na noite em que

- Perdão!

se um pé… calhava… tropeçar no lençol de neve e a cair em cima dos meus -… gelados!

e a luz da mesinha de cabeceira ainda acesa quando

- Chega-te para aqui, não sejas tola! De quem é que eu havia de gostar, ãh?!

Mas nada. Rigorosamente nada!

Recuso-me a acreditar que os homens não reparem nestas coisas, da mesma forma que não reparam no pacote da manteiga atrás do tupperware do fiambre a meio do frigorífico. Recuso-me a acreditar que os homens não reparem nestas coisas, pois o meu colega

Alexandre, pronto

- Pintaste o cabelo!? - a acrescentar - Ficam-te bem as madeixas!

na volta da colher.

Recuso-me a acreditar que os homens todos

- Quéqse passa?

para saberem realmente aquilo “qse” passa.

Como dizia,

aos poucos

para casa dele

Alexandre, pronto.

Primeiro um pensamento, depois

batom

perfume

saia,

aos poucos.

Até ao dia em que o sofá

não o Ednghar

o sofá, juro que o sofá

- Quéqse passa?

a indagar a minha sombra que

nem ai, nem ui.

Aos poucos,

para casa dele,

Alexandre, pronto.

Até ao dia em que também ele a deixar de me dar atenção, também ele a perguntar

- Quéqse passa?

num sopro de enfado

e eu

de novo

- Não se passa nada!

Sunday, March 18, 2007

Em mim ninguém manda

- Estive na guerra, em mim ninguém manda! - e acrescentava - Só o sargento Gomes, se fosse vivo, por isso…

entendesse-se

- …ninguém manda!

entendesse-se

- …ninguém…

entendesse-se

- …andor!

e lá seguia, às arrecuas na cadeira, praça afora, com uma garrafa de vinho por companhia; não um cão, que os cães não adormecem as dores, não toldam as vergonhas, as frustrações

os cães são para quem tem medo e

- Não tenho medo de ninguém!

por isso

uma garrafa de vinho.

Por ali passava os dias e as noites, dormindo sentado, quando não caía da cadeira a baixo. Cadeira que por sorte, um peditório dos bombeiros, a generosidade de muita gente

pelo homem

(meio homem, para ser mais exacto)

que se arrasta

coitado

pelas ruas, porque as pernas morreram em África e por lá ficaram.

Será que alguém lhes punha flores?

Afinal, era quase metade de um homem morto! Se fosse a outra metade, com certeza que uma flor ou outra.

Nem que apenas a vinte e cinco do quarto!

Mas um homem só é homem das coxas para cima.

- O senhor não pode estar aqui a perturbar a ordem pública. - um agente da polícia a chamá-lo à atenção. Um agente da polícia que desconhecia que

- …em mim ninguém manda!

um agente da polícia, não o sargento Gomes, que esse, ficou por completo para os lados do Huambo, junto com umas pernas dormentes, e por isso

- …ninguém…

- Já lhe disse, que não pode… - o agente a repetir o dito, sem compreender que

- Estive na guerra, em mim ninguém manda!

e além do mais

- …medo de ninguém!

Não se vê logo…

…uma garrafa em vez de um cão?

Por isso

- … andor!

E o agente, um fedelho ainda a borrar a fralda quando a mina

Bum

e metade de um homem para cada lado.

Devem ter começado a gatinhar mais ou menos na mesma altura: uns trinta anos, mais ou menos. Visto que a cara o agente não mais do que isso e, no braço do combatente

(porque um dia combatente, combatente a vida toda. Principalmente meio homem como ele; um combate diário contra a invisibilidade de si mesmo)

e,

no braço do combatente

Angola 13/8/73

Por vezes devia acreditar que tinha as pernas. Que estava completo. Em sonhos a correr; quem sabe a andar sobre as águas. Porque as pernas, uma questão de fé, e Deus um par de pernas amputadas, gritando

- Presente!

ainda que não se Veja, não se Sinta, não nos Leve a lado nenhum.

Se calhar podia andar. Se ousasse, se se levantasse como Lázaro. Mais fácil até, pois morto apenas das coxas para baixo. E se tivesse muita fé. Talvez lhe nascessem pernas novas

melhores que as que deixou em África, sem cruz nem flores.

Não é o que acontece a quem acredita mesmo muito em Deus?

Mas nele ninguém mandava, e Deus não era o sargento Gomes, ainda que não estivesse de melhor saúde.

E lá foi

porque lhe deu na bolha

não porque causa do agente

às arrecuas, pela praça afora, com uma garrafa de vinho por companhia

não um cão, que os cães não adormecem as dores, não… as vergonhas… frustrações

pela praça afora

até à escadaria do teatro, onde um grito de raiva o pôs “de pé”, sobre os cotos (o fim de si mesmo), com a garrafa de vinho

não um cão

a garrafa de vinho, uma G3 apontada a um grupo de homens, a disparar com raiva

- Pretos dum cabrão! Acabo-vos com a raça!

e

RATATATA

pela goela a baixo, numa rajada sentida, num suicídio lento, de um homem que tinha morrido junto das suas pernas, mas a quem se recusaram enterrar porque ainda parecia vivo

ou não teriam dito

- Amanhã segues para Portugal.

e as lágrimas a rasgarem-lhe o rosto, como silvas do mato, pois alguém tinha de chorar por si; fazer o luto.

RATATATA

e não era preciso muito para o coma voltar. Meio homem embebeda-se muito mais facilmente, com a vantagem de já não lhe voltarem a faltar as pernas.

RATATATA

até ao fim das munições.

Mas o grupo de homens a sobreviver. Nenhum ferimento (pelo menos visível), apesar de

- Pretos dum Cabrão!

e as munições no fim; o soldado desarmado, apenas uma granada de mão contra o chão de calçada, ou de terra batida.

Bum

E mil estilhaços de vidro com odor a vinho ou a pólvora

não a cão

que os cães não adormecem as dores, não toldam as vergonhas, as frustrações, logo

a vinho

que esse sim, mata um homem por inteiro; ao contrário da pólvora, apenas pela metade.

A vinho

invisível

como as pernas de um homem

(meio homem, para ser mais exacto)

que não temia a morte, os agentes da polícia, a voz de Deus ou os pretos do teatro.

- Só o sargento Gomes, se fosse vivo…

Tuesday, February 20, 2007

a bondade de me auxiliar

- A sua esmola, por favor! Tenha a bondade de me auxiliar com a sua esmola, por favor!

e um encolher agitado ao longo da carruagem ante a voz cega que

- A sua esmola, por favor!

um baixar de olhos, disfarçando a presença, não fosse o cego dar por eles. Não que não fossem bondosos, mas nem sempre podiam ter

- … a bondade de…auxiliar…

Eu vinha de casa do David e trazia a derrota do mundo aos ombros. A voz do cego nos meus ouvidos era uma melopeia distante que se misturava com a minha dor de cabeça em variações de intensidade. Não me encolhi. Já estava encolhida.

Não por causa da voz

- A sua esmola, por favor!

mas porque

de casa do David

não porque

- Tenha a bondade de me auxiliar…

mas porque

a derrota do mundo aos ombros.

Já estava encolhida. O meu corpo, naquele momento, dez números acima de mim, como o vestido verde da mamã que eu adorava. Por isso

Não me encolhi.

Pouco me importava que o cego me visse com a ponta do bastão. Pouco me importava que os encolhidos… o que quer que fosse. Pouco me importava qualquer coisa depois do David

- Arrefeceu, Anita!

depois do David

- Já não sinto o que sentia, Anita.

com o meu nome em rimas constantes, verso após verso, num poema de desamor perfeito; na voz declamatória do David

- É melhor ficarmos por aqui, Anita.

decidindo pelos dois

apesar de eu

- A sua esmola, por favor!

o David

- Por favor, não insistas, Anita!

e eu

ou o cego

baralho-me já

- Tenha a bondade de me auxiliar com a sua esmola, por favor!

- Não insista, senhor! - dito num encolher de corpos

- Não vê que está a incomodar toda a gente?

E claro que não via

claro que não via que

- Não vês…

claro que não via que

- … não dá mais, Anita!

No banco em frente ao meu, uma senhora dilatada, usurpava quase todo o espaço do assento de um homenzinho enfezado, quase invisível, que se se encolhesse ao toque do cornetim

- A sua esmola, por favor!

desaparecia por completo da superfície da Terra. Aquele não havia o bastão de encontrar. A senhora encolhera-se o quanto podia, mas porque não podia encolher-se mais, meteu a mão à carteira, num catar de moedas

a voz do cego cada ver mais próxima

- A sua esmola, por favor!

numa ameaça de sargento que passa revista à formatura

- Tenha a bondade de me auxiliar com a sua esmola, por favor!

cada vez mais próxima

não por bondade

mas porque não podia encolher-se mais

esconder-se do bastão

cada vez mais próximo

- …por favor!

e as moedas aflitas, num vasculhar de dedos, encolhendo-se aos cantos da carteira, baixando os olhos, disfarçando a presença

as pequenas apenas, que as grandes a nunca serem chamadas para a linha da frente

que as grandes

- É melhor ficarmos por aqui…

- …Anita.

uma moeda a responder por mim ao chamado

- …Anita.

a rima forçada num poema de desamor

perfeito

- …Anita.

- … sua esmola, por favor!

- David!

- …não insistas…

- Mas, David…

- Não vê que está a incomodar toda a gente?

- Não me trates por você, David, porra!

- Não vê…toda a gente?

e claro que não via

- … toda a gente…

como as moedas, aos cantos da carteira

- Vai tu.

- Vai à merda, David!

(as pequenas apenas…)

num vasculhar de dedos

cinco bastões grossos, de um lado para o outro

- Tenha a bondade…, por favor!

cinco bastões

pouca chance de escapar

porque a senhora não podia encolher-se mais

porque a voz

- …a sua esmola, por favor!

porque o bastão

na sua perna dilatada

toc toc

ou lá como fazem os clarins para a formatura

toc toc

- …a sua esmola…

num contrariar de dedos rumo a uma caixinha sinistra

toc toc

ou lá como fazem as moedas

(as pequenas apenas…)

(…que as grandes…)

- É melhor ficarmos por aqui…

e um “bem-haja!”, repetido, completamente às escuras, mecânico, como um

toc toc

afastando-se

toc toc

num desprender de respirações, num desencolher de corpos. Porque o toc toc

um, dois, três, macaquinho do chinês, a diluir-se na imensidão de sons, completamente às escuras.

Não me desencolhi.

Ainda que quisesse…

Não me desencolhi.

O meu corpo…, dez números acima, como o vestido verde… que eu adorava.

Pouco me importava que o cego… que os encolhidos… o que quer que fosse. Pouco me importava qualquer coisa depois de

- A sua esmola, por favor!

depois de

- Não insistas, Anita!

Corta!

Quando a minha mãe caiu à cama, foi como se de repente uma tesoura gelada cortasse a fita de cinema, a mim por dentro, aos pedacinhos, deixando por ali o filme da minha vida. O que será que se iria passar depois do cavalheiro de chapéu, para a menina de óculos grossos

- Queres casar comigo, Dina?

O que será que se iria passar se a tesoura gelada

a trombose

não AVC

como os médicos a quererem-me convencer

- Um AVC.

não tivesse cortado a fita de cinema, a mim por dentro, aos pedacinhos? Será que

- Queres casar comigo, Dina?

em vez de

- Dina!

- Sim, mãe, já vou.

num destino impossível de despistar.

Nós as duas ali sozinhas. Que é como quem diz, eu ali sozinha, porque a minha mãe

- Se não fosse a filha… Coitadinha da Idalina! - as vizinha a dizê-lo, não eu

tinha-me a mim, por companhia.

Portanto, eu ali sozinha, que os meus irmãos, dois, Estados Unidos e Canadá, nunca foram muito apegados à família, principalmente depois do papá

- Sim, aceito.

pela segunda vez, e a minha mãe, de ventre ovalado, a dar-me à luz onze meses depois.

… nós as duas ali sozinhas…

desde sempre

…ali sozinhas…

dado o papá para Setúbal a semana toda e os meus irmãos a caminho da América com uma tia que haveria de fazer deles uns homens.

Nunca os vi. E tinha visto. Mas era como se não

porque apenas cinco anos

e ainda pouco espaço na memória

uma única vez,

apenas cinco anos

poucos dias depois da minha mãe

- Ai, valha-me Nossa Senhora!

ante a notícia da queda de um andaime para as bandas de Setúbal.

- … Coitadinha da Idalina!

e eles logo a regressarem

num relâmpago

aos Estados Unidos (na altura apenas Estados Unidos), com a que estava a fazer deles uns homens.

e

porque num relâmpago

não posso dizer que os vi

portanto

Nunca os vi. E tinha visto.

De novo sozinhas

até ao dia em que

eu … sozinha, porque a minha mãe

- … Se não fosse a filha…

uma tesoura gelada

de repente

a cortar a fita de cinema, a mim por dentro, aos pedacinhos e

por ali o filme da minha vida.

… será que… o cavalheiro de chapéu

- Queres casar comigo, Dina?

e a menina de óculos grossos

- Dina!

- Sim, mãe, já vou.

Será que

- Queres?

se a tesoura gelada

(a trombose

não AVC

como os médicos a quererem-me convencer

- Um AVC.

E eu a saber que AVC nenhum

trombose, isso sim, que AVC é doença de ricos, e nós nem ricos nem cá de modas.)

não tivesse cortado a fita de cinema, a mim por dentro, aos pedacinhos?

Será que

o cavalhe iro de chapéu… a menina de óculos grossos

- …Dina?

- Sim…

(e apenas isto. Apenas esta parte. Por favor, apenas mais um bocadinho de fita. Por amor de Deus, só mais dois segundos, esta quase naquela parte. Por favor, por favor!)

Mas a tesoura impiedosa, surda aos meus rogos

porque a trombose

AVC nenhum

que isto é doença a sério, não de plástico, de faz de conta, de vamos brincar aos médicos

- Então diga lá, o que tem a sua boneca?

- Não sei doutora, está paradinha de um lado e quase não se consegue mexer.

- Hum, estou a ver. Um AVC, portanto!

Para o Diabo mais o AVC

porque uma trombose

porque só as tromboses, como as tesouras surdas ao rogos das meninas de óculos grossos

Zás

Sem qualquer aviso

como os andaimes para as bandas de Setúbal, folhas de Outono

e a minha mãe boneca alguma

faz de conta algum

uma trombose, que isso sim é doença de gente. De gente velha. Setenta e oito, quase oitenta. E digo isto porque, raiva da doença, não da minha mãe, da doença, porque uma coisa que deixa uma pessoa assim, que corta a fita de cinema, a mim por dentro, não pode chamar-se simplesmente AVC. Tem de ter um nome à séria, de criminoso sem escrúpulos: trombose, tuberculose, tremor de terra como

- Dina!

na voz arruinada da dona Idalina

não de uma boneca

- Dina!

- Sim, mãe, já vou.

Wednesday, February 14, 2007

Não éramos muitos

Esta tarde morreu o Emídio. Não esta tarde, há três tardes. Mas parece que enquanto uma pessoa não for coberta pelo chão não está verdadeiramente morta. Que apesar dos médicos

- Lamento muito!

lamentarem sempre muito

enquanto a cova não estiver rasa de terra, o portão do cemitério nas nossas costas a caminho de casa, sempre uma esperançazita. Os milagres acontecem, não é?

portanto

- … esta tarde… o Emídio.

porque a filha

- A minha Laurinha…

a sua Laurinha

no Luxemburgo e impossível uma viagem para anteontem, para ontem

- Impossível uma viagem para hoje.

a sua Laurinha

- Só depois de amanhã.

por isso o Emílio apenas a dormir, não morto, porque morto somente quando a cova rasa de terra e o portão do cemitério nas nossas costas a caminho de casa.

Estava bonito. Sempre foi um tipo bem apresentado. De todos

não éramos muitos

(não contando com ele):

o Armando

o Libério

eu e o Sousa

(o único que tratámos sempre pelo apelido, não me perguntem porquê)

de todos

sempre o mais arranjadinho. Penteadinho, cheirosozinho, barbeadinho; impecável. Tinha as mulheres que queria. Ou teria, se as quisesse, se não embicasse apenas para a Olga, que diante de Deus (das famílias e de nós todos)

não éramos muitos

- Prometo…

para toda a vida e, quando a filha, dois aninhos apenas, entrou num carro (disse quem a viu, não falo do que não sei) com um finório de brilhantina e, até hoje… chapéu.

de modos que criou a filha sozinho até à idade em que

a sua Laurinha

num carro

(disse quem a viu, não falo…)

com um finório de gelo (ou lá como se chama a brilhantina de hoje), para só dar notícias dois meses depois

- Preciso de dinheiro, pai, estou no Luxemburgo.

e o Emídio, que já andava nas últimas, a rejuvenescer. Nem um raspanete, uma descompostura, uma reprimenda

nada

apenas

- Mas estás bem filha?

- Preciso de dinheiro, pai…

e o Emílio, que já andava nas últimas, a mandar-lhe quanto pedira, feliz por a filha

- …pai…

viva

apenas a precisar de dinheiro

porque

- …no Luxemburgo.

a voltar à forma, ao aprumo, ao gosto pela vida. A ensinar-nos a nós

não éramos muitos

(não contando com ele):

o Armando

o Libério

eu e o Sousa

(o único que tratámos sempre pelo apelido…)

como se enfrentam problemas.

as mulheres que queria… se as quisesse, se não embicasse apenas para a Olga, que

quando a filha, dois aninhos apenas… num carro (disse quem a viu… não sei)… e, até hoje… chapéu.

Estava bonito. Num fatinho todo catita. Talvez mandado fazer para a ocasião, pois nunca lho vi. Sempre muito zeloso com o aspecto. Estava bonito. Arranjadinho, penteadinho, cheirosozinho, barbeadinho, impecável. Ainda agora haveria de ter as mulheres que quisesse, se quisesse, se não embicasse apenas para a Olga, que sabe Deus onde o Diabo a esconde.

- Impossível uma viagem para hoje.

- Só depois de amanhã.

- Só depois de amanhã.

Só depois de depois de amanhã.

e a morte a perder a paciência e a aprofundar o sono ao Emílio, que até aí

apenas a dormir

a obrigar as autoridades a baixar-lhe por fim o corpo à terra, dado que

- Só depois de amanhã.

ou

depois de depois de amanhã.

e o Emídio a aceitar, resignado, porque

- …os aviões. Coitadinha!

ou algo que o valha

porque a sua Laurinha

- A minha Laurinha… Coitadinha!

sempre coitadinha

por isso

a encolher os ombros, resignado, não para facilitar o enterro, resignado, morto por fim, porque a cova rasa e o portão nas minhas costas a caminho de casa, triste, sozinho, visto que

não éramos muitos

(não contando com ele):

o Armando

o Libério

o Sousa.

Nenhum assistiu ao funeral. Não porque

- Impossível uma viagem para hoje.

- Só depois de amanhã.

- …os aviões. Coitadinhos!

mas porque não podemos assistir ao funeral de quem assiste ao nosso. A morte não é um casamento. O mesmo já não se pode dizer do contrário, dado que

diante de Deus (das famílias e de nós todos)

não éramos muitos

- Prometo…

para toda a vida e… dois aninhos apenas… num carro (disse quem… viu…)… e, até hoje… chapéu.

Mas dizia

a caminho de casa, com o portão nas minhas costas e um cão invisível a farejar-me as botas, a contar-me os passos

oitenta e nove mil e vinte e quatro

oitenta e nove mil e vinte e três

à espera que eu um fato novo

porque um fatinho faz toda a diferença. Não que não nos leve se um fato velho, mas um olhar de lado, um faz de conta que não te posso atender já, um esperar na fila da entrada, porque o céu uma repartição pública e a senha de chegada apenas uma formalidade.

oitenta e nove mil e catorze

e eu a alargar o passo, para não ter de dar tantos, em direcção ao alfaiate, não a casa

porque um fatinho faz toda a diferença e por mim não se há-de esperar muito que um filho em Alverca e outro no Pragal.

em direcção ao alfaiate

oitenta e oito mil e noventa e dois

oitenta e oito mil e noventa e um…