Sunday, November 16, 2008

Olha o passarinho

- Está ali um pente e um espelho se quiser dar um jeitinho ao cabelo.

o fotógrafo…

corrijo

o retratista

(camisinha às flores)

a indicar-me com o dedo

(acusador)

como que a obrigar-me, ou à vergonha em mim, a dar

- … um jeitinho ao cabelo.

que

de cabelo no ar

(embora o não dissesse)

lhe estragava arte

que os fotógrafos

corrijo

os retratistas

crêem-se uns artistas

por isso

- Está ali um pente e um espelho…

(se quiser)

na ponta do dedo

(acusador)

- …um pente e um espelho…

(só se quiser, está claro)

na subtileza da comunicação, a ouvir-se

- Que de cabelo no ar estraga-me a arte.

ou

- Depois não se venha cá queixar que ficou com cara de porco-espinho!

e tudo isto no bouquet paralinguístico de

- Está ali um pente e um espelho se quiser dar um jeitinho ao cabelo.

De modo que eu

dois passinhos para o toucador

(no silêncio dos obedientes)

onde

- … um pente e um espelho…

e o meu reflexo, contrariado, à espera de mim para

- …um jeitinho ao cabelo.

O pente

bidimensional

dentes finos, dentes grossos

deitado sobre o naperon

de olhos baixos, nu, envergonhado

cheio de cabelos e caspa

a pedir-me desculpa

(prostituta entre dois fretes sem tempo de passar pelo bidé)

no embaraço próprio dos objectos sujos

conforme um espelho reflectindo o dono.

E eu a estender-lhe a mão

embaraçado por embaraçá-lo, a fingir que

nojo nenhum, importância alguma

(Coitado, não tinha culpa. Tinha era caspa, com cabelo, como muita gente!)

a pegar nele

e o pente

retraído

a mudar de cor

embaraçado

não obstante eu

- Tem de ser amigo.

a levá-lo à cabeça num gesto só

a fingir que

nojo algum, nenhuma importância

apesar das voltas do estômago

como se o pente uma garfada de mioleira pela goela abaixo, provocando-me arrancos de vómito, contracções na cárdia.

E nisto

um risco ao meio, perfeitinho, porque o cabelo a afastar-se sozinho

de mãos na boca, contendo o vómito

como o mar vermelho

metade para cada lado

com nojo de Moisés

enquanto o fotógrafo

corrijo

o retratista

(calcinha vermelha)

faraó impiedoso

procurando lentes, olhos de Rá, a umbela, pequeno pálio contra a luz forte do deserto

(salinha a que chamam estúdio)

(…uns artistas)

à espera que eu acabasse de dar

- … um jeitinho ao cabelo.

E de volta à salinha

(a que chamam estúdio)

(jeitinho dado)

o dedo acusador apontado ao centro, ao banquinho de enroscar

desenroscar

de s’ enrascar

desenrascar

o banquinho

ao centro

diante de um painel de palmeiras, gaivotas e mar

onde eu

jeitinho dado

risquinho ao meio

a tomar lugar

direito

a julgar que

direito

pois o fotógrafo…

corrijo

o retratista

(sandalinha de couro)

a dizer

- Um pouco mais para a direita.

- Já foi demais.

- Para a esquerda agora.

Numa indecisão parlamentar

- Endireite a espinha.

E eu com vontade de lhe gritar

- Quem tem espinha são os peixes.

a endireitar a “espinha”

(no silêncio dos obedientes)

não como ele queria

que os artistas nunca estão satisfeitos

a aproximar-se de mim

camisinha às flores

calcinha vermelha

sandalinha de couro

a aproximar-se de mim com dois polvos de cinco tentáculos, colando-se-me à cabeça, fazendo força

- Assim.

e sem que eu me mexesse

- Não se mexa!

E eu com vontade de lhe gritar que não me tinha mexido, “maricas de merda”

camisinha de couro

calcinha às flores

sandalinha vermelha

que não me tinha mexido

com vontade de lhe gritar

- Quem tem espinha são os peixes.

A não me mexer

(no silêncio dos obedientes)

procurando evitar os tentáculos

perfumados

cheios de anéis e pêlos

paradoxo estético

e

apesar de não me mexer

um tentáculozinho a lamber-me o queixo

- Assim!

toquezinho de nada, importância das importâncias

que os artistas nunca estão satisfeitos

que os artistas

- Cuidado, que me estraga a arte!

que os artistas

- Depois não se venha cá queixar que ficou com cara de Mário Soares.

Um toquezinho de nada e

- Está bom. Não se mexa agora. Isso. Vá, agora um sorrisinho.

e eu com uma vontade de sorrir tão grande quanto de engolir uma caixa de pregos

a forçar as bochechas

(no silêncio dos obedientes)

- … um sorrisinho.

a imaginar um polícia para mim

- … um sorrisinho.

desconfiado

porque a fotografia a não corresponder à minha cara, onde

sorrisinho nenhum

de modo que a fotografia sorridente a ter de pôr uma cara séria, carrancuda, a imitar-me, a colar-se a mim, para não me arranjar problemas com a autoridade

porque os artistas

o fotógrafo…

corrijo

o retratista

(cabelinho pelos ombros)

a insistir

- … um sorrisinho.

E eu com vontade de lhe gritar

- Quem tem espinha são os peixes.

a forçar as bochechas

(no silêncio dos obedientes)

a descolar os lábios

a imitar um sorriso

diferente de sorrir

imitar apenas

a não querer estragar-lhe a arte; para que depois não me fosse lá queixar que ficara com cara de sapo penteado e

(no silêncio dos obedientes)

a olhar para o passarinho

quando

- Agora olhe para o passarinho.

Passarinho, aonde?

anéis e pêlos

paradoxo estético

cinco tentáculos

ardil manhoso

que os passarinhos não têm tentáculos

que os passarinhos não têm anéis nem pêlos

nem paradoxos.

De modo que passarinho nenhum

passarão

não passarão

passarola

passareta

borboleta

pianola

borbotão

de patinha no botão

- Agora olhe para o passarinho.

E eu com vontade de lhe gritar

- Quem tem espinha são os peixes.

a olhar para os tentáculos penados

anéis e pêlos

direito no banquinho de enroscar

desenroscar

de s’ enrascar

desenrascar

o banquinho

ao centro

diante de um painel de palmeiras, gaivotas e mar

onde a brisa a ameaçar-me o cabelo, o risco, o penteado

de bochechas forçadas

sujeito a arranjar problemas com a autoridade

fixando o pintassilgo

o pintarroxo

o pintainho

até que

Flash

a deixar-me cego

gravado na chapa

com cara de porco espinho

Mário Soares

sapo penteado

que o artista

corrijo

o maricas de merda

camisinha pelos ombros

calcinha de couro

sandalinha às flores

cabelinho vermelho

bem me deu a entender

- Depois não se venha cá queixar…

Agora ou Nunca

Olhava com inveja para as barrigas vaidosas das grávidas que se passeavam felizes pelo jardim da Estrela, quando

- Importa-se que fume?

a rouquidão de uma voz, ainda mal se havia sentado no banco que passámos a ter em comum.

Não me importava. Não estava grávida. Infelizmente nenhum motivo para

- Preferia que não.

- Estou farta desta merda! Tenho quase quarenta anos

(na verdade apenas trinta e cinco)

e não consigo engravidar.

A Isabel aos gritos, num misto de frustração e desespero. Enquanto eu

a ouvi-la e pouco mais.

Também eu queria um filho…dela!

- Quero fazer um teste de fertilidade. Quero saber se sou seca! Quero saber se o castigo é meu!

num misto de frustração e desespero.

- Esteja à vontade!

respondi, quase sem tirar os olhos de um vestido salmão que se arredondava sobre o ventre de outra mulher que por ali passava

(cabra)

de braço dado.

- Se o problema for meu, deixas-me?

o Paulo a perguntar-me com um olhar de cachorro preso à matricula diminuinte do carro dos donos.

- Claro que não! Estás parvo?

foi a resposta da Isabel, ganhando coragem para fazer a mesma pergunta.

- Eu também não! Nunca, Tolinha!

tomando-a nos braços e rematando

- Por isso não vale a pena castigarmo-nos com a verdade. Não importa de quem é o problema. É nosso. Basta. Não quero que te agonies, nem me quero agoniar eu.

Mas para mim não bastava. Queria sabê-lo. Queria-o quase tanto quanto a um filho. E por isso agoniava-me; agoniava-o. E no limite do desespero

A Isabel aninhar-se-me nos braços e, apesar de não satisfeita com a proposta, a deixar-se ficar em silêncio à espera do silêncio húmido dos meus lábios. Tentámos mais uma vez!

- Fuma?

a voz, desconcertante, estendendo o maço na minha direcção.

A coisa parecia descontrolada. Devorávamo-nos até ao limite do possível, num desespero incompreensível à razão. O desejo era tal, e tal a sofreguidão, que foi a melhor vez da minha vida; apesar de não o termos feito um com o outro. Eu, com uma fantasia selvática tornada realidade, e a Isabel, com o desejo enraivecido se ser mãe.

(Era agora ou…

- Não costumo… mas aceito um, sim!

Afinal de contas, nenhum motivo para

- …não.

e uma mão morena com uma chama na ponta avançando na minha direcção. E o cheiro a tabaco a misturar-se com um perfume quente que me entrou pelas narinas adentro despertando-me um desejo desconhecido. Estava aceso o instinto; o cigarro também.

- Nunca me deixas, Paulo?

- Claro que não, tolinha!

E mais saliva e mais suor e mais pêlos da carpete colados à humidade dos corpos (…)

… ou nunca!)

Eu sabia o problema não ser meu. Não que alguma vez tivesse feito um espermograma na vida, mas porque

- “Ou tu casa com a Rosinha, ou eu te mato, desgraçado!”

as palavras sentenciosas do pai da rapariga (da moça, melhor será dizê-lo) mal a barriga da filha se começou a tornar indiscreta. Uma aventura sem importância, um par de vezes: uma tarde, uma noite ou duas, que me obrigou a fugir da Baía sob ameaça de morte.

- Quando olho para estas crianças a correr de um lado para o outro, sinto uma vontade enorme de ser pai.

a voz do companheiro de banco e de fumo, envolta na neblina do cigarro, que já não fumava desde os tempos do Liceu Francês, a trazer-me de volta à Estrela, ao banco, ao seu lado. Parecia ter voado com o fumo, até à idade em que os sonhos e a realidade são uma e a mesma coisa, mas aquela voz pétrea rebentou a bola de sabão em forma de ventre prenhe que me envolvia os sentidos, no preciso momento em que as minhas mãos mentais se dirigiam descontroladamente para o pescoço da rapariga de salmão que tornava a passar. Parecia que de propósito para me provocar.

Cabra!

Cabras! Todas!

Tinha vontade de as espancar, de lhes arrancar a beleza das faces plenas de felicidade à chapada, mas… porque a voz

- Quando olho para estas crianças…

eu

- Como disse?

- Quando olho para estas crianças a correr de um lado para o outro, sinto uma vontade enorme de ser pai.

Duas semanas depois, sob o pretexto de ir tratar dos papéis para o casório, apanhei um autocarro e mil e duzentos quilómetros depois, num avião para Portugal.

- A senhora tem filhos?

- Tenho dois! - menti, no meio de duas passas denunciadoras.

- A vida nunca me deu essa felicidade! - e puxando fumo, acrescentou de peito cheio: - Mas ainda não perdi a esperança! - olhando-me desarmante para a alma nua.

Era agora ou nunca! Caídos um para cada lado do chão onde

exaustos, encharcados, plenos…

Eu na minha virilidade de macho; Isabel na sua maternidade de fêmea.

- Nunca me deixas, Paulo?

- Claro que não, tolinha!

Há coisas que não se explicam e… A tarde começava a acinzentar e o vento tinha tomado a forma de uma mão sob a aba do meu vestido, ali onde a coxa começa e a penugem se arrepia ao mínimo contacto. Quando dei por mim o banco tinha desaparecido e, no seu lugar, o alto miradouro do jardim, onde aquela voz rouca, um cavalo a galope pelas colinas das minhas espaldas acima, num encaixe completo até à medula dos ossos.

Hoje terá nove anos. Menino ou menina! Não sei. Creio que não vou saber nunca. Tal como

saber nunca

se meu ou não

pois apenas um par de vezes: uma tarde, uma noite ou duas

apesar de ela

- Por tudo o que há dji mais sagrado que é seu, Paulo! - lavada em lágrimas.

Nestas coisas as mulheres não se enganam.

As minhas mamas famintas de leite enchiam a cada investida e o meu ventre morto respondia a cada massagem cardíaca que aquele estranho paramédico me ministrava. Não sei explicar. Não quero explicar.

Foi uma loucura aquela noite!

Foi uma loucura aquela tarde!

No mês seguinte o período não veio e no lugar dele uma sensação de intraduzível felicidade. Um exame de farmácia confirmou o anseio, e dois meses depois a ecografia dava-me a melhor das notícias.

- São dois!

podia dizê-lo agora sem mentir quando alguém

- …tem filhos?

Não podia nem acreditar. Isabel estava grávida e eu ia ser pai!

- Só pode ter sido feito daquela vez! - assegurava o Paulo numa excitação infantil.

E eu

- Claro que foi, tolinho!

Afinal… quem poderia saber?!

Nestas coisas as mulheres não se enganam.

Monday, October 27, 2008

Vertigem

Depois que a Soraia me trocou por aquele taxistazinho de merda a vida perdeu o sentido.

- Olha que essa gaja não é boa rês, pá! - o pessoal do snack-bar a avisar-me.

- Também para o que é! - defendia-me eu, indiferente

aparentemente indiferente

mal sabendo, ou querendo admitir, que já estava vidrado na curvas desastrosas daquele corpo.

- Olha que já deu a volta a uns quantos pategos aqui no bairro, Chico! - o pessoal a insistir. Principalmente aqueles que nunca se haviam acidentado nas curvas de morte da Soraia. Maldita seja!

- Dizem até que foi por causa dela que o Victor se matou, pá.

- Uns fracos, pá! - afirmava eu, todo galo. - Gajos que não sabem lidar com uma mulher! E enchia a boca para

- Uns fracos, pá!

e num inchar de peito ainda acrescentava

- Uma mulher é uma mulher, pá! Não tem nada que saber.

Até que a Soraia a afastar os joelhos e eu

- Uns fracos, pá!

a não saber lidar com ela

- Olha que nem todos os carros são para todas as mãozinhas! Passa lá uma bomba para as mãos de um nabo e logo vês o que lhe espera.

E a Soraia um carro de competição com 800 cilindros em triplo W.

- Olha que aquilo não vem com kit de unhas, Chico! Ou tens “mãozinhas” para a gaja, ou vais direitinho à parede que até te amolas.

E os joelhos da Soraia a afastarem-se na minha direcção

uma velocidade vertiginosa

estrada em bico

a afunilar

a afunilar

em direcção ao precipício

e eu

um franguinho com vertigens à beira do abismo

da boca do inferno.

E ela

… Soraia. Maldita seja!

a perceber que eu não tinha mãozinhas para aquilo

um nabo

mas enquanto lhe deu pica gozar o pacóvio, que todas as sextas e sábados aos bifes da Trindade

tudo muito certo

uma lady

e eu de peito inchado,

todo galo

franguinho com vertigens à beira do abismo

a passeá-la à porta do snack-bar, ao fim da noite, onde os outros, invejosos, babados, lhe mandavam olhares às ancas e piadas a meu respeito.

- Então, ó Chico, já nem falas à malta?!

e eu

que já nem falava à malta

nem um gesto de cabeça; uma piscadela de olho

nada

a andar, a andar

inchado que nem um peru

todo galo…

(franguinho com vertigens à beira do abismo)

Mas agora…

agora que aquele taxistazinho de merda a levou, sei lá para onde, acabou-se tudo. A voltarem-me à ideia as palavras do Calisto

- Dizem até foi por causa dela que o Victor se matou, pá.

as do Necas

- Ou tens “mãozinhas” para a gaja, ou vais direitinho à parede que até te amolas.

E o taxistazinho de merda, mais habituado a grandes andamentos

de certeza mais habituado a grandes andamentos

de manhã à noite com um Mercedes na patuças

a levar-ma, sei lá para onde…

a deixar-me um vazio enorme

cheio de ecos

onde as palavras do Calisto

- Dizem até foi por causa dela que o Victor se matou, pá.

- … foi por causa dela que o Victor se matou, pá.

- … o Victor se matou, pá.

- … se matou, pá.

a dar-me vontade de morrer

aqui

neste quarto vazio com barba de cinco dias, a português suave e latas de salsichas com pão de forma e vinho de pacote, que é só o tempo de descer ao supermercado

a horas que não me vejam

a horas que ninguém

- Então, ó Chico, já nem falas à malta?!

só o tempo de descer ao supermercado

e

tau

o que calhar e uns cigarros.

Neste quarto vazio

(cama e armário)

alugado ao segundo

que isto aqui não é uma pensão

- Olhe que isto aqui não é uma pensão!

a dona disto que não é uma pensão, à porta, a avisar-me

- Olhe que isto aqui não é uma pensão!

a dar-me ganas de lhe apertar o papo

de lhe berrar bem alto

- É um ninho de putas. É o que isto é!

a não dizer nada

a deixar-me ficar

no canto vazio do quarto

(cama e armário)

que para amar nem é preciso tanto

afinal

- Uma mulher é uma mulher… Não tem nada que saber.

e pelo visto até tem

- Ou tens “mãozinhas” para a gaja, ou vais direitinho à parede que até te amolas.

as palavras do Necas no eco surdo do quarto

alugado ao segundo pelo taxímetro da velha que

- Olhe que isto aqui não é uma pensão!

e ao dizer taxímetro

a começar tudo de novo

a Soraia, o snack-bar, a Trindade, a pensão

- Olhe que isto aqui não é uma pensão!

- Já sei que não é uma pensão, foda-se!

… um ninho de putas. É o que isto é!

a deixar-me ficar

na esperança desesperançada que volte

que entenda que eu

Chico

o homem da vida dela

na esperança desesperançada que o taxistazinho de merda a abandone

que as mulheres abandonadas regressam sempre aos braços encornados dos pacóvios que as choram em pontas.

A deixar-me ficar

numa vontade de morrer

a horas que não me vejam

neste quarto de cinco dias, só, com barba de tempo a descer, suave, ao vazio… tau… uns cigarros. Português de forma, de pacote, de supermercado salsichas de pão e vinho de latas…o que calhar.

aqui

no canto

vazio

onde uma barata

passeando-me pelas biqueiras das botas, sem respeito algum

(como o pessoal do snack-bar se me visse agora

Português sem forma, barba de cinco quartos, salsichas de pão e vinho suave, tempo em lata, dias de pacote

o que calhar e uns cigarros)

respeito algum

a barata

pelas biqueiras de mim, ou das botas

como se eu não mais que um obstáculo no caminho

eu não mais que um obstáculo no caminho

que uma barata faz lá ideia o que é um homem

um franguinho com vertigens à beira do abismo

à boca do ralo do polibã

agora

repleto de cabelos e pêlos fossilizados em restos de sabão, onde a barata

agora

ou eu

a barata

agora

em movimentos de antenas, à procura dos pêlos dela

… Soraia. Maldita seja!

Quais os dela? Quais o meus? Quais os de toda a gente que por aqui passou antes de nós, que

- …isto aqui não é uma pensão!

… um ninho de putas…

já sei

num desespero, perdido

Quais os dela? Quais os dela? Quais os dela?

em movimentos de antenas

a barata

ou eu

a barata

Quais os dela? Quais os dela? Quais os dela?

Que frustração! Nem um resto do seu corpo a ser-me permitido

um fio ondulado de saudade… Nada!

Confundi-me com ela, com meia cidade, com meio mundo... meia pensão…

e que resta de nós…

um monte de pentelhos no ralo, misturados com o sebo e sabão…

o abismo

o ralo aberto

movimento de antenas

um medo que vem de dentro

de mim

do ralo

de onde um frio

uma dor

um silêncio de gargalhadas pelos quatro cantos do quarto

vazio

a arrepiarem-me a couraça

nua

gelada

numa vertigem de abismo à boca do ralo

à boca do inferno

de onde um eco

profundo

nas minhas antenas à toa

vindo das entranhas da cidade

me repete

- Dizem até que foi por causa dela que o Victor se matou, pá.

- … que o Victor se matou, pá.

- … se matou, pá.

Dona Camille

Porque foi que morreu, dona Camille? E agora, dona Camille? Quem me dirá

- Entrre, mênino. Entrre.

dona Camille?

Quem me dará bolinhos de anis num cartuchinho de papel branco; me mandará aos recados, dona Camille? Eu sei que isso foi há trinta anos, dona Camille, quando a dona Camille uns cinquenta e eu

treze

catorze

quinze

e a dona Camille

- Entrre, mênino. Entrre.

em camisa de dormir

transparente

afinal eu uma criança

treze

catorze

quinze

e mal nenhum

idade para ser minha mãe

e em França tudo muito mais moderno.

Vai daí que

- Entrre, mênino. Entrre.

em camisa de dormir

transparente.

Viúva antes dos cinquenta

o senhor João Lemos

português a salto para Paris

um café

(uma boîte)

a mesma coisa em França

tudo muito mais moderno

uma noite, duas noites

um mês ou dois

e

aquela vidinha de lado

cansada já

dançar todas as noites

dançar apenas

(como se apenas não cansasse igual)

a aceitar o pedido

a dizer

- Sim.

perdão

- Oui.

num cartório de Paris.

Nunca teve filhos

(apesar de idade para ser minha mãe)

casamento tardio

passava dos quarenta

quando o senhor João Lemos

- A mademoiselle aceitaria casar-se comigo?

de modo que

quando disse sim

já tarde demais para ter filhos

(apesar de idade para ser minha mãe)

mas não sendo

- Entrre, mênino. Entrre.

em camisa de dormir

transparente

a pedir-me que ajudasse com isto, com aquilo

e nisto e naquilo o decote

malandro

a mostrar-me

- Olha para isto, ó puto! Ah! Diz lá que ainda não está enxuta, a velha!

e eu

para o decote

- Dona Camille, se faz favor!

que lá porque um decote a vida toda colado aos seios, direito nenhum de

- … Diz lá que ainda não está enxuta, a velha!

De modo que os olhos a falarem por mim, a dizerem

por mim

- Dona Camille, se faz favor!

a ficarem naquilo

num bate-boca

não eu

os olhos

a defenderem a dona Camille

a não admitirem faltas de educação ao decote

ordinário

pensava que malandro, mas

ordinário

e nisto uma voz

- Párra onde está o mênino a olhár?

a embrulhar-me o estômago, a entrançar-me as pernas, a comer-me letras às palavras que

- Par… eu… ah… nenhu...par…não…

e a voz

não a dona Camille

a voz

de conluio com o decote

ordinário

a perguntar-me

- Quér ver as minhas mêninas?

a engasgar-me o coração, aflito, num esperneio de coelho mal morto

a aproximarem-se de mim

a voz

o decote

umas mãos também

cúmplices todos

a aumentarem o decote, como uma boca que ri

a revelarem-me dois…

(enxutos)

a agarrarem-me na mão

a levarem-ma até eles, apertando-a

transfundindo-me o sangue do coração para as calças

engasgado

num esperneio de coelho mal morto

a puxarem-me para o sofá, onde a voz

não a dona Camille

a voz

- Gósta?

e eu

não sei se bem eu

qualquer coisa em mim

a fazer-me sim com a cabeça

que sim, que sim, que gostava

apesar de idade para ser minha…

mas não sendo

que sim, que sim

e as minhas calças a abrirem-se, uma mão a certa de encontrar o que procurava

treze anos

resistência alguma

a massajar, como a uma lamparina mágica onde um génio adormecido não tardaria a ser desperto

- Gósta?

a voz, as mãos, o decote, que já decote nenhum

uns seios

inteiros

(enxutos)

à espera de beijos

de qualquer coisa

um carinho

uma meiguice

algo que os acalmasse

(ou ao coração por detrás deles)

que uma mulher sozinha sofre muito

e que mal tem o carinho

o amor (?)

que se não fosse amor não se poria sobre o meu colo, a dona Camille

não a dona Camille

precipitei-me

é o nervosismo

o corpo apenas

não a dona Camille

insisto

o corpo apenas

mais forte que ela

sobre o meu colo

a abraçar-me o pescoço

a encher-me de beijos

a boca que

- Gósta?

a arrancar-me

que sins com a cabeça desvairada

a garantir-me, a boca

não a dona Camille

a boca

- Ai é tão bóm, mênino!

enquanto eu

a desmaiar

a arquejar de aflição…

Pobre dona Camille (!)

a viuvez, as saudades do carinho, que

sozinha

num país estranho

não havia quem lho desse

a arrancar de dentro de mim um vómito da alma que a fez brilhar

(os olhos)

que a fez brilhar

dizer-me

- Ai é tão bóm, mênino!

Uma vez, duas vezes

treze

catorze

quinze anos

até que eu uma namoradinha e

- Já não tenho idades para fazer recados.

a dar o recado à minha mãe, quando ela

- Olha, a dona Camille pediu se podias passar lá por casa hoje. Precisa que lhe faças um recado

- Já não tenho idades para fazer recados.

De modo que nunca mais fui

perdão dona Camille

um ingrato, eu sei

mas o quê(?)

dezasseis anos, quase

uma namoradinha e

sabe como é…

E talvez fosse isso, que devagarinho a foi levando, à dona Camille

que uma mulher viúva

saudades do carinho, que

sozinha

num país estranho

não havia quem lho desse.

Quando se é novo não se pensa nisso. Mas agora, quando a notícia chegou

talvez porque desiludido com o casamento

a namoradinha daquele tempo

a doer-me

a querer dizer

dona Camille

não morra, dona Camille

eu vou, dona Camille

ainda hoje, dona Camille

sem falta, dona Camille

juro que sem falta.

Não me custa nada

sinceramente

um recadinho, com todo o gosto

é só mudar de roupa, dona Camille

mas não morra, dona Camille

não morra!

Senão quem é que me abrirá a porta, dona Camille?

Quem é que me dirá

- Entrre, mênino. Entrre.

dona Camille?