Tuesday, February 20, 2007

a bondade de me auxiliar

- A sua esmola, por favor! Tenha a bondade de me auxiliar com a sua esmola, por favor!

e um encolher agitado ao longo da carruagem ante a voz cega que

- A sua esmola, por favor!

um baixar de olhos, disfarçando a presença, não fosse o cego dar por eles. Não que não fossem bondosos, mas nem sempre podiam ter

- … a bondade de…auxiliar…

Eu vinha de casa do David e trazia a derrota do mundo aos ombros. A voz do cego nos meus ouvidos era uma melopeia distante que se misturava com a minha dor de cabeça em variações de intensidade. Não me encolhi. Já estava encolhida.

Não por causa da voz

- A sua esmola, por favor!

mas porque

de casa do David

não porque

- Tenha a bondade de me auxiliar…

mas porque

a derrota do mundo aos ombros.

Já estava encolhida. O meu corpo, naquele momento, dez números acima de mim, como o vestido verde da mamã que eu adorava. Por isso

Não me encolhi.

Pouco me importava que o cego me visse com a ponta do bastão. Pouco me importava que os encolhidos… o que quer que fosse. Pouco me importava qualquer coisa depois do David

- Arrefeceu, Anita!

depois do David

- Já não sinto o que sentia, Anita.

com o meu nome em rimas constantes, verso após verso, num poema de desamor perfeito; na voz declamatória do David

- É melhor ficarmos por aqui, Anita.

decidindo pelos dois

apesar de eu

- A sua esmola, por favor!

o David

- Por favor, não insistas, Anita!

e eu

ou o cego

baralho-me já

- Tenha a bondade de me auxiliar com a sua esmola, por favor!

- Não insista, senhor! - dito num encolher de corpos

- Não vê que está a incomodar toda a gente?

E claro que não via

claro que não via que

- Não vês…

claro que não via que

- … não dá mais, Anita!

No banco em frente ao meu, uma senhora dilatada, usurpava quase todo o espaço do assento de um homenzinho enfezado, quase invisível, que se se encolhesse ao toque do cornetim

- A sua esmola, por favor!

desaparecia por completo da superfície da Terra. Aquele não havia o bastão de encontrar. A senhora encolhera-se o quanto podia, mas porque não podia encolher-se mais, meteu a mão à carteira, num catar de moedas

a voz do cego cada ver mais próxima

- A sua esmola, por favor!

numa ameaça de sargento que passa revista à formatura

- Tenha a bondade de me auxiliar com a sua esmola, por favor!

cada vez mais próxima

não por bondade

mas porque não podia encolher-se mais

esconder-se do bastão

cada vez mais próximo

- …por favor!

e as moedas aflitas, num vasculhar de dedos, encolhendo-se aos cantos da carteira, baixando os olhos, disfarçando a presença

as pequenas apenas, que as grandes a nunca serem chamadas para a linha da frente

que as grandes

- É melhor ficarmos por aqui…

- …Anita.

uma moeda a responder por mim ao chamado

- …Anita.

a rima forçada num poema de desamor

perfeito

- …Anita.

- … sua esmola, por favor!

- David!

- …não insistas…

- Mas, David…

- Não vê que está a incomodar toda a gente?

- Não me trates por você, David, porra!

- Não vê…toda a gente?

e claro que não via

- … toda a gente…

como as moedas, aos cantos da carteira

- Vai tu.

- Vai à merda, David!

(as pequenas apenas…)

num vasculhar de dedos

cinco bastões grossos, de um lado para o outro

- Tenha a bondade…, por favor!

cinco bastões

pouca chance de escapar

porque a senhora não podia encolher-se mais

porque a voz

- …a sua esmola, por favor!

porque o bastão

na sua perna dilatada

toc toc

ou lá como fazem os clarins para a formatura

toc toc

- …a sua esmola…

num contrariar de dedos rumo a uma caixinha sinistra

toc toc

ou lá como fazem as moedas

(as pequenas apenas…)

(…que as grandes…)

- É melhor ficarmos por aqui…

e um “bem-haja!”, repetido, completamente às escuras, mecânico, como um

toc toc

afastando-se

toc toc

num desprender de respirações, num desencolher de corpos. Porque o toc toc

um, dois, três, macaquinho do chinês, a diluir-se na imensidão de sons, completamente às escuras.

Não me desencolhi.

Ainda que quisesse…

Não me desencolhi.

O meu corpo…, dez números acima, como o vestido verde… que eu adorava.

Pouco me importava que o cego… que os encolhidos… o que quer que fosse. Pouco me importava qualquer coisa depois de

- A sua esmola, por favor!

depois de

- Não insistas, Anita!

Corta!

Quando a minha mãe caiu à cama, foi como se de repente uma tesoura gelada cortasse a fita de cinema, a mim por dentro, aos pedacinhos, deixando por ali o filme da minha vida. O que será que se iria passar depois do cavalheiro de chapéu, para a menina de óculos grossos

- Queres casar comigo, Dina?

O que será que se iria passar se a tesoura gelada

a trombose

não AVC

como os médicos a quererem-me convencer

- Um AVC.

não tivesse cortado a fita de cinema, a mim por dentro, aos pedacinhos? Será que

- Queres casar comigo, Dina?

em vez de

- Dina!

- Sim, mãe, já vou.

num destino impossível de despistar.

Nós as duas ali sozinhas. Que é como quem diz, eu ali sozinha, porque a minha mãe

- Se não fosse a filha… Coitadinha da Idalina! - as vizinha a dizê-lo, não eu

tinha-me a mim, por companhia.

Portanto, eu ali sozinha, que os meus irmãos, dois, Estados Unidos e Canadá, nunca foram muito apegados à família, principalmente depois do papá

- Sim, aceito.

pela segunda vez, e a minha mãe, de ventre ovalado, a dar-me à luz onze meses depois.

… nós as duas ali sozinhas…

desde sempre

…ali sozinhas…

dado o papá para Setúbal a semana toda e os meus irmãos a caminho da América com uma tia que haveria de fazer deles uns homens.

Nunca os vi. E tinha visto. Mas era como se não

porque apenas cinco anos

e ainda pouco espaço na memória

uma única vez,

apenas cinco anos

poucos dias depois da minha mãe

- Ai, valha-me Nossa Senhora!

ante a notícia da queda de um andaime para as bandas de Setúbal.

- … Coitadinha da Idalina!

e eles logo a regressarem

num relâmpago

aos Estados Unidos (na altura apenas Estados Unidos), com a que estava a fazer deles uns homens.

e

porque num relâmpago

não posso dizer que os vi

portanto

Nunca os vi. E tinha visto.

De novo sozinhas

até ao dia em que

eu … sozinha, porque a minha mãe

- … Se não fosse a filha…

uma tesoura gelada

de repente

a cortar a fita de cinema, a mim por dentro, aos pedacinhos e

por ali o filme da minha vida.

… será que… o cavalheiro de chapéu

- Queres casar comigo, Dina?

e a menina de óculos grossos

- Dina!

- Sim, mãe, já vou.

Será que

- Queres?

se a tesoura gelada

(a trombose

não AVC

como os médicos a quererem-me convencer

- Um AVC.

E eu a saber que AVC nenhum

trombose, isso sim, que AVC é doença de ricos, e nós nem ricos nem cá de modas.)

não tivesse cortado a fita de cinema, a mim por dentro, aos pedacinhos?

Será que

o cavalhe iro de chapéu… a menina de óculos grossos

- …Dina?

- Sim…

(e apenas isto. Apenas esta parte. Por favor, apenas mais um bocadinho de fita. Por amor de Deus, só mais dois segundos, esta quase naquela parte. Por favor, por favor!)

Mas a tesoura impiedosa, surda aos meus rogos

porque a trombose

AVC nenhum

que isto é doença a sério, não de plástico, de faz de conta, de vamos brincar aos médicos

- Então diga lá, o que tem a sua boneca?

- Não sei doutora, está paradinha de um lado e quase não se consegue mexer.

- Hum, estou a ver. Um AVC, portanto!

Para o Diabo mais o AVC

porque uma trombose

porque só as tromboses, como as tesouras surdas ao rogos das meninas de óculos grossos

Zás

Sem qualquer aviso

como os andaimes para as bandas de Setúbal, folhas de Outono

e a minha mãe boneca alguma

faz de conta algum

uma trombose, que isso sim é doença de gente. De gente velha. Setenta e oito, quase oitenta. E digo isto porque, raiva da doença, não da minha mãe, da doença, porque uma coisa que deixa uma pessoa assim, que corta a fita de cinema, a mim por dentro, não pode chamar-se simplesmente AVC. Tem de ter um nome à séria, de criminoso sem escrúpulos: trombose, tuberculose, tremor de terra como

- Dina!

na voz arruinada da dona Idalina

não de uma boneca

- Dina!

- Sim, mãe, já vou.

Wednesday, February 14, 2007

Não éramos muitos

Esta tarde morreu o Emídio. Não esta tarde, há três tardes. Mas parece que enquanto uma pessoa não for coberta pelo chão não está verdadeiramente morta. Que apesar dos médicos

- Lamento muito!

lamentarem sempre muito

enquanto a cova não estiver rasa de terra, o portão do cemitério nas nossas costas a caminho de casa, sempre uma esperançazita. Os milagres acontecem, não é?

portanto

- … esta tarde… o Emídio.

porque a filha

- A minha Laurinha…

a sua Laurinha

no Luxemburgo e impossível uma viagem para anteontem, para ontem

- Impossível uma viagem para hoje.

a sua Laurinha

- Só depois de amanhã.

por isso o Emílio apenas a dormir, não morto, porque morto somente quando a cova rasa de terra e o portão do cemitério nas nossas costas a caminho de casa.

Estava bonito. Sempre foi um tipo bem apresentado. De todos

não éramos muitos

(não contando com ele):

o Armando

o Libério

eu e o Sousa

(o único que tratámos sempre pelo apelido, não me perguntem porquê)

de todos

sempre o mais arranjadinho. Penteadinho, cheirosozinho, barbeadinho; impecável. Tinha as mulheres que queria. Ou teria, se as quisesse, se não embicasse apenas para a Olga, que diante de Deus (das famílias e de nós todos)

não éramos muitos

- Prometo…

para toda a vida e, quando a filha, dois aninhos apenas, entrou num carro (disse quem a viu, não falo do que não sei) com um finório de brilhantina e, até hoje… chapéu.

de modos que criou a filha sozinho até à idade em que

a sua Laurinha

num carro

(disse quem a viu, não falo…)

com um finório de gelo (ou lá como se chama a brilhantina de hoje), para só dar notícias dois meses depois

- Preciso de dinheiro, pai, estou no Luxemburgo.

e o Emídio, que já andava nas últimas, a rejuvenescer. Nem um raspanete, uma descompostura, uma reprimenda

nada

apenas

- Mas estás bem filha?

- Preciso de dinheiro, pai…

e o Emílio, que já andava nas últimas, a mandar-lhe quanto pedira, feliz por a filha

- …pai…

viva

apenas a precisar de dinheiro

porque

- …no Luxemburgo.

a voltar à forma, ao aprumo, ao gosto pela vida. A ensinar-nos a nós

não éramos muitos

(não contando com ele):

o Armando

o Libério

eu e o Sousa

(o único que tratámos sempre pelo apelido…)

como se enfrentam problemas.

as mulheres que queria… se as quisesse, se não embicasse apenas para a Olga, que

quando a filha, dois aninhos apenas… num carro (disse quem a viu… não sei)… e, até hoje… chapéu.

Estava bonito. Num fatinho todo catita. Talvez mandado fazer para a ocasião, pois nunca lho vi. Sempre muito zeloso com o aspecto. Estava bonito. Arranjadinho, penteadinho, cheirosozinho, barbeadinho, impecável. Ainda agora haveria de ter as mulheres que quisesse, se quisesse, se não embicasse apenas para a Olga, que sabe Deus onde o Diabo a esconde.

- Impossível uma viagem para hoje.

- Só depois de amanhã.

- Só depois de amanhã.

Só depois de depois de amanhã.

e a morte a perder a paciência e a aprofundar o sono ao Emílio, que até aí

apenas a dormir

a obrigar as autoridades a baixar-lhe por fim o corpo à terra, dado que

- Só depois de amanhã.

ou

depois de depois de amanhã.

e o Emídio a aceitar, resignado, porque

- …os aviões. Coitadinha!

ou algo que o valha

porque a sua Laurinha

- A minha Laurinha… Coitadinha!

sempre coitadinha

por isso

a encolher os ombros, resignado, não para facilitar o enterro, resignado, morto por fim, porque a cova rasa e o portão nas minhas costas a caminho de casa, triste, sozinho, visto que

não éramos muitos

(não contando com ele):

o Armando

o Libério

o Sousa.

Nenhum assistiu ao funeral. Não porque

- Impossível uma viagem para hoje.

- Só depois de amanhã.

- …os aviões. Coitadinhos!

mas porque não podemos assistir ao funeral de quem assiste ao nosso. A morte não é um casamento. O mesmo já não se pode dizer do contrário, dado que

diante de Deus (das famílias e de nós todos)

não éramos muitos

- Prometo…

para toda a vida e… dois aninhos apenas… num carro (disse quem… viu…)… e, até hoje… chapéu.

Mas dizia

a caminho de casa, com o portão nas minhas costas e um cão invisível a farejar-me as botas, a contar-me os passos

oitenta e nove mil e vinte e quatro

oitenta e nove mil e vinte e três

à espera que eu um fato novo

porque um fatinho faz toda a diferença. Não que não nos leve se um fato velho, mas um olhar de lado, um faz de conta que não te posso atender já, um esperar na fila da entrada, porque o céu uma repartição pública e a senha de chegada apenas uma formalidade.

oitenta e nove mil e catorze

e eu a alargar o passo, para não ter de dar tantos, em direcção ao alfaiate, não a casa

porque um fatinho faz toda a diferença e por mim não se há-de esperar muito que um filho em Alverca e outro no Pragal.

em direcção ao alfaiate

oitenta e oito mil e noventa e dois

oitenta e oito mil e noventa e um…

Friday, January 05, 2007

Talvez um dia destes

E eu que até nem gostava dele! Não entendo. Faz dois anos que

- Dona Alda?

- Sim, quem fala?

- É o Figueiredo. Tenho uma notícia para lhe dar.

e eu a compreender, pelo tom de voz (não que a do Figueiredo me fosse familiar), mas pelo tom de voz, que o Aguinaldo tinha morrido. Tinha cinquenta e três anos e eu, mais quatro.

- Tenho uma notícia para lhe dar.

e eu a compreender, pelo tom de voz

e eu

- Obrigada.

sem saber se agradecia ao Figueiredo, se a Deus, se apenas uma expressão independente de mim a moldar-me a voz

- Obrigada.

apesar de não ficar contente. E eu que até nem gostava dele. Eu que até era uma parva nas suas mãos, apesar de mais quatro anos. Quatro anos e o tempo um substantivo sem significado. Uma parva. E ainda assim a deixar-me ficar.

- Mas quando é que alivias o luto, rapariga?

a Marília para mim, um ano depois de

- Tenho uma notícia para lhe dar.

e ainda assim a deixar-me ficar, apesar de

- O Luto dá-lhe um ar tão pesado, dona Alda! Fá-la parecer muito mais velha. E ainda é tão nova! - o Figueiredo todo cuidados, na sua companhia de pastor alemão desde que o Aguinaldo

- Despistou-se, dona Alda. Ninguém sabe como foi.

desde que eu

- Obrigada.

sem saber se agradecia ao Figueiredo, se a Deus, se apenas uma expressão independente de mim a moldar-me a voz

- Obrigada

apesar de não ficar contente. E eu que até nem gostava dele. Eu que até era uma parva nas suas mãos, apesar de mais quatro anos.

- … dona Alda.

o Figueiredo sempre

- …dona Alda.

sempre

- Muito obrigado!

sempre

- Se faz favor.

sempre

- Com licença.

sempre

- Tenha a bondade.

ao contrário do Aguinaldo, que me tratava pior que à empregada, a idade da nossa filha que me morreu no ventre, ainda (coitadinha!), porque

- O útero…

não sei bem explicar, um papel em cima da secretária do doutor

- O útero…

como dizê-lo

- O útero…

uma cabeça de carneiro a pingar sangue, quer dizer, faz de conta, uma tinta vermelha para me explicar melhor, e ao meu marido (digo assim apesar de nunca termos assinado papeis)

- Por outras palavras, o útero rasgou. Tem as paredes fracas. Não aguenta os fetos.

e por isso

nunca mais um filho, uma filha (coitadinha). Talvez por isso o Aguinaldo todo mesuras com ela. Porque lhe fazia lembrar a filha. Porque mais haveria de ser?

- Obrigada senhor Aguinaldo!

e quando eu

- Está-te a agradecer o quê?

apenas um

- Mete-te na tua vida!

e não se falava mais no assunto até que de novo

- Óh, senhor Aguinaldo, não era preciso! Muito Obrigada!

e eu

- …a agradecer o quê?

- … na tua vida!

porque lhe fazia lembrar a filha que o meu ventre (coitadinho) lhe negou. E se eu, uma lenta aproximação, uma mão no ombro do pijama, um arrastar de perna carente (talvez apenas frio)

… eu que até nem gostava dele!

(talvez apenas frio), por entre as suas, de imediato a calar o silêncio gelado dos lençóis

- Não me chateies, Alda, tenho sono.

Não que não me quisesse. Apenas sono. Se não me quisesse creio que me dizia. Mas unicamente

- … tenho sono

a afastar-me com a sua mão avinagrada, se calhar não a afastar-me, a impedir-me apenas que me aproximasse mais e lhe espantasse o sono. Sono que eu não tinha e que chegava quase sempre com a madrugada. E por isso, eu para ali, como um lençol pela manhã, morno, engelhado e com um desagradável cheiro de corpo por usar. Eu a importar-me. Não sei porquê.

… eu que até nem gostava dele!

a importar-me até hoje, dois anos depois. A não conseguir pintar o cabelo, vestir uma roupa mais leve, dado que esta

- …um ar tão pesado, dona Alda! Fá-la parecer muito mais velha.

e eu ainda tão nova

pelo menos o Figueiredo

- E ainda é tão nova!

a recusar convites para jantares, para festas, até que os convites a desistirem de mim a pouco e pouco, como uma criança a desistir do choro que não lhe traz uma fralda enxuta.

Que desistam do choro os convites todos. Não é por ele, é por mim. Não quero passar por viúva-alegre. Isso é lá comigo. Talvez um dia destes (se o Figueiredo não desistir. Não desiste. Deus queira…), aceito o convite

- Sim, dona Alda?

eu

- Sim!

a um jantar, porque não? Ou

- Um espectáculo no Casino do Estoril, dona Alda. Com o Fernando Pereira. Tenho dois convites.

talvez um dia destes a Marília

- Eh, lá! És oito ou oitenta!

Talvez o próprio Aguinaldo não me reconheça, quando um dia destes for ao Alto de São João levar-lhe flores, de cabelo caju, sainha clara, pregada, por cima do joelho e um decotezinho, discreto, só para que o coração respire melhor, e talvez morra outra vez, que mal nenhum lhe fazia morrer meia dúzia de vezes. E eu que não desejo mal a ninguém, nem aos vivos, quanto mais. Talvez, um dia destes. Mas hoje ainda não, que faz dois anos que

- Dona Alda?

…

- É o Figueiredo. Tenho uma notícia para lhe dar.

Hoje ainda vou de preto. Com um raminho de crisântemos brancos. Só por uma questão de… falta-me a palavra… respeito, pronto, por mais nada, porque eu

- … até nem gostava dele!

Crónica em dó menor

- Todos os acordes menores são tristes.

confessou-me o professor de piano, a meia voz, como se um grande segredo

- Todos os acordes menores são tristes.

um segredo igual àquele que lhe acompanhava a mão suada pela minha perna acima até ao interior dos calções, enquanto

- Muito bem! Muito bem!

apesar de eu tenso, encolhido

- Muito bem!

convencendo a minha mãe que eu haveria de ser um grande pianista. E eu a não distinguir as teclas brancas das pretas, porque

tenso, encolhido

apesar de

- Muito bem!

convencendo a minha mãe porque

- Muito bem!

e a minha mãe vaidosa, como se fosse ela própria a elogiada, na vaidade própria das mães, principalmente aquelas às quais nunca lhe foi sussurrado ao ouvido

- Muito bem! Muito bem!

e a minha mãe vaidosa, como se

ela própria dentro dos calções

- Muito bem!

No ano em que o meu pai morreu, eu dez anos, acabaram-se as aulas de dedilhado pelas pernas acima. Depois desse dia, não voltei a abrir a tampa de um piano

- É que ele associa o piano ao caixão do pai. Entende?

o psicólogo a explicar à minha mãe a minha súbita aversão ao instrumento de tortura em que se tinha tornado aquele armário de teclas.

- Imagina que se abrir a tampa do piano vai dar de caras com o pai morto.

e a boca da minha mãe, incrédula, ante a brilhante associação do doutor.

- … vai dar de caras com o pai morto.

- E o que há a fazer, doutor?

- Isso vai ser um processo moroso. Teremos de trabalhar o luto. Mas não se preocupe.

e a minha mãe a ficar descansada, porque o Doutor

- … não se preocupe.

a minha mãe não se preocupou e o dinheiro das aulas do professor transferiu-se para a conta do especialista em desmistificar pais mortos em forma de código de barras. Fato preto, gravata preta, camisa branca. Igual a Fá sustenido, Sol sustenido, Dó absoluto.

E, apesar de

- Faz…

(um piano,

o teu pai,

a Capela Sistina,

os planos do desembarque na Normandia,

num)

- … desenho à tua escolha.

a verdade é que, desde o dia em que o meu pai

- Que morte tão estúpida!

que não abria a tampa de um piano, e passava-lhes sempre ao lado, porque…

… uma mão suada pela minha perna acima até ao interior dos calções, uma mão cheia de dedos descarados a afirmarem, com aquela boquinha pequenina que os dedos têm

- Muito bem!

cinco vezes, um de cada vez

- Muito bem!

e outra mão cúmplice, porque silenciosa, na aba do piano, com aquela boquinha pequenina que os dedos têm, sem dizer nada, conivente com o

- Muito bem!

da outra

em vez de

- Dona Adília, venha cá depressa que o seu filho

ou

- … o professor do seu filho…

enquanto eu a não querer desiludir a minha mãe que

- Não houve um homem na vida que não me tivesse desiludido!

por isso eu

Dó menor, Ré menor, Mi menor

cada vez menor

dado que

- Todos os acordes menores são tristes.

e eu um acorde cada vez mais triste, cada vez menor, sem distinguir as teclas pretas das brancas embora

- Muito bem!

eu um piano desconjuntado, de pernas tensas, encolhidas, tocado pelos dedos ágeis daquela aranha gigante em forma de professor sussurrante

- Muito bem! Muito bem!

até ao dia em que o meu pai

- Que morte tão estúpida!

a levar com ele o professor de música. A morte do meu pai a salvar-me a vida. Cheguei mesmo a acreditar que morreu para me salvar. Amén. Pois porque outro motivo poderia o papá ter morrido, se ainda tão novo, de uma morte

- … tão estúpida!

a queda de uma árvore em cima do carro, onde ele a conversar com uma colega de trabalho.

- Não houve um homem na vida que não me tivesse desiludido!

a mamã antes e depois da notícia.

- Não houve um homem na vida que não me tivesse desiludido!

provavelmente desde o dia em que descobriu a diferença dos sexos.

- Não houve um homem na vida…

Mas a verdade foi que nunca mais tive de abrir uma tampa de caixão e isso só o posso agradecer ao meu pai, ou ao desmaio da árvore na recusa de ser piano.

No ano em que regressei de Angola, paixão, talvez, lindíssima, professora de música. Um dia

- Senta-te aqui.

e eu a tremer como um grande pianista a caminho de um piano de gelo.

- Senta-te aqui.

e as suas mãos a pegarem nas minhas e a colocarem-nas sobre o teclado, devagar, com os seus dedos a explicarem aos meus (com aquela boquinha que os dedos têm)

- É assim.

porque eu a assegurar-lhe que nunca havia sentido uma tecla na vida

- É assim.

eu a imitar-lhe os gestos; lentamente, como uma criança a andar sobre o branco e negro daquela calçada sonora.

- Isso! - um incentivo qual torrão de açúcar.

- Isso!

e de súbito, porque de súbito

- Muito bem

e eu a lançar-me ao seu pescoço frágil, quer dizer, não ao dela, ao do professor de música, apertando-o com toda a força que me faltara em criança, a bater-lhe com o crânio calvo no teclado aflito, enquanto

- Muito bem? Hum? Muito bem, meu cabrão de merda?!

e ele, não ela, ele, nem um pio, nem um ai, nem um nada, apenas acordes maiores atrás de acordes maiores.

Não a ela. A ela não. Um crânio calvo, não uma farta cabeleira ondulada até à cintura. Um crânio calvo. Juro que um crânio calvo.

- Trauma de guerra.

diria o psicólogo para a minha mãe

- Imagina que se abrir a tampa do piano

de caras com os companheiros mortos

o pai morto

as notas graves, rajadas de metralhadora

- … um processo moroso. Teremos de trabalhar o luto. Mas não se preocupe.

Para a próxima…

Ela chegava num toc toc de subir de escada, no seu passo absoluto, toda sapatos, enorme como uma estátua de bronze, e metia a chave à porta de uma vez só. Nessa altura já eu estava a caminho das cebolas para começar a chorar antes que fosse preciso bater-me.

- Olá fofinho, a mamã chegou! - numa voz de sargento rente à reforma.

- Olá fofinho… - sempre assim que me chamava.

- …a mamã… - como se tratava a si.

- … chegou!

e eu com vontade de lhe gritar da cozinha que ela não era a minha mãe, mas, em vez disso

- Olá fofinha!

e não

- Tu não és minha mãe! - como era de minha vontade. - Tu és um monstro!

e no entanto, unicamente

- Olá fofinha! - encolhido como a cauda de um cão assustada, agarrado à cebola para começar a chorar

- …a mamã chegou!

sem que fosse minha mãe, pois a mamã

uma mulher delicada; uma boneca de porcelana com rugas de cola porque o meu pai

- Para a próxima levas mais!

e para a próxima levava igual, porque mais não podia ser.

- Para a próxima…

e a minha mãe a apanhar os seus próprios cacos do chão, e a levá-los na concha das mãos, como se aparasse lágrimas

mas apenas cacos

para o fundo do quarto; para os colar de novo no sítio; para a próxima.

- Olá fofinho, a mamã chegou! - numa voz de sargento…

… rente à reforma.

e eu na cozinha, preso à ponta de uma cebola, como uma rama mole, impotente, com vontade de

- Tu não és minha mãe!

- …fofinha!

- Tu és um monstro!

- …fofinha!

mas uma fila de dentes enormes, tortos e amarelados na minha direcção a desaparecerem num alongar de lábios pintados.

- Então o que é a papa?

- Veneno para os ratos! - aquilo que me apetecia dizer, e a sair-me, num refogado de cobardia

- Bifinhos de cebolada.

- Bifinhos de cebolada?! - como se eu tivesse efectivamente dito

- Veneno para os ratos!

- Querias outra coisa, fofinha?

e uma fila de dentes enormes, tortos e amarelados na minha direcção, a não desaparecerem num alongar de lábios, e a mascarem palavras, indigestas, como se me mascassem a mim, ainda que não se ouvisse mais que

- Não, fofinho! Está óptimo! Estou mortinha de fome!

num silêncio que apenas eu sabia ouvir

- Mas é todos os dias a mesma merda? Não sabes fazer mais nada meu anormal?

ainda que só

- Não, fofinho! Está óptimo!

da mesma forma que eu

- Bifinhos de cebolada.

em vez de

- Veneno para os ratos!

- … meu anormal…

e o silêncio, a ressoar no ar da cozinha, num mascar de palavras

indigestas

a mascar-me a mim

- Tens tanta imaginação para fazer comida como para escrever livros! É por isso que ninguém te pega!

- …fofinho! Está óptimo!

não na voz de sargento rente à reforma

- Para a próxima…

apenas

- …fofinho!

- …óptimo!

ainda que nos meus ouvidos

- O que seria de ti, meu desgraçado, sem mim?!

e a resposta a não me surgir, porque a pergunta… o silêncio que apenas eu sabia ouvir

no ar da cozinha

na minha cabeça

no ar

- Veneno para os ratos!

- Está óptimo!

- Fofinh…

e eu a não compreender porque dissera

- Sim.

quando o padre me perguntou

- Aceitas para tua legítima esposa este monstro?

perguntando

no silêncio que apenas eu sabia ouvir

- Aceitas para tua legítima esposa o teu pai.

… a não compreender porque…

- Sim.

- Sim, aceito.

porque o medo é uma estátua de bronze a subir as escadas, não em tacão raso; em bota de cano alto. Porque o medo é uma boneca de porcelana em mil bocados espalhados pelo universo da minha infância. Porque o medo é uma mão cheia de cacos apanhados do chão, como lágrimas, rumo ao fundo do quarto. Porque o medo é uma cauda de cão assustada, preso à ponta de uma cebola, como uma rama mole, impotente, incapaz de dizer

- Não!

porque o medo são olhos abertos, máximos de TIR a espantar-me para os arbustos da casa de banho, que é como quem diz, para dentro de um sapato, quietinho, num silêncio de pulga, porque o medo é…

- Para a próxima…