Tuesday, October 23, 2007

Nº 103, 2º Esq.

Nus…

sobre a cama alugada, no silêncio que sobra das bocas amassadas pela vontade de que o tempo pare para sempre

ali

pendurado nos estores enviusados daquela janela empenada com vista para as traseiras da pensão, onde ervas e gatos se confundem com restos de luz ao amornar do dia.

Nus…

sobre a cama alugada, no silêncio que sobra do depois, quando a tarde é já quase nada e uma promessa de noite ainda.

Ali

diante da tela em branco do acaso, num esboço de olhos, cuja imaginação não chega para encher de verdade.

Estavas sozinha na esplanada dum café em Montmartre, a rabiscar a vida num Moleskine, quando eu me sentei a uma mesa a suspirar solidão. Vimo-nos pelos cantos dos olhos e trocámos olhares

enviusados

como os estores daquela janela empenada com vista para as traseiras da pensão, onde ervas e gatos…

Eu a procurar-te

ou qualquer coisa em ti

e tu…

as linhas do meu rosto, a verdade dos meus olhos, deixados em branco, na folha que ficou sobre a minha mesa ao saíres rua abaixo.

Eu atrás de ti

num francês horrível, mas que tu entendeste na perfeição, porque o silêncio é igual em todos os cantos do mundo. E disseste que

- Pas du problème!

e que as palavras faziam demasiado barulho.

Estudavas pintura e vivias num quarto de pensão a um quarteirão dali. Seguimos descendo a Chevalier de la Barre, e tu francesando-me o teu mundo e as diferentes cores que o compunham.

Convidaste-me a subir

ao segundo andar

ao o teu quarto

e perguntaste-me se gostaria de pousar para ti…

nu…

sobre a cama alugada.

E eu

no silêncio que sobra da sem coragem de negar, a assentir com a cabeça

e

apesar de não muito à-vontade

a desfazer-me da roupa e a deitar-me sobre a cama, sob a janela aberta para o fim da tarde. E porque eu

não muito à-vontade

tu a tirares o vestido, as sandálias e a ficares nua à minha frente, diante do cavalete lambido pelo arco-íris dos teus pincéis. Achei-te justa! Possuías toda a verdade nos olhos e eras nua por natureza. Tinhas movimentos largos, delicados, de bailarina russa, e cada pincelada na tela era uma lambidela no meu corpo crescente de desejo por ti. Concentrada, desconcentravas-me em cada deslizar de pincel, em cada movimento de mal me quer; bem me quer…

e

num sorriso capaz de matar o mais insensível dos homens, pediste-me

- Vérité!

pois querias pintar-me os olhos e, sem verdade, não serias capaz. Queria-los nus, mais do que a mim, e explicaste-me ser por isso tão difícil pintá-los e não apenas por serem olhos

e num sorriso

capaz de matar o mais insensível dos homens

repetiste

- Vérité!

e que não fugisse de ti, que não me escondesse atrás das pupilas, que me mantivesse

- …présent.

- …proche.

mais perto, mais perto…

e pousando a paleta, aproximaste-te de mim, colocaste-me a mão sobre o teu seio, apertando-a ligeiramente, inspirando fundo, e sorriste-me de olhos nus, cheios de cores e de água

- …comme ça.

pedindo-me que tos penetrasse com os meus

fundo

num movimento lânguido de pestanas

sem medo

assim

- Oui…

…vien…

… entier…

… doucement…

E eu a ir

inteiro

devagar…

na ponta dos teus dedos, até ao sopro morno da tua boca

- …vien…

ao contacto com o teu hálito doce

- Oui…

enquanto a cabeça te descaia para trás, numa entrega de fêmea completa à verdade do sentir.

E no silêncio quase absoluto daquele quarto alugado, à hora em que o dia é mais belo de cores, e ervas e gatos se confundem com restos de luz, apenas o som dos meus lábios no teu pescoço arqueado, a arrancar-te suspiros em pinceladas suaves de língua, desde a curva ombro ao pego da orelha, onde um expirar mais profundo se desequilibrou de mim e te caiu dentro, enchendo-te o peito; arrepiando-te inteira.

Eras tu agora uma tela em branco, nos meus dedos de marta, mostrando-me verdade

e

num rodar de queixo

a trazeres-me de volta o teu hálito doce, mais quente já, e à boca a tua boca inteira, num beijo inteiro, de língua inteira, lábios inteiros de quem aboca um fruto maduro no prazer lascivo de se deixar pingar

devagar… devagar…

Subiste por mim até se completar o beijo

toda braços e mãos, toda pernas e coxas

e cheirámo-nos como bichos, por entre cabelos e dedos, respirando-nos fundo, até à vertigem dos sentidos

até deslizares redonda, num movimento de gata, para debaixo de mim, levantando os braços lassos

a revelar sombras suaves a carvão

estendendo-te até ao limite de ti; até às pontas pintadas dos teus dedos…

devagar… devagar…

A tua pele de cera, morna, acabada de acender, na maciez do princípio do derreter, a alastrar-se aos poucos, num convite irresistível de

- Põe o teu dedo em mim.

que todas as velas acesas nos parecem pedir.

- …o teu dedo…

na cera morna que se esparge e aquece

- …em mim

devagar…

- Oui…

… doucement…

… doucement…

E de repente

os teus pés uma harmónica de dedos na minha boca, onde cada dedo

cada intervalo

uma nota arrancada ao suspirar mais sincero de ti

e

num tremor suave

quase imperceptível

as tuas pernas a criarem-me espaço no meio de ti

devagar… devagar…

descobrindo aos poucos o abrigo de palha do teu casulo

onde uma borboleta se abria em asas para me revelar o mais íntimo segredo dos teus segredos

- Oui…

…vien…

… entier…

… doucement…

numa voz arrastada e quente que me deixou a razão à beira do abismo

e tu

em espasmos de suplício, mordendo os lábios

depois o pulso

porque um morder mais forte se precisa

a sufocares num grito amordaçado, quando os meus lábios se fecharam num beijo inflamado sobre o princípio do princípio de ti

sorvendo-o

devagar… devagar…

como à pontinha melada de um mindinho.

- Oui…

…vien…

…vien…

…vien…

E eu a ir

inteiro

devagar…

até o tecido dos meus lábios se fundir por completo nas pincelas mais carregadas do teu peito, onde o rosa túmido dos teus pomos e a tumescência da minha boca terminam e começam

e começam, e começam…

devagar… devagar…

E uma linha de saliva a sublinhar-te a curva dos seios, e um arrepio a repuxá-los até ao limite da dor, até ao limite de si.

- Oui…

…vien…

…oui…

E eu todo lábios e língua

todo dedos e mãos

e tu espasmos e humores

dentes e pulsos

nos meus braços; na minha boca; nas minhas mãos tão cheias de ti.

E eu a trepar-te até aos olhos, a mostrar-me nu

na verdade que me pediste

para que o teu quadro não fique sem luz; para que não te custe pintar-me os olhos

a enterrar os dedos no intervalo dos teus dedos

e dedos com dedos

olhos com olhos

a entrar

devagar…

na suavidade da cera morna do princípio do princípio de ti

onde já vela alguma

mas uma fogueira imensa consumindo toda a lenha do meu corpo, fazendo-o suar toda a verdade de mim: até ao fim do ar; até ao fim dos olhos; até ao fim…

do silêncio que sobra das bocas amassadas pela vontade de que o tempo pare para sempre

ali

enviusado nos restos dos estores, com vista para as ervas penduradas daquela janela que se confunde com as traseiras empenadas do dia, onde o langor da luz amorna a pensão dos gatos

ali

até ao requebrar do corpo; ao encaixe perfeito, num enrolar de ouriços acabados de nascer; até ao adormeceres-me nos braços, entregue, completa, cheia de verdade

de mim

num ronronar de bicho feliz.

Ali

até eu à tua volta

todo

à tua volta

pleno

de ti

a adormecer de olhos fixos naquela janela empenada, vendo o último raio de sol entrar, pelo canto enviusado do estore, indiscreto, lamber-me os olhos na tela, e enroscar-se aos nossos pés, lânguido, manso, como um gato de luz.


Sunday, October 07, 2007

O preço de um abraço

O que eu queria do Vasco era um abraço. Um colo. Um aconchego. Um ninho. Um porto seguro. Não era sexo.

Não agora.

Mas o Vasco tem trinta e quatro anos e eu tinta e um. E como é que uma mulher de trinta e um

diz a um Vasco de trinta e quatro que

- Adoro a tua companhia, mas não quero ir para a cama contigo.

(?)

Tenho para mim

(e sei que as mulheres gostam de sexo tanto quanto os homens

ainda que agora não me apeteça

ou pelo menos com o Vasco

apesar de adorar

- … a tua companhia…)

que, ao contrário dos homens

(que dão abraços para terem sexo)

as mulheres dão sexo para terem abraços. Mas tenho para mim, também, que

(e não querendo desculpar-me com nada)

isto acontece

(não por não gostarmos

ou porque não é o homem que mexe realmente com os nossos humores mas…)

porque

temos fases. Sim, creio que é isso. Temos fases. E, passando por tanta relação abortada

como é o meu caso

precisamos de um pouco mais de certezas.

Caramba, será isto assim tão difícil de entender!?

Será assim uma coisa tão descabida o facto de adorar

- …a tua companhia, mas não quero ir para a cama contigo.

(?)

Acho que é isso que me assusta. O facto de não poder estar à vontade num abraço sem ter o peso de um pénis cabecear-me no ventre…

Não, não sou frígida. Que raiva! Quero um abraço. Quero sentir-me querida, amada, protegida, confortável. E o Vasco,de quem até gosto

sim, gosto

era a pessoa ideal

pelo menos agora

não posso andar pela rua a mendigar abraços a quem passa. E se não é difícil encontrar um homem para levar para a cama, é extremamente difícil encontrar um que nos queira abraçar e aceitar a cabeça confusa, pesada, no ombro, sem perguntas, nem intenções, sem nos cabecear com o chato do caralho sobre vestido, como um actor de segunda a bater no pano e a perguntar

- Então e eu, quando é que entro em cena?

- Foda-se! Espera, caralho! Apre!

Não posso andar pela rua a mendigá-los.

E o Vasco, de quem até gosto

a pessoa ideal

pelo menos agora.

Uma fase. Tenho a certeza que apenas uma fase.

Mas como é que se diz uma coisa destas quando eu

Trinta e um e ele

mais três

(?)

Não diz.

Merda!

Podia pedi-los a outro, mas a outro seria o mesmo. Querem todos a mesma coisa. Perninha escarranchada e um sorriso de satisfação na cara como acabasse de ser coberta pelo melhor garanhão do mundo.

E o Vasco, garantidamente, não parece que seja o melhor garanhão do mundo.

Será esse o problema?

Não creio.

É uma fase. Eu sei que é uma fase. Conheço-me bem. Afinal sempre gostei da coisa. Mas quando se tem passando por tanta relação abortada

como é o meu caso

precisamos de um pouco mais de certezas.

Caramba, será isto assim tão difícil de entender!?

Não, não quero meter-me em mais uma. Quero que seja a derradeira, quero ter a certeza que é ele

(Estou cansada!

Trinta e um anos.

Nenhuma criança já.

Nenhuma criança ainda!)

a certeza que está disposto a fazer qualquer coisa só para me ter

e não como é normal nos homens

disposto

porque dispostos sempre

a qualquer coisa só para

meter.

Merda!

Quero saber, sentir, que aguenta esperar por mim. Que apesar de eu

- …não quero ir para a cama contigo.

pelo menos agora

ele está lá, e vai estar. Que não procurará outra que se esteja a borrifar para abraços e histórias de encantar; que queira o que é de querer e pronto; que cumpra a natureza mais do que eu

(pelo menos agora

uma fase

Eu sei que

uma fase.

Conheço-me bem)

e não se vá embora

se canse

se farte de

- Adoro a tua companhia, mas não quero ir para a cama contigo.

e aceite a minha cabeça confusa, pesada, no seu ombro

sem perguntas

apenas me contenha nos seus braços

sem cobranças. Pois não tenho com que pagar o abraço de que tanto necessito. E mais facilmente se dão cinco euros a um pedinte na rua do que a um abraço a uma carenciada de afecto. Não me quero prostituir por um abraço. Não quero, não quero, não quero

Merda!

Estou farta!

Ali para os lado de...

Era um apartamento pequeno, sombrio, ali para os lados de Alverca.

Massamá, não sei.

Cruz de Pau, talvez!

Ou Cova da Piedade.

Nunca fui muito bom com nomes de terras.

Santo António dos Cavaleiros , não me diz nada, mas, é possível.

Alhandra? Acho que era isso. Alhandra, é bem capaz que seja.

Bem… um apartamento pequeno. Igual entre iguais. Como caras de manhã no comboio a caminho de Lisboa.

Ele, vendedor de escadotes e espelhos e berbequins e buchas e parafusos e alicates e torneiras e ela, rissóis para fora, croquetes, empadinhas e afins. Não sei qual a última vez que se despiram um para o outro

nem eles

mas aposto ter sido pouco antes de ela

- Acho que estou…

grávida do único filho que Deus caiu na patetice de lhes permitir.

Eram acinzentados os dois. Os três, que o rapaz

o seu

- … David Miguel…

também não tinha melhor cor.

A gritaria naquela casa era uma presença constante

um Espírito Santo surround

e a vizinhança, do pequeno bairro onde viviam, não era nem melhor nem pior.

Camisola de alças, branca, à janela, no cigarrinho digestivo depois do café com cheirinho

(a omoleta de fiambre com saladinha de alface e tomate

sopinha de nabiças aquecida de há dois dias

pão, queijo e uma pecinha de fruta)

não pelo ar fresco das noites de Verão alto

(a camisola de alças)

pois toda a gente sabe que nas noites de Verão alto

para os lados de Alverca.

Massamá, não sei.

Cruz de Pau, talvez!

Ou Cova da Piedade.

Nunca fui muito bom com nomes de terras.

Santo António dos Cavaleiros …

Alhandra? …é bem capaz que seja.

Portanto

que nas noites de Verão alto

nem ventinho, nem arzinho fresco

mas uma vizinha ou outra

uma sombra ou outra no prédio da frente

(Igual entre iguais. Como caras de manhã no comboio a caminho de Lisboa.)

solteira, divorcia

viúva que seja

desde que enxuta

(que molhadas só as rapariguinhas novas!)

a alegrar a vista

pois pouco amigo de telenovelas

ao contrário dela que só não papava mais porque não conseguia ver três canais ao mesmo tempo

a obtusa

a flácida

a do buço a sombrear-lhe os lábios finos, sumidos pela falta de chupões

a dos rissóis

croquetes

empadinhas e afins

depositados à volta da cintura e nas ancas

a que jura

e as vizinhas do seu calibre crêem-na, pois sucede-lhes o mesmo

engordar apenas com água.

Maldita seja, mais as porcarias que lhe deitam!

E um escarro a saltar do oitavo andar para o cimento das traseiras

a preferir o suicídio que viver dentro daquele corpo mais um segundo que fosse, e as costas de uma mão a passar pelo bigode, onde gotículas de saliva ficaram presas àquela aranha nojenta de mil patas.

Um escarro sonoro, agora que a vizinha voltou à cozinha por instantes.

Um escarro abafado pelo som do sofrimento de Eleonora, que ouve num pranto, da boca de Heitor, que ele ama outra mulher; por sinal a sua irmã, que é casada com um cafajeste que a engana e só está interessado em dar o golpe do baú, mas que a ameaça de morte caso ela ouse sequer pensar em deixá-lo.

A mulher

que jura

engordar apenas com água

a verter lágrimas reais por uma vida que parece não ser sua

a obtusa

mas é, porque não tem outra além daquela.

E no quarto, o filho

único que Deus caiu na patetice de lhes permitir.

o seu

- … David Miguel…

a chatar na Internet

Sou de Lisboa

de um apartamento pequeno, sombrio, ali para os lados de Alverca

Massamá, não sei.

Cruz de Pau, talvez!

Ou Cova da Piedade.

Nunca fui muito bom com nomes de terras.

Santo António dos Cavaleiros …

Alhandra? …é bem capaz que seja.

Estudo Arquitétura

mas trabalha nas obras, o desgraçado, que nem sabe escrever o nome do curso que anda a tirar.

E do outro lado uma

Médica

Solteira, vinte e oito anos

que não costuma vir à net e naquele dia deu-lhe para aquilo

Provavelmente manicura, pedicura e calista

Estéticista

Pernas; axilas e virilhas.

Buços também, claro.

A nora que convinha à sua rica mãezinha

obtusa

de lenço na mão a limpar os olhos papudos, como dois sapos a rebentar de tristeza, porque nem um beijo que se aproveite.

Do Porto

a médica

dos calos

Oh! Que chat…ice

ou

: (

Tudo isto

Ó Deus dessa gente

o que dizem perfeito

e depois faz destas

(a Terra com a cebecinha na Lua!)

tudo isto

ali para os lados de Alverca

Massamá, não sei.

Cruz de Pau, talvez!

Ou Cova da Piedade.

Nunca fui muito bom com nomes de terras.

Santo António dos Cavaleiros , não me diz nada, mas, é possível.

Alhandra? Acho que era isso. Alhandra, é bem capaz que seja.

Friday, September 21, 2007

mea culpa

… e quando eu digo que já não te quero mais, quero-te ainda um pouco. Não muito. Aquele pedacinho que nunca chegou. Aquele bombom que me deste a provar e que eu julgava haver mais na caixinha do teu coração, mas que me obrigou a chupar os dedos até não haver neles mais que uma ténue recordação desse sabor

do teu sabor.

É isso que eu ainda quero quando digo que já não te quero mais. É esse resto que julgo que ainda há. Mas sei

(porque uma mulher

por muito cega que esteja

sabe

porque sente)

que não há.

E já me doe a língua te tanto chupar em vão. Como uma criança na triste ilusão de uma chupeta que, talvez um dia, por ilusão que seja, lhe traga de novo o sabor da mãe. Quero esse quase nada a que tenho direito antes de me ir embora. De ganhar vergonha na cara

- …amor-próprio…

como tu dizes, e fechar a porta que tantas vezes os teus olhos me indicaram. Eu sei

(porque uma mulher

por muito cega que esteja

sabe

porque sente)

as palavras nos silêncios dos gestos não tidos.

Há muito que me mandaste embora: findo o bombom e o doce sabor nos teus dedos.

- Rua da minha vida!

com um dedo

em jeito de olhar

onde chocolate algum

nenhum sabor

dissabor…

Quero, portanto, o resto que ainda há, o último chupão do nosso cigarro, por inteiro, num encher de pulmões até à tontura. Qualquer coisa; qualquer coisa que me não faça sentir vazia, desprovida de mim até à mais pequena das partículas.

Não entendo o sentimento. Não te entendo, nem a mim. Por isso

ainda um pouco

não muito…

o resto que ainda há, o último chupão

na tua boca

nos meus dedos

nas nossas vidas.

Quando me pergunto o que ainda faço contigo a resposta que me vêm é:

“A esperança que tudo mude”.

Mas tudo já mudou. Há muito que tudo já mudou. E a verdade é que não me quero sentir estúpida por ter perdido tanto tempo

cega

(para não dizer outra coisa)

e continuar a perdê-lo contigo. E o pior é que, já tendo aguentado tudo de mau, não pode haver muito pior, o que significa

(porque assim queria que significasse)

(e outra desculpa, e outra desculpa, e outra desculpa…)

que as coisas vão mudar. Mas não vão. Eu sei, tu sabes, eles sabem… e válido para todos os tempos do verbo. Porque as coisas já mudaram e essa é a angustiante verdade com a qual não me quero encontrar

(e já encontrei).

Espero, acho

(e talvez mais uma desculpa; não sei)

por algo que venha para derrubar por completo as ruínas de nós dois. Com que cara posso eu sair à

- Rua…

da tua vida

se já te perdoei quase tudo; se já perdi toda a dignidade? Que força me pode restar para sair da

há tanto apontada

- Rua…

da tua vida?

E daí para onde?

E daí para onde, se lugar nenhum?

Nem dentro de mim

porque um vazio imenso ocupa o espaço todo e nem um cantinho de nada onde me sentar comigo a dizer mal dos homens.

Quanto mais se aceita menos se consegue argumentar connosco próprios uma fuga, um escape.

- Dissonância cognitiva!

A minha psicóloga, raios a partam, tão ceia de certezas e de seguranças, mas de perninha traçada para que a rata lhe não fuja. Juro que não queria ser vulgar!

Especial…

Especial...

Era isso que eu queria ser.

- … especial…

como tu, quando me abriste a caixinha do coração com aquele único bombom

- És uma mulher especial, Catarina.

e eu

como qualquer uma, caí.

cega

(para não dizer outra coisa)

porque não um coração, mas uma ratoeira. Não um bombom, mas um pedaço de queijo envenenado, não fosse dar-se o queijo e a ratoeira não fechar a tempo.

E agora

isto

como se todos me tivessem avisado.

De que vale um aviso diante dos olhos cegos de uma mulher apaixonada?

O mesmo que um letreiro diante de um rato, alertando

“Atenção! Perigo de morte.”

No entanto

todos a saberem muito e muito bem o que eu

- … no teu lugar…

haveria de fazer.

Mas de perninha traçada para esconder a vergonha

a insegurança, o medo, a ansiedade…

Também eu sei o que deveria fazer se estivesse no meu lugar. Mas não estou. Há muito tempo que não estou, e por isso

não consigo; não consigo: por Deus que não consigo!

Se já me entreguei toda, como posso agora reclamar o que é meu se não há nada de meu para reclamar?

vazia

mas o vazio a ocupar um espaço imenso

o espaço todo

e nem um cantinho de nada onde me sentar comigo a…

…mal dos homens.

Dei-te tudo e agora quero-me de volta. E vem-me à memória a cantilena da nossa infância; da infância dos nossos pais, dos nossos avós, que

“Quem dá e volta a tirar ao inferno vai parar!”

Mas como poderá ser o inferno pior que isto?

Como poderá ser o diabo pior que tu?

Espero, acho

(e talvez mais uma desculpa; não sei)

por algo que venha derrubar por completo as ruínas de nós dois. Mas esse algo já não vem. Não vem porque já nada há para derrubar. E tudo aquilo que eu vejo entre nós, não é senão a lembrança do que foi um dia

uma ilusão da memória

como o gosto doce nos teus dedos depois de terminado o bombom com que me prendeste a ti.

Pequei por gula… mea culpa, mea máxima culpa…

Monday, September 03, 2007

Estação terminal

- Próxima estação: Alverca

A voz metálica da gravação a despertar-me da dormência, a sacudir-me do sonho como quando em criança a minha mãe

- Diamantino.

como um alicate para um dente podre

de sono

- Diamantino.

ou

- Próxima estação…

E eu a pôr-me de pé; a andar para a porta, sonâmbulo, atrás dos demais sonâmbulos numa fila de patos marrecos rumo à plataforma da estação

ao lavatório, porque

- Diamantino.

ou

- …Alverca.

de pé, a arrastar-me para fora dos lençóis; da carruagem de flanela, com o sono pendurado nas pálpebras, como o cinzento do fim da tarde, quando Março, e os dias a morrerem quando eu a chegar a

- …Alverca.

Antes chegar de noite! Agora àquela hora; limbo indefinido de angústia e frustração; nem dia nem noite, tal como a minha existência que nem vida nem morte. Uma coisa esquisita, à qual

(porque não sou bom a dar nome às coisas)

não sei o que chamar. E porque

- …Alverca.

Arrasto-me para fora da carruagem

da cama

numa fila de patos marrecos com

- Atenção à distância entre as portas e a plataforma!

na voz metálica da gravação que

- Diamantino.

como quando em criança a minha mãe

- Próxima estação…

e eu a abandonar a estação; o meu quarto, na dormência dos dias em que se tornou a minha vida,

cinzenta

cinzentos

como os dias em Março àquela hora

nem vida nem morte

limbo indefinido de angústia e frustração

e os pés rumo a casa, num plec plec de patinhas a ganharem membranas entre os dedos

plec plec

numa distância não maior que a

- … entre as portas e a plataforma!

Um pulinho:

Duas ruas e um largo

já ali

embora eu, cansado

a perder o fôlego

só de pensar na cave, onde há vinte anos, eu e a Júlia

na saúde e na doença, na alegria e na tristeza, nas unhas dos pés crescidas e nos sovacos de quinze dias, porque os pormenores crescem em razão directa aos afectos.

A porta do prédio; o molho de chaves

O som de todos os dias a sair-me do bolso agarrado a uma rodela de estanho, onde um Santo António há muito perdeu a tinta e a paciência para me proteger. Um lance de escada. Para baixo; sempre para baixo e o cheiro do prédio a abraçar-me, como a um filho desalentado; mutilado numa guerra de todos os dias no ultramar de

- …Alverca.

E por falar em filho

o Diamantino José desde Setembro a estudar no Algarve

esperançado num futuro que o livre de

- …Alverca.

que o livre de

andar para a porta, sonâmbulo, atrás dos demais sonâmbulos numa fila de patos marrecos rumo à plataforma da estação

um curso que não entendo

- Bioquímica, pai.

da mesma forma que não entenderia

- Pedagogia do tecto falso…

- Aerodinâmica contextual…

ou

- Reprodução nuclear oceânica, pai.

E por isso também

(ou acho que por isso também)

porque

desde Setembro a estudar no Algarve

o Diamantino José

- Bioquímica, pai.

por falar em filho

- Bioquímica, pai.

(quantas vezes ainda será preciso repetir?)

por isso

também

(ou acho que por isso também)

o cheiro do prédio a apertar-me ainda mais, como os braços peganhentos de uma tia velha; como uma boca que nos enjoa mas insiste em falar connosco…

e o estômago

embrulhado

quase do avesso, porque rissóis de camarão. De certeza que de camarão

a avisarem-me por debaixo da porta:

- … de camarão…

- Diamantino.

Arroz de cenoura, uma cervejita, pão e queijo; uma peça de fruta. Maçãs. Posso jurar que maçãs.

E a chave à porta, como uma mauser apontada ao umbigo de um oponente. A televisão a chegar-me aos ouvidos na volta da chave

hesitante, contrariada

(a chave)

e um “boa-noite” maquinal e um maquinal beijo a vir-me à cabeça

o estômago embrulhado, quase do avesso

como há vinte anos

A voz metálica da gravação

anunciando

- Até ao último dia das vossas vidas.

ou talvez

(porque há muito tempo)

- Estação terminal.

Tudo tão certo!

Os movimentos irresolutos da nossa história em comum; um ranger de portas castigadas pelo vaivém das nossas incertas certezas; um

- Acabou-se!

tão seguro

tão determinado, tão determinístico

tão certo.

E se na curva do passeio, um som qualquer

trim

dling

qualquer

logo a mão à mala; ao bolso das calças

e um cuco cego num disparar de molas, cabeceando contra as costelas, procurando caminho para nos sair pela boca

porque de certeza que ele…

que ela…

Mas telemóvel algum

pelo menos na nossa mala

no bolso das nossas calças.

Até que por fim

Ti ri ri ri ri ri

na nossa mala

nas nossas calça

ele...

ela...

Porém

- Sim, mãe, eu não me esqueço!

- Népia, man, hoje não dá!

Até que um dia depois; sempre um dia depois. Quando o coração já arrítmico dos sobressaltos provocados pelos

trins

dlings

quaisquer

na curva do passeio

na nossa mala

no bolso das nossas calças

no mostrador do nosso telemóvel

um número conhecido, um nome, a embrulhar-nos o estômago como uma mão enorme. Um toque, dois, três… não mais, os suficientes para que do outro lado insegurança, os suficientes para aclarar a voz; os precisos para que a desistência não ocorra.

Um toque, dois, três

não mais

e um polegar ansioso a atender “distraído” num

- Estou?!

de quem: - “Oh, nem reparei no visor!”

distraído

de quem: - Oh, já nem me lembrava!”

- Estou?!

Cátia, Pedro

que importa!?

- Sou eu…

Cátia, Pedro

que importa!?

e um tempo suspenso, sem noção da necessidade de acrescentar

- Sou eu…

Cátia, Pedro

que importa!?

Enquanto do outro lado um

- Olá

Cátia

Pedro

cordial… amistoso… controlado: quase vazio de sentimento

- … como é que estás?

apesar de

um cuco cego

disparar de molas

contra as costelas

- Tudo bem. Olha, estou-te a ligar para te pedir uma cena.

- Diz.

- Hás-de ver se não deixei em tua casa o livro…

o dvd, o cd, a capa do telemóvel, a dentadura postiça da minha tetravó; o diabo que me carregue.

- Sim, está. Queres que to envie? - e um fazer de figas para que

- Não, deixa estar eu passo aí. Se não te importares, claro!

- Na boa!

Na boa, na boa, na boa, mil vezes na boa.

Ainda que, no entanto

- Mas quando é que querias passar por lá?

(porque por “lá” significa não estar agora em casa)

de pijama

deprimida

deprimido de roupão

e que a separação não nos amarrou de pulsos à cama com lenços de papel

embora no sofá, de pés debaixo da almofada, com o pijama dos ursinhos a que tu

- “Ficas tão querida!”

à frente da televisão, de pés nas pantufas de Koala a que tu

- “… tão querido!

a enchermo-nos de cigarros e de esperanças

de um chocolatito ou outro

a dizer

- …lá…

- …por casa?

porque não estamos nem aí, ainda que

um cuco cego

num disparar de molas… contra as costelas

a dizer

- Deixa-me ver. - como se ela muito que fazer. - Para a semana não me dá muito jeito.

(até porque uma semana é muito tempo e muita coisa pode acontecer… a contar pelo botões do comando)

- Achas que era possível passar por lá hoje?

- Hoje?

-Sim.

- Deixa-me ver. - como se ela, alguma coisa combinado; a contar pelos dedos dos pés, excitados debaixo da almofada. - Só se for lá para as sete. Por ti, pode ser?

- Perfeito.

Perfeito, perfeito, perfeito…

como

Na boa, na boa, na boa

num disparar de molas

num cabecear cego de cuco contra as costelas

(que bom!)

e nisto

- Então, vá, até logo Pedro.

e nisto

- Vá, até logo, Cátia.

e nisto

tudo a ficar certo

alinhavado, vá!