Monday, September 03, 2007

Estação terminal

- Próxima estação: Alverca

A voz metálica da gravação a despertar-me da dormência, a sacudir-me do sonho como quando em criança a minha mãe

- Diamantino.

como um alicate para um dente podre

de sono

- Diamantino.

ou

- Próxima estação…

E eu a pôr-me de pé; a andar para a porta, sonâmbulo, atrás dos demais sonâmbulos numa fila de patos marrecos rumo à plataforma da estação

ao lavatório, porque

- Diamantino.

ou

- …Alverca.

de pé, a arrastar-me para fora dos lençóis; da carruagem de flanela, com o sono pendurado nas pálpebras, como o cinzento do fim da tarde, quando Março, e os dias a morrerem quando eu a chegar a

- …Alverca.

Antes chegar de noite! Agora àquela hora; limbo indefinido de angústia e frustração; nem dia nem noite, tal como a minha existência que nem vida nem morte. Uma coisa esquisita, à qual

(porque não sou bom a dar nome às coisas)

não sei o que chamar. E porque

- …Alverca.

Arrasto-me para fora da carruagem

da cama

numa fila de patos marrecos com

- Atenção à distância entre as portas e a plataforma!

na voz metálica da gravação que

- Diamantino.

como quando em criança a minha mãe

- Próxima estação…

e eu a abandonar a estação; o meu quarto, na dormência dos dias em que se tornou a minha vida,

cinzenta

cinzentos

como os dias em Março àquela hora

nem vida nem morte

limbo indefinido de angústia e frustração

e os pés rumo a casa, num plec plec de patinhas a ganharem membranas entre os dedos

plec plec

numa distância não maior que a

- … entre as portas e a plataforma!

Um pulinho:

Duas ruas e um largo

já ali

embora eu, cansado

a perder o fôlego

só de pensar na cave, onde há vinte anos, eu e a Júlia

na saúde e na doença, na alegria e na tristeza, nas unhas dos pés crescidas e nos sovacos de quinze dias, porque os pormenores crescem em razão directa aos afectos.

A porta do prédio; o molho de chaves

O som de todos os dias a sair-me do bolso agarrado a uma rodela de estanho, onde um Santo António há muito perdeu a tinta e a paciência para me proteger. Um lance de escada. Para baixo; sempre para baixo e o cheiro do prédio a abraçar-me, como a um filho desalentado; mutilado numa guerra de todos os dias no ultramar de

- …Alverca.

E por falar em filho

o Diamantino José desde Setembro a estudar no Algarve

esperançado num futuro que o livre de

- …Alverca.

que o livre de

andar para a porta, sonâmbulo, atrás dos demais sonâmbulos numa fila de patos marrecos rumo à plataforma da estação

um curso que não entendo

- Bioquímica, pai.

da mesma forma que não entenderia

- Pedagogia do tecto falso…

- Aerodinâmica contextual…

ou

- Reprodução nuclear oceânica, pai.

E por isso também

(ou acho que por isso também)

porque

desde Setembro a estudar no Algarve

o Diamantino José

- Bioquímica, pai.

por falar em filho

- Bioquímica, pai.

(quantas vezes ainda será preciso repetir?)

por isso

também

(ou acho que por isso também)

o cheiro do prédio a apertar-me ainda mais, como os braços peganhentos de uma tia velha; como uma boca que nos enjoa mas insiste em falar connosco…

e o estômago

embrulhado

quase do avesso, porque rissóis de camarão. De certeza que de camarão

a avisarem-me por debaixo da porta:

- … de camarão…

- Diamantino.

Arroz de cenoura, uma cervejita, pão e queijo; uma peça de fruta. Maçãs. Posso jurar que maçãs.

E a chave à porta, como uma mauser apontada ao umbigo de um oponente. A televisão a chegar-me aos ouvidos na volta da chave

hesitante, contrariada

(a chave)

e um “boa-noite” maquinal e um maquinal beijo a vir-me à cabeça

o estômago embrulhado, quase do avesso

como há vinte anos

A voz metálica da gravação

anunciando

- Até ao último dia das vossas vidas.

ou talvez

(porque há muito tempo)

- Estação terminal.

Tudo tão certo!

Os movimentos irresolutos da nossa história em comum; um ranger de portas castigadas pelo vaivém das nossas incertas certezas; um

- Acabou-se!

tão seguro

tão determinado, tão determinístico

tão certo.

E se na curva do passeio, um som qualquer

trim

dling

qualquer

logo a mão à mala; ao bolso das calças

e um cuco cego num disparar de molas, cabeceando contra as costelas, procurando caminho para nos sair pela boca

porque de certeza que ele…

que ela…

Mas telemóvel algum

pelo menos na nossa mala

no bolso das nossas calças.

Até que por fim

Ti ri ri ri ri ri

na nossa mala

nas nossas calça

ele...

ela...

Porém

- Sim, mãe, eu não me esqueço!

- Népia, man, hoje não dá!

Até que um dia depois; sempre um dia depois. Quando o coração já arrítmico dos sobressaltos provocados pelos

trins

dlings

quaisquer

na curva do passeio

na nossa mala

no bolso das nossas calças

no mostrador do nosso telemóvel

um número conhecido, um nome, a embrulhar-nos o estômago como uma mão enorme. Um toque, dois, três… não mais, os suficientes para que do outro lado insegurança, os suficientes para aclarar a voz; os precisos para que a desistência não ocorra.

Um toque, dois, três

não mais

e um polegar ansioso a atender “distraído” num

- Estou?!

de quem: - “Oh, nem reparei no visor!”

distraído

de quem: - Oh, já nem me lembrava!”

- Estou?!

Cátia, Pedro

que importa!?

- Sou eu…

Cátia, Pedro

que importa!?

e um tempo suspenso, sem noção da necessidade de acrescentar

- Sou eu…

Cátia, Pedro

que importa!?

Enquanto do outro lado um

- Olá

Cátia

Pedro

cordial… amistoso… controlado: quase vazio de sentimento

- … como é que estás?

apesar de

um cuco cego

disparar de molas

contra as costelas

- Tudo bem. Olha, estou-te a ligar para te pedir uma cena.

- Diz.

- Hás-de ver se não deixei em tua casa o livro…

o dvd, o cd, a capa do telemóvel, a dentadura postiça da minha tetravó; o diabo que me carregue.

- Sim, está. Queres que to envie? - e um fazer de figas para que

- Não, deixa estar eu passo aí. Se não te importares, claro!

- Na boa!

Na boa, na boa, na boa, mil vezes na boa.

Ainda que, no entanto

- Mas quando é que querias passar por lá?

(porque por “lá” significa não estar agora em casa)

de pijama

deprimida

deprimido de roupão

e que a separação não nos amarrou de pulsos à cama com lenços de papel

embora no sofá, de pés debaixo da almofada, com o pijama dos ursinhos a que tu

- “Ficas tão querida!”

à frente da televisão, de pés nas pantufas de Koala a que tu

- “… tão querido!

a enchermo-nos de cigarros e de esperanças

de um chocolatito ou outro

a dizer

- …lá…

- …por casa?

porque não estamos nem aí, ainda que

um cuco cego

num disparar de molas… contra as costelas

a dizer

- Deixa-me ver. - como se ela muito que fazer. - Para a semana não me dá muito jeito.

(até porque uma semana é muito tempo e muita coisa pode acontecer… a contar pelo botões do comando)

- Achas que era possível passar por lá hoje?

- Hoje?

-Sim.

- Deixa-me ver. - como se ela, alguma coisa combinado; a contar pelos dedos dos pés, excitados debaixo da almofada. - Só se for lá para as sete. Por ti, pode ser?

- Perfeito.

Perfeito, perfeito, perfeito…

como

Na boa, na boa, na boa

num disparar de molas

num cabecear cego de cuco contra as costelas

(que bom!)

e nisto

- Então, vá, até logo Pedro.

e nisto

- Vá, até logo, Cátia.

e nisto

tudo a ficar certo

alinhavado, vá!

Thursday, July 05, 2007

Toma lá

Chamava-se Suzy e foi a minha primeira boneca. Recebera-a de presente no meu quinto aniversário quando o meu pai

- Toma lá.

sem embrulho, sem nada. Para não sufocar

não por desleixo

para não sufocar.

Eu compreendo, pai!

- Toma lá.

Apenas aos cinco. Antes disso, qualquer memória; vida alguma. Antes, creio que não existia. As coisas que não lembramos não existem, não é? Devo ter nascido com cinco anos. No dia em que o meu pai

- Toma lá.

Sem embrulho…

não por desleixo

para não sufocar.

Eu compreendo, pai!

Foi o dia mais feliz da minha vida. Ainda hoje é, porque foi o meu primeiro dia

pois

antes disso, qualquer memória; vida alguma.

o meu primeiro dia

por isso, não

- Trinta e oito.

quando

- Idade?

mas trinta e três

visto que

as coisas que não lembramos não existem, não é?

Tratava-a como parte de mim. Ainda me recordo do cheiro a borracha doce da sua cara, e de um cheiro mais pesado; dos seus cabelos. O cheiro abafado dos cabelos das bonecas. Um cheiro único, indescritível por metáforas ou comparações. É o cheiro do cabelo das bonecas. Dizer o quê!? O cheiro que quem nunca teve bonecas não pode compreender, por mais que

mais pesado

abafado

metáforas.

No dia seguinte dei-lhe banho e cortei-lhe o cabelo. Durante uns dias tudo normal. Mas quando percebi que não voltava a crescer, tive o primeiro contacto
não com a palavra
com o sentido - irreversibilidade - pois uma criança não tem contacto com palavras deste tamanho mal acaba de nascer.

Por isso

apenas o sentido

irreversibilidade:

o primeiro contacto com a morte; com a realidade. A minha primeira dor; primeira desilusão. Não o Pai Natal, como a muitos; não quando o meu pai

- Toma lá.

sem embrulho, sem nada. Para não sufocar

não por desleixo

para não sufocar.

Eu compreendo, pai!

Nada disso! Os cabelos da Suzy. Nada era mais real para mim e nada me custou até hoje como aquele confronto; o facto de a Suzy não estar viva.

O meu primeiro desgosto; primeiro luto. A minha primeira culpa, pois tinha sido eu a matá-la: Dalila traiçoeira. A sua vida nos cabelos. E agora nada. Nem um brilho. Apenas um amontoado de borracha e tecido pronta a decompor-se-me nas mãos.

Sem embrulho, sem nada.

Eu compreendo, pai!

Os cabelos sempre do mesmo tamanho, a única coisa a crescer era a frustração do nunca mais; a certeza que a boneca morta, ainda que não apodrecesse

ainda que de olhos abertos

se a punha em pé ou sentava -

mas nenhum brilho; pontinha alguma de vida -

o cheiro a borracha ainda presente, mas aquele cheiro mais

pesado

o cheiro abafado dos cabelos das bonecas

único

indescritível por metáforas

comparações

que quem nunca teve bonecas não pode compreender

esse

nunca mais.

E eu a perceber que nem só de olhos fechados se está realmente morto. Por isso, quando o meu pai morreu, a dor a não custar-me tanto. A custar-me quase nada. Não porque ele sempre ausente, nenhuma palavra, nenhum gesto

um embrulho que fosse

mas porque muito cedo contacto com

o sentido

não com a palavra

com o sentido apenas

pois uma criança não tem contacto com

(irreversibilidade)

palavras deste tamanho mal acaba de nascer.

E por isso habituada já. O que custa e a primeira vez, não é?

E eu a ouvir, uns anos mais tarde, que aos mortos crescem as unhas e o cabelo e a ter a garantia de que a Suzy mais que morta

pois nem unhas nem cabelo

silêncio apenas.

Morta desde sempre, uma fraude. Até nisso, a única coisa que o meu pai

- Toma lá.

desprovida de afecto, de vida

de embrulhos

cheia por mim de coisas invisíveis

ilusões

como tudo na minha vida: o meu pai; as minhas memórias de mim

desde os cinco anos

quando nasci

sempre eu a encher de coisas invisíveis

ilusões

o “não sei quê” entre nós.

Enquanto o pai

nem uma palavra, um gesto

um embrulho que fosse.

Sempre eu a

- …compreendo, pai!

Morta desde sempre. Enganada desde sempre. Eu que a tinha enterrado no jardim, porque a julgava morta e ela simplesmente

cansada

como o meu pai

- …cansado, filha.

- Não maces o teu pai, Mafalda. Não vês que está cansado, filha.

Como a Suzy. Não morta, cansada apenas…

Por isso, quando o meu pai morreu, a dor a não custar-me tanto. A custar-me quase nada. Não porque ele sempre ausente; nunca uma palavra, um gesto

um embrulho que fosse

mas porque muito cedo contacto com

o sentido

não com a palavra

com o sentido.

I.N.R.I

- O André não anda nada bem, Gaspar!

a mãe do meu melhor amigo, num desses cafés da moda, onde combinou comigo um encontro para falar do filho.

- Tu és o melhor amigo dele, Gaspar. De certeza que a ti ele ouve.

e o André

- Não me chateies Gaspar! Foda-se, pareces a minha mãe!

se eu por ventura

- Meu, o que e que se passa contigo?

- Passa-se que de um dia para o outro toda a gente acha que tem o direito de se meter na minha vida!

- Não é que eu me queira meter na vida dele. Entendes, Gaspar? Mas é que ando preocupada. Que diabo, sou mãe!

E os meus olhos a ganharem vida própria na direcção daquele peito de mãe, aflito, onde um Cristo fulgente me convidava a um abraço.

- Não pára em casa; não me dá ouvidos; só fala aos gritos; não quer estudar nem trabalhar. Eu não sei onde isto vai parar!

- Nem eu! - respondi por reflexo, incapaz de controlar os olhos.

- Mas sabes alguma coisa, Gaspar?

- O suficiente para fazer uma mulher da sua idade muito feliz! - formou-se-me no pensamento.

- Não, não. Não sei nada. - transformou-se-me nos lábios.

como que renegando aquele Cristo que me tentava os olhos. Ali estava Deus e o Diabo, à direita e à esquerda do Senhor, a testarem a minha fé, numa Santíssima Trindade, dizendo-me

- Olha para mim. Olha para mim…

num hipnotismo difícil de resistir.

- Olha para mim, Gaspar. Sabes alguma coisa?

- Hum?

- Estás-me a ouvir?

- Sim, claro! Não sei nada.

- No outro dia encontrei-lhe isto debaixo da cama.

e uma mão estendida na minha direcção com uma pratinha queimada, onde faltava o bombom, provavelmente na sua boca, a sua língua, que eu teria de buscar sem usar as mãos, como um Cristo.

- Olha para mim. - um peito aflito.

- Olha para mim. - uma cruz aflita.

e eu num esforço tremendo a fingir não reparar que a mãe do André

soutien algum

necessidade alguma de um, apesar da idade

quarenta e poucos

dois filhos.

- Nem com a irmã ele fala. E eram unha e carne.

Unha e carne, unha e carne, unha e carne…

soutien algum

necessidade alguma

e eu num esforço tremendo a fingir que a mãe do André não estava a inventar aquele pretexto todo para se fazer a mim

para me entregar ao suplício num ecce homo.

E eu num esforço tremendo a fingir que acreditava que as mulheres não todas iguais. E eu num esforço tremendo a fingir que se tinha esquecido do soutien com a pressa de falar comigo.

- Ando com a cabeça esgotada.

- Olha para mim..

Os olhos pareciam preocupados, mas os lábios…

- Olha para mim…

- E para mim.

- E para mim.

E nisto o crucifixo a mexer-se. Os braços de Cristo a forçarem os cravos

dois pinguinhos de ouro

não cravos

pinguinhos de ouro

porque para um rei é o mínimo

ainda que sendo rei do judeus

portanto

a forçarem os pinguinhos de ouro

tentado pelo abismo que se abria a seus pés. Não poderia haver pior calvário! E nisto eu cheio de inveja do Redentor; de braços esforçados contra os pinguinhos de ouro, procurando lançar-se no abismo, render-se à tentação, ao vale do inferno profundo, o purgatório indeciso entre o bem e o mal

- … o bom e o mau seio… - na explicação psicanalítica do meu pai.

ambos bons

apesar da idade

quarenta e poucos

E eu a querer que ele caísse da cruz, a querer tomar o seu lugar, o seu martírio, a Paixão por completo

vontade de gritar

- Sou eu o rei dos judeus!

- Barrabás? - Não senhor! O profeta.

a pedir a Deus que me martirizasse a mim

dois pinguinhos de ouro

três, pronto

cravos de ferro, que não sou de luxos

porque dali, com certeza que se vê melhor o mundo, a aflição dos homens

o peito de uma mãe que

- … a cabeça esgotada.

soutien algum

necessidade alguma de um, apesar da idade

quarenta e poucos

dois filhos.

- No outro dia encontrei isto

e não uma pratinha

pratinha alguma

um invólucro de borracha transparente

como se

- O corpo de Cristo.

na pontinha dos seus dedos

e o corpo de Cristo uma composição de latex

talvez por questões de higiene ou de conservação

e eu fingindo que a acreditar

que as mulheres não todas iguais.

E eu fingindo que a acreditar

que o decote apenas por causa do calor

não para torturar Cristo, ou o mais forte dos homens.

E eu com inveja daquele Mártir e de sua tentação Madalénica.

Com vontade de gritar

- Sou eu, sou eu o rei dos Judeus. O filho do Senhor. O Messias. O que vocês quiserem, mas por favor, um lugar na cruz.

dois pinguinhos de ouro

três, pronto

cravos de ferro

o que der mais jeito.

Dispenso a coroa. Não sou de ostentações.

E um suor frio a percorrer-me o corpo

uma fraqueza

de repente

- Nada. Não se passa nada!

- Gaspar!?

uma quebra de tenção, talvez

- Deve ser isso. Uma quebra de tenção!

talvez açúcar

qualquer coisa do género

mais “qualquer coisa do género”

tudo desfocado

turvo

os sentidos

qualquer coisa do género

- Gaspar!?

- Gaspar…

- Olha para mim.

- Estás bem?

- Não, não sei nada.

Hora de Almoço

Uma hora de almoço, e já lá vão dez minutos, porque nunca saio a horas e

cinco minutos mais cedo

eu de novo a subir a escada, porque não se justifica o elevador para um primeiro andar. Daí que uma hora de almoço uma força de expressão com quarenta e cinco minutos apenas. Da mesma forma a vida, que devia ser cem anos, não bem cem anos, visto que dez minutos depois; cinco minutos antes. E com a conversa já lá vão mais cinco e a hora de almoço reduzida a quarenta minutinhos apenas. Porque a partir de certa hora, minutinhos e não minutos.

A vida a encurtar, a hora de almoço a encurtar e

- Uma sandes de ovo e um sumo natural.

Saudavelzinho!

Se os ovos da capoeira da tia Alzira, não de um aviário qualquer, algures em Espanha.

O mais certo!

Saudavelzinho!

Se não os compostos químicos no concentrado de sumo que, natural, importado algures da América Latina.

Mas então o quê!? Um homem trabalha, tem de se alimentar. E que não trabalhasse, ora essa! Rápido e barato, que uma hora de almoço

não bem cem anos

dez minutos depois; cinco minutos antes.

por isso

- Uma sandes de ovo…

espanhol

- …e um sumo natural.

latino-americano

(como se a América Latina um só país)

Saudavelzinho!

E em quinze minutos eu fora, na rua outra vez, que os balcões dos snack-bares não são para fazer sala. Há mais quem queira comer e não lhe reste mais que dez minutos de vida,

portanto,

outra vez na rua

sozinho

porque nenhum colega de trabalho

ou melhor

no restaurante vegetariano, ali ao pé, onde nunca entrei. Não porque não vegetariano, mas porque o dinheiro, como a vida, a hora de almoço, a encurtar. Ou pelo feitio solitário, não sei. Se calhar apenas por não muito bem-vindo, ainda que

- Se não fosses tão amigo da carninha…

como quem diz (sem dizer)

“vinhas connosco”.

nunca me tenham convidado.

E eu apenas

- Pois!

como quem diz

“vão-se lixar!”

como para o empregado de balcão

- Uma sandes de ovo e um sumo natural.

Saudavelzinho!

- … tão amigo da carninha…

Menos quinze minutos, quatro euros e trinta; cinco com o café.

Na rua, portanto, dizia, não com os colegas de trabalho

no vegetariano

não porque vegetarianos, mas porque uma boa desculpa para eu não os acompanhar

visto que

- … tão amigo da carninha…

E eu que não acompanharia de qualquer das formas, porque o ordenado, como a vida, a hora de almoço…

eu que não acompanharia

eu que não acompanho

Podem ir a outro restaurante, não se prendam por mim!

Coitados! Sempre a privarem-se

- …da carninha…

do peixinho

Saudavelzinho!

- Se não fosses tão amigo da carninha…

Se não fosse tão amigo da carninha o quê?

Celso

Vinhas

Chamo-me Celso Vinhas!

Podem completar a frase, sem se comprometerem. Podem simplesmente

“Se não fosses tão amigo da carninha, Celso!”

- Custa muito? Hum? Custa?

Em vez das reticências

Celso

Digam:

“Se não fosses tão amigo da carninha, Celso Vinhas”

connosco

E eu, de qualquer das formas

descansados

não ia

somente

- Pois!

não tinha intenções de mais que

- Pois!

Por isso, completem a frase com o meu nome, ao menos!

Eu prometo que

- Pois!

não mais que

- Pois!

Não comprometo, prometo!

Eu feliz porque a acelerar. O tempo, a vida, o ordenado. Vinte e cinco minutos ainda; uns trocos depois das despesas pagas: um cinema, um livro; uma excentricidadezinha de quando em quando. Quem sabe um teatro; um dia uma ópera no São Carlos! E os sonhos a consumirem tempo - que é disso que os sonhos se alimentam - como pombos cheios de asas a debicarem ponteiros pelas praças fora

Pic, pic, pic, pic…

Melhor um livro. Mais tempo. Que o teatro, como o cinema, a vida ou a ópera, uma hora de almoço e

Puf

já se foi

(porque cinco minutos mais cedo… de novo a subir a escada… não se justifica o elevador para um primeiro andar)

enquanto o livro, o mesmo preço, e uma longa metragem, uma série.

Sigo pela avenida, procurando o Sol por entre a ramagem, e sento-me a admirar um canteiro, onde um carreiro de formigas (sem pausa para o almoço) m m m m m m m m m m m m, em filinha, m m m m m m m m m m m m

sem pausa para o almoço que as formigas

- … se alimentam de trabalho! - como diz o patrão Esteves, ao ver-nos sair para o almoço

- Vocês deviam era ser como as formigas que…

Realmente nunca vi uma formiga a comer. Desde criança que me despertam o interesse. Quando será que pausam para o almoço? Lá em cima devem-se fazer a mesma pergunta!

Será que almoçam juntas? No vegetariano uma e outras

- …tão amigas de carninha…

E nisto, eu de cócoras, a aproximar os olhos

não bem olhos

as antenas

(digamos que antenas, para facilitar)

e a cabeça toda já dentro do formigueiro, o corpo todo numa marcha rápida que a vida não bem cem anos

dez minutos depois; cinco minutos antes.

e túnel após túnel, galeria após galeria, num correr desalmado, cada qual com a sua folhinha na boca

a sua pasta

o seu jornal

qualquer coisa que não distingo porque sete minutos apenas e ainda duas ruas um túnel, uma praça ou galeria

cheias de m m m m m m m m m m m m, em filinha, m m m m m m m m m m m m, num agitar louco que

Lá em cima

a mesma pergunta

despertam o interesse

para cá, para lá, para cá, para lá…

como pombos cheios de asas a debicarem ponteiros pelas praças fora

Pic, pic, pic, pic…

e

cinco minutos mais cedo

a desembocar

na minha galeria

de olhos afogueados

não bem olhos

antenas

(digamos que antenas, para facilitar)

a subir a escada, porque não se justifica o elevador para um primeiro andar.

Thursday, May 31, 2007

Tá bem, tá!

- Se não larga o tabaco de hoje para amanhã, não lhe dou seis meses de vida!

O médico a querer assustar-me. É o papel deles, eu compreendo. Afinal, a não ser que

acções da Tabaqueira

que outra coisa podiam dizer? Mas se o tabaco fosse aquilo que os médicos apregoam, nenhum médico fumava, e alguns

mais que as chaminés da antiga “Cimentejo”

por isso, quando o doutor Rui

- Se não larga o tabaco de hoje para amanhã...

eu a pensar

- Tá bem, tá!

- Estes pulmões quase não se vêem! - com a radiografia diante de um painel luminoso.

Mas eu sabia que estavam lá. Sentia-os muito bem. Cada dia mais pesados, cada dia mais concretos, a dizerem-me, num amarrotar de saco de papel, “estamos aqui, sim, Eurico, não te preocupes! A propósito, não tens para ai um cigarrinho, não?”.

E eu

a propósito

até tinha

ainda que

- … de hoje para amanhã…

De modo que, mal sai do consultório, tau, um cigarrinho pós queixos; que a mim não me apanham nessa!

- Tá bem, tá!

Qualquer coisa que um homem tem

- É do tabaco!

E antes de haver tabaco? Ninguém morria, qués ver! Não sabem o que um homem tem, e então

- Estes pulmões quase não se vêem!

- Não se vêem ou você não percebe nada do ofício? - é o que dá logo vontadinha dum gajo perguntar! Mas o quê?!

Eu bem me lembro do Carlos. Todo desporto e dietas e olha, faz para o mês que vêm oito anos que um cancro no estômago o levou.

Valeu-lhe um bocado a canseira e a fome! E agora digam-me a mim que é o tabaco.

- Tá bem, tá!

Tanta corrida e tanta fruta, e olha, já lá está. Essa é que é essa! Enquanto que aqui o Eurico ainda cá anda… a carregar dois pulmões vivinhos, que bem os sinto…

Cada dia mais pesados, cada dia mais concretos, a dizerem-me, num amarrotar de saco de papel “estamos aqui, sim, Eurico, não te preocupes! A propósito, não tens para ai um cigarrinho, não?”.

De modo que, mal sai do consultório, tau… que a mim não me apanham nessa!

E apesar de Novembro, o céu particularmente carregado, numa escuridão radiográfica contra a luz fosca do Sol

- Estes pulmões quase não se vêem!

como as casas ao fundo da rua, o horizonte do Tejo. Mas que lá estão, estão; como os meus pulmões que

Cada dia mais pesados … num amarrotar de saco de papel… não te preocupes

Eu…

…rico

Portanto, o que é preciso é chegar mais perto

(O problema dos curtos de vista!

…o papel deles, eu compreendo.)

e lá estão as casa, os pulmões

Só que ninguém, para Lisboa,

- Se não larga o tabaco de hoje para amanhã, não lhe dou seis meses de vida.

Porque o mais certo era ouvirem logo

- Tá bem, tá!

Que Lisboa

(tal como eu)

não vai nisso!

O meu pai fumou até aos oitenta e quatro anos e, não fosse ter perdido os olhos antes dos pulmões, ainda hoje estaria vivo, que quem se desvia dos eléctricos a tempo vive pelo menos até aos cem. Disso é que deviam avisar as pessoas!

- Se não sai da linha agora não lhe dou seis meses de vida.

Qual seis meses?! Nem nada!

O perigo está é nessas coisas. E é por essas e por outras que eu, dos Restauradores para São Pedro de Alcântara, a penantes que é uma beleza. Que a mim não me apanham num eléctrico, nem que os pulmões

- Bem, Eurico, vamos andando. Agora é que é!

A calçada da Glória um purgatório, mas

uma paragenzinha pelo meio

um cigarrinho

A propósito…

e cá estamos nós prontos para mais uma tirada, que daqui ao Rato é um pulinho. Por isso, se os pulmões não estivessem bons, subia a calçada mas era o subias.

- E já viu essa tosse?! Parece um cão com esgana!

E eu a ver que era aí que estava o problema. O doutor Rui a perceber mais de bichos do que de gente. Acontece a muitos! Não seguiu veterinária e olhem

- …quase não se vêem! - com a radiografia diante de um painel luminoso.

como as casas ao fundo da rua, o horizonte do Tejo.

- Não se vêem ou você não percebe nada do ofício? - logo a vontadinha que dá! Mas o quê?!

Mais cinco minutos e faço-me de novo ao caminho

que as pernas

não os pulmões

que esses

… não te preocupes!

as pernas é que já não são o que eram.