Tuesday, September 30, 2008

Jessica, meu Amor

Era Verão e eu tinha cinco anos. Não me lembro do mês

Agosto

porque sempre Agosto

(soube-o mais tarde

pois uma criança de cinco anos não distingue os dias, quanto mais os meses)

que os meus pais

a caminho do Algarve. Não me lembro para que terra

Lagos

porque sempre Lagos

(soube-o mais tarde

pois para uma criança de cinco anos as praias todas iguais

areia e mar)

De modo que em Agosto

1980

Lagos

conheci a Jessica

(olhos azuis, canudinhos louros)

e apaixonei-me pela primeira vez na vida. Não sei que idade tinha

ela

eu cinco

talvez a minha

ela

(nem o soube mais tarde

pois para uma criança de cinco anos só há pequenos e grandes).

Era linda e eu

cinco anos

apaixonado por ela

(soube-o mais tarde

pois uma criança de cinco anos não sabe o nome das coisas boas que sente).

Estávamos no parque de campismo e a Jessica

na tenda da frente.

Os nossos pais não se conheciam

(soube-o mais tarde

pois para uma criança de cinco anos todos os adultos se conhecem).

Cumprimentavam-se com cordialidade

os nossos pais

com a cabeça

e sorriam

(cumprimento natural entre adultos de línguas diferentes).

Eu e a Jessica entendíamo-nos na perfeição. Qualquer coisa de exótico. Eu repetia palavras na sua língua

(não sabia qual era)

(nem o soube mais tarde

pois para uma criança de cinco anos o mundo é pré-babeliano)

e ela em português.

Não sabia o que queria dizer cavalheiro, ou qual o significado da palavra amor, mas era delicado com ela e tenho a certeza que a amava.

Passávamos os fins de tarde a brincar em frente à sua tenda. Havia uma boneca que era a nossa filha

Jully

(escolha dela)

e eu entendi que a Jessica e eu estávamos casados. Não necessitámos de papéis, testemunhas, intermediários entre nós e Deus.

Ela preparava bolos de terra e folhas e dava-mos a provar. E eu mostrava-lhe serem deliciosos, que mais ninguém cozinhava como ela

nem a mamã

e deliciava-me a comê-los com toda a verdade do faz de conta.

Uma manhã os meus pais encontraram os dela na praia e estenderam toalhas por ali, ao lado dos senhores loiros, olhos azuis, com os quais trocavam sorrisos sem dizer nada. Uma palavra ou outra que talvez não fosse comum a nenhum dos quatro. Não nos importava isso. Ficámos felizes. Vi nos olhos dela o brilho, por minha causa, e fiquei tolinho. Corri para a água, dei saltos e gritos e creio que nunca mais tornei a estar pleno daquela maneira. Tenho a certeza de ter sido o dia mais feliz da minha vida, a maior explosão de alegria que algum dia senti e, não sabendo o que isso era, estava, ainda assim, no paraíso. E o paraíso não é relvado, cheio de árvores carregadas de frutos e prados verdejantes cheios de animais, mas uma praia

em Lagos

areia e água

e um cheiro a mar que nunca mais acaba.

Foi a minha primeira exibição de macho nascente, a minha primeira dança de acasalamento. Jessica ria. Estava feliz, e os seus olhos azuis continham todo o céu e o mar inteiro

como eu

feliz

achando-me lindo, divertido, o máximo, e não tinha sentidos para mais menino nenhum. E com os olhos dos nossos pais alerta, sentámo-nos nus, na areia molhada (num tempo em que no paraíso ainda não se usavam parras para cobrir a vergonha) a construir um castelo

onde ela

a minha princesa

e eu

o príncipe dela…

a fazer um para o outro

pequenicoisas

a partilhar o amor que era estar ali

feliz

sem outra noção do mundo

porque o mundo inteiro aqueles olhos azuis no castanho dos meus, e tudo o mais uma paisagem pintada, onde os banhistas não mais que gaivotas depenadas esparramadas ao sol.

Dei por ela a descobrir-me, e à diferença entre nós, a achar graça àquela coisinha pendurada de mim

e eu

a intrigar-me por ela não ter

Olhou de mais perto, riu-se

ri-me também

e assim ficámos

a rir e a olhar.

Achava-a tão bonita, e queria ficar a olhá-la até adormecer. Os olhos céu, o mar imenso, e a praia toda nos seus cabelos

(canudinhos louros)…

E ao outro dia

noutro dia

no mesmo dia

ou num outro dia

não sei bem

(nem o soube mais tarde

pois para uma criança de cinco anos os dias não são bem seguidos)

a Jessica a dizer

numa língua só nossa

- Tu agora vais trabalhar que eu fico em casa a tomar conta da bebé.

Jully

E eu saía no meu triciclo, a fazer barulho de um carro com a boca, apitando para os triciclos invisíveis à minha frente, cheio de presa, e dava uma volta ao alvéolo, regressando ao fim do dia, cansado, um minuto depois.

- Quanto é que ganhaste, marido? - perguntava-me mal chegava a casa.

numa língua só nossa

- Mil contos - todo orgulhoso.

- Então dá-me para eu comprar comida para a bebé.

Jully

E eu dava-lho, e a Jessica ia às compras, e vinha uma eternidade depois carregando pinhas e folhas e pedras e cascas e tampas e papeis

que uma mulher não se pode deixar à solta num supermercado, nem que este seja a fazer de conta

dizendo

- Já está. Agora vou fazer o jantar e tu vais ver televisão.

Insistia que a queria ajudar, mas a Jessica

numa língua só nossa

- Não. Tu tens de ver televisão.

e eu via… até que

- Já está.

o jantar servido, a casa arrumada e a Jessica

- Agora vamos dormir.

numa língua só nossa

E deitávamo-nos num cartão à entrada da tenda e, mal fechávamos os olhos a Jessica

- Trim, trim…

- Acorda, marido, tens de ir trabalhar.

e eu

- Ainda é cedo.

mas ela determinada, dizia que

- A Jully tem de comer.

e eu lá me levantava e saía no meu triciclo…

- Trim, trim…

até ao fim do dia, daí a nada.

Não era fácil a vida, mas o amor era tudo.

Até ao fim

do dia

da semana, do ano, das bodas de prata

não sei

(nem o soube mais tarde

pois para uma criança de cinco anos os dias não são bem seguidos)

ao regressarmos da praia

a tenda dela já lá não estava

apenas o lugar onde tinha estado, um fantasma em forma de rectângulo vazio

as costas da mamã quando o fato de banho no chão.

Olhei em volta, chamei

- Jessica…

não ouvi senão

- Jessica…

gritei

- Jessica…

e de novo apenas

- Jessica…

e uma angústia crescente, uma dor inexplicável, uma espécie de traição a ferrar-me os dentes no estômago, no coração

não sei bem onde

na alma

(soube-o mais tarde

pois uma criança de cinco anos não distingue uma dor da outra)

a não aceitar

mais do que a não compreender

a não aceitar

cheio de lágrimas

que me abandonassem a vida sem um aceno, sem um olhar, sem uma palavra

(numa língua só nossa)

às portas da morte

apesar da voz da voz da minha mãe

(do meu pai nem tanto)

da minha mãe

a garantir que

- É a vida, filho. É a vida.

Friday, September 12, 2008

Há dias…

Há dias, como hoje, em que não sei o que faça da vida… e não faço nada. Não por inércia, não por inépcia, senão por não ter vida nesses dias e portanto não saber o que lhe faça. Parece que acordo cansado, como quem desperta de uma morte clínica, de um longo sono, de um desmaio ou de uma distracção provocada pelo tédio de não ter vida
ou sentido para ela
que vai dar ao mesmo
ao Tejo
ao mar
ao fim do mundo.
Há dias em que um revólver não bastaria para pôr termo à existência. São os dias em que a vida é um fantasma… e os fantasmas não morrem a tiro. Sabemo-lo desde a cama de grades.
- E os que não tiveram cama de grades? - perguntarão os que não tiveram camas de grades
- Que se fodam os que não tiveram cama de grades!
Portanto
desde a cama de grades que
(sabemos)
não morrem a tiro
os fantasmas
Morrem num raspar de fósforo pela lixa, num clic de lanterna, num golpe de interruptor… morrem quando se faz luz; como o desespero das ideias falhas, que é o fantasma de não alcançar resposta, como eu, nos dias em que não sei o que faça da vida, porque a não tenho.
É preciso luz para afastar os fantasmas. Foi o que Deus fez para afastar os seus. Que Deus não era senão um menino perdido no meio de um quarto escuro, borrado de medo. Acendeu o candeeiro
Electrosónico já
sensível à voz da criança
(desmembrada de nascença)
programado
(o candeeiro)
para acender quando o pequeno
- Faça-se luz.
Achou-lhe graça e seguiu ditando ordens. Passou-lhe o medo
o sono
e criou montanhas e rios e árvores e flores e bichos e um papá e uma mamã e brincou com eles. Que os meninos sem braços tem muita imaginação.
Era ele agora quem mandava. Ele agora quem ditava leis. Ele agora quem dizia: aqui pode-se, aqui não. Essa árvore é minha e vocês não pode mexer. E os papás andavam nus, como ele sempre quisera ver. E os papás fraquejaram, como ele sempre quisera ver. E os papás cometeram delito, como ele sempre quisera ver. E os papás teriam de ser castigados, como ele sempre quisera ver. E os papás foram expulsos de casa, como ele sempre quisera ver. E os papás morreram de fome e de frio e de dor e de velhos e de tristeza, como ele sempre quisera ver. Que os meninos sem braços são “mais maus” que os outros meninos.
Depois a brincadeira perdeu a graça, mas era tarde, já, para os trazer de volta, pois tal com há dias em que um revólver não bastaria para pôr termo à existência, outros dias há em que adormecer e acordar não chega para corrigir o acontecido. E por isso Deus chorou, revoltado
não consigo
claro
que era perfeito
apesar de desmembrado
(são sempre perfeitos os aleijadinhos
coitadinhos dos aleijadinhos
sempre desculpabilizados, os aleijadinhos
não fazem por mal
os aleijadinhos
temos de compreender os aleijadinhos…
Puta que os pariu
aos aleijadinhos)
de modo que
(não consigo)
revoltado
com os pais, por terem morrido.
E quis partir coisas
mas não tinha bracinhos
e quis arrepelar os cabelos
mas não tinha bracinhos
e chorou de raiva
formou dilúvios
atirou-se ao chão, mordendo a alcatifa do paraíso, como quem quer ferrar o mundo inteiro e a boca não lhe chega
e chorou, e chorou, e chorou… mas não havia papás para lhe aparar as lágrimas, ninguém. Viu a caixinha da plasticina
alcançou-a com os pézinhos
e procurou fazer mais gente
diferente
diferente
sempre diferente
mas não eram os seus papás
eram bonecos vazios, descarregados de emoção, de amor, como eu de vida
certos dias
como hoje
em que não sei o que dela faça, e por isso…
e por isso acabo por não fazer nada, porque isto que aqui se passou, foi
diga-se
rigorosamente nada.

Thursday, September 11, 2008

Sentimentos cruzados

Os teus óculos escuros, fixos no xadrez desordenado das palavras cruzadas, imóveis, como os olhos de uma
não queria dizer mosca, mas
mosca
à cata de sinónimos para matar o tempo, que a minha companhia
pelos vistos
não suficiente.
A Costa quase vazia e nós
dois
(tu de folga e eu com uma indisposição aguda que me obrigou a)
- Passei a noite a vomitar, chefe, não consigo ir trabalhar hoje.
porque tu
- Vamos à praia amanhã?
e algo a cair-me mal, de modo que
- Passei a noite a vomitar, chefe…
E como a meio da semana a Costa quase vazia, nós os dois
que é dizer
tu e eu
diferente de nós os dois
a aproveitar os primeiros raios quentes de Maio.
Eu, pela tua companhia
tu
pelo meu carro
que de Lisboa à Caparia ainda uma estopada de transportes. Resumindo num esquema paralinguístico: eu porque tu, tu porque eu, não porque eu, mas porque eu popó. Ou no jogo do teu livrinho de xadrez desorganizado
"Sujeito que é levado pelo engodo a fazer tudo quanto um outro quer ainda que no fim fique a chuchar no dedo grande do pé?"
como se tu me perguntasses
ou tu a perguntares-me
- Sinónimo de simpático?
não
sinónimo de
"Sujeito que é levado pelo engodo a fazer tudo quanto um outro quer ainda que no fim fique a chuchar no dedo grande do pé?"
mas
- Sinónimo de simpático?
seis letras
e eu
a pensar
otário
a responder
(otário)
- Gentil!
apesar de
otário
pois só um
como eu
otário
a meio da semana
responderia
béu, béu
como um cão
seis letras
béu, béu
- Vamos, pois!
quando tu
- Vamos à praia amanhã?
feliz, porque tu
contente
pois de carrinho até à praia, descapotável ainda por cima, apanhada e deixada à portinha de casa. A perguntares-me já só no caminho
- Não trabalhavas hoje?
e eu
(otário)
todo inchado, como se o dono daquilo tudo, a responder
- Trabalhava, dizes bem.
como se
dono daquilo tudo
(- Passei a noite a vomitar, chefe, não consigo ir...)
para que tu me achasses o máximo
(otário)
um grande maluco
(otário)
o gajo ideal para ti…
O…T…Á…R…I…O…
e não
gentil
sinónimo de simpático
seis letras
mas sim
otário
o mesmo é dizer
sujeito que é levado pelo engodo a fazer tudo quanto um outro quer ainda que no fim fique a chuchar no dedo grande do pé.
E tu
quando eu
- Trabalhava, dizes bem.
todo inchado, como se o dono daquilo tudo
a dizeres
- Só tu!
um torrãozinho de açúcar
ao urso, à cavalgadura, ao burro
(otário)
a repetires
- Só tu!
e eu
só eu
todo inchado
a ouvi-lo como queria ouvir
no sentido
“És único!”
“O único, tu!”
e não no sentido que tu
- Só tu!
o mesmo é dizer
“Mais nenhum otário se sujeitaria a tanto em troca da nada!”
Pois as mulheres não gostam homens que se sujeitam a tanto em troca da nada, percebes ó
O…T…Á…R…I…O…
Não para homens delas. Não para lhes fazerem filhos
para criá-los, talvez
para sustentá-las, talvez
para as levar à praia a meio da semana…
nem sequer para companhia
o preço, apenas
pois
companhia nenhuma
visto que tu
óculos escuros
fixos
no xadrez desordenado das palavras cruzadas, imóveis, como os olhos de uma
não queria dizer mosca, mas
mosca
à cata de sinónimos para
otário
tanso
urso
cavalgadura
burro
Rodrigo
Merda!
Tu de olhos fixos no livrinho de quebra-cabeças e
eu de olhos fixos em ti
por debaixo do braço que me escondia o rosto
(ainda que não escondesse não repararias)
fingindo dormir
(O que as mulheres gostam de homens chatos que fingem dormir!)
de olhos fixos nas linhas de ti
no teu seio espalmado contra a toalha
os pêlos alourados do teu pescoço
vontade de chegar mais perto.
(Já nem falo num beijo!)
apenas mais perto
a cruzar palavras na horizontal e na vertical
jamais
Rodrigo e Tânia
como nos plátanos da escola
a cruzar palavras
horizontal
vertical
Samuel e Tânia
Edmundo e Tânia
Narciso e Tânia
Filgebrino e Tânia
Gonçalberto e Tânia
Edmiotério e Tânia
mas jamais
Rodrigo e Tânia
como nos plátanos da escola
a cruzar palavras
de olhos fixos em ti
horizontal
vertical
no teu seio espalmado contra a toalha
os pêlos alourados do teu pescoço
vontade de chegar mais perto.
(Já nem falo num beijo!)
apenas mais perto
até que a não aguentar mais e
a perguntar
- Não pões protector?
(todo protector)
e tu a desculpares-te
que
- Não está calor suficiente para isso.
(para as minhas mãos em ti)
não calor suficiente para as minhas mãos em ti
(otário).
Antes um escaldão que os meus dedos por ti.
E um pequeno silêncio
depois silêncio
e eu a voltar ao sono fingido
fingindo que dormia
como tu que percebias alguma coisas de palavras cruzadas
até que
- Sentimento esdrúxulo com quatro letras
e eu
sem pensar
- Amor!
e tu
- Pois, mas começa por P.
e eu
- Então é pena…
e tu
- É isso!
a repetires para ti
- É isso!
e eu
- É isso…
a repetir para mim
- É isso…

Friday, August 29, 2008

O Antigo Monumental

Desde que deitaram abaixo o Monumental que nunca mais foste o mesmo. Estávamos casados havia dois anos e o amor prometia planícies de lírios em flor. Eu sei que tu não gostas de falar sobre este assunto, mas eu não consigo guardar tudo para mim e não tenho amigas, como tu sabes. O que tu ganhavas chegava
- …para os dois…
insistias
- … e assim o pequeno…
Paulo Filipe
(não me lembro de alguma vez lhe ter ouvido o nome na tua boca)
- … o pequeno…
passava mais tempo comigo, que
- O mal da Revolução foi esse!
dizias e eu acreditava
- Desintegrar as famílias.
E como em casa não se fazem amigas, e num prédio de doze apartamentos não se conhece ninguém
bom dia, boa tarde
que à noite já é para se ter a porta trancada, que
- O mal da Revolução foi esse!
não tenho amiga alguma.
A dona Odete? Não! Conhecida apenas.
bom dia, boa tarde
que à noite
vai dormir ao lar
- O mal da Revolução foi esse!
Por isso, Zé, tem lá paciência, mas preciso de falar com alguém. Não é ser chata, Zé, é ser tua mulher, é estar à toa! É não saber o que se passa e tu não falares comigo. Quase não olhas para mim e nunca te deitas à mesma hora que eu. Ah que Deus que tu trabalhas e sustentas a casa. Caramba, Zé! Então e o meu trabalho não custa nada? Quanto pensas que leva uma empregada hoje em dia?
Parece que é só o cheque que distingue o trabalho da obrigação. Mas se eu não tenho cheque é porque o que tu ganhavas chegava
- …para os dois…
Mas já éramos três, Zé! Já éramos três.
- … o pequeno…
Sim, o pequeno, Zé
Paulo Filipe.
E é só por isso que não ponho um cheque ao lado do teu. Como os bilhetes, alianças de papel, sobre o balcão do Monumental, quando tu, mais tempo a olhar para mim que para a tela, a suar-me a mão nas matinés de domingo, e ao meu ouvido
- És tão bonita, Rosa!
Ai, meu Deus! Nem imaginas as saudades, Zé! Uma mulher nunca se esquece destas coisas.
Sempre ali, aos domingos. E depois do filme, avenida abaixo, mão dada, desde que chegavas até me deixares à porta dos meus pais
Rua do Salitre, 31
de mão dorida
tão feliz
porque tu no meu ouvido
- És tão bonita, Rosa!
Tão feliz
até à hora de dormir, contigo ali, apertadinho nos dedos. Ai, Zé! Uma mulher nunca se esquece destas coisas.
Uma cerimónia simples. Estavas tão nervoso… tão bonito, Zé. A igreja dos Anjos…
e o amor prometia planícies de lírios em flor
De lírios em flor, Zé!
Delírios em flor…
Dois anos de felicidade. Três de namoro. Até que
vai a baixo o Monumental
e tu
alguma coisa em ti
a ir abaixo também.
Insistias não ser nada: o trabalho, a reprografia, o cansaço, as responsabilidades
altas horas
e eu
sozinha
com o Paulo Filipe
(Sim, o pequeno, Zé!)
até tu
altas horas
pé ante pé para debaixo do lençol
e eu
sem pregar olho
a fingir que dormia, a sentir-te torturado, com vontade de me agarrar a ti, entrançar os meus dedos nos teus, e ficar ali
como antigamente
apenas ficar
ali
como antigamente
na almofada morna do teu ombro… mas
a não mexer um músculo
a fingir
a sentir-te torturado
a torturar-me
porque tu nunca gostaste de falar sobre este assunto.
Eu entendo, meu querido! Também amava o Monumental
o nosso refúgio
(três anos de namoro)
Por ti tínhamos casado lá. Mais sagrado que a igreja do Anjos. Mas a família, as tradições…
Bem dizes não ser nada disso. Disfarças. Mas eu conheço-te, Zé. São muitos anos. Tenho ouvido psicólogos na televisão a falarem dessas coisas
traumas.
Há mais gente que ficou assim. Olha a Laura Alves, coitadinha! Dizem que tudo se resolve. Mas fala comigo, Zé. Por favor fala comigo. Senão começo a criar macaquinhos no sótão
como tu dizes.
O que é que te custa descansar-me, Zé?
O metro, a hora de ponta, toda a gente ao monte, homens e mulheres
(é normal que cabelos louros na lapela, um perfume estranho)
eu sei.
Mas o que é que te custa dizer-me
metro
hora de ponta
gente ao monte
homens e mulheres
amante nenhuma…
O que é que te custa, Zé
por causa do Monumental
que me amas
que
- És tão bonita, Rosa!
o que é que te custa, Zé? O que é que te custa?

Saturday, July 26, 2008

Eta frescura braba!

Cliente estranho sempre aparece! Uns até acho graça. Ficam assim de bobinho, querendo ser nosso pai e nosso filho ao mesmo tempo. Mas outros, por Deus, que não há quem aguente. É o caso de um cara dos seus cinquenta e tantos que a única coisa que quer é melar meu corpo durante uma hora inteira. Cinquenta minutos para ser mais exacta.
Não sei porque continuo recebendo ele. Aliás, sei sim. O cara me paga como nenhum outro. Normalmente cobro por hora
Cinquenta minutos para ser mais exacta.
duzentos euros
mas o preço varia um pouco conforme a variedade da coisa. Tem cliente que chega a deixar quase o dobro e outros que vêm sempre com um carinho extra. Mas esse, me deixa quinhentinhos, direitinhos, na mesinha.
E apenas para fica no chove não molha, no beijinho bobo.
É por isso que eu sigo fazendo ele. Depois que ele sai, fico meia hora no chuveiro, esfregando a pele como se coberta de um grude melento que parece não sair por nada desse mundo. É como se os seus beijos se entranhassem por debaixo da pele.
Da primeira vez em que ele
- Tenho um pedido muito especial a fazer-lhe.
fiquei logo com a pulga atrás da orelha. Sempre que um cliente chega com esse papo mole, vem bomba na certa.
- Queria ficar apenas a contemplá-la. A vê-la nua.
Não falei? Fiquei gelada. Na minha profissão a gente também se acanha. Para quem pensa que é tudo moleza. É sempre preferível o cliente tradicional. Chega, faz o tem a fazer, paga e se despede. Quanto menos frescura melhor. De preferência que seja simpático, atencioso e meigo. Mas entre um cara bruto e um cara fresco… não sei mesmo o que é pior.
E aí foi. Tirei a roupa, me deitei na cama… não disse nada. E ao final, quinhentinhos na minha mão. Nem queria acreditar. Nunca tinha ganho dinheiro desse jeito. Nuinha sobre a cama… Deus do céu! Vê se pode!? E o cara ali, me olhando, como se uma pintura famosa ou uma borboleta rara.
Da segunda vez
mal reconheci a voz no celular
(faz parte do meu trabalho. Afinal a gente tem de se proteger de algum jeito. E a voz - o papo - é o primeiro filtro)
ainda hesitei em aceitar, mas
pô
o cara foi generoso, delicado comigo. E apesar da frescura…
quinhentinhos na minha mão.
Por isso
(quem sabe se não volta a pagar bem! Se não for assim, não aceito mais)
- Na quarta está bom para você?
- …
- Às sete? Deixa eu ver.
É sempre bom dar a ideia de que se tem de dar uma checada na agenda preenchida.
- Às sete para mim está perfeito.
- …
- Até lá, então!
No dia e hora marcados lá estava ele de novo, cheio das frescuras. Dessa vez
- Permite-me que a cheire?
E ao meu consentimento mudo com a cabeça começou a me fungar por todo o corpo. Me senti como um traque no meio de um ônibus cheio de gente. Mas, fazer o quê? Nunca me tinha sentido tão desnuda diante de ninguém e, para quem diz que é “vida fácil”, foi porque nunca se sentiu bunda de cachorro farejada. O sujeito me cheirava por debaixo do meu perfume; me procurando onde eu sou de mim e de quem me quero dar. Me sentindo nua por debaixo da minha própria pele. Invadida. Não sei explicar. Um negócio estranho; perturbador. Porque a nudez não está na roupa que se tira e era precisamente essa intimidade que ele buscava em mim.
Faz dois meses já que faço esse cliente e, de cada vez que vai, nunca me deixa sem os quinhentinhos. Não sei até quando seguirei fazendo ele. Talvez até ao dia em que ele com o papo de
- Permite-me que a lamba?
pois já passou da festinha para o beijinho
e temo que quando esse dia chegar, o seguinte seja para me comer. Não seria isso um problema se fosse ele um cara normal. Mas com tanta frescura, receio bem que me queira comer de faca e garfo e não com o talher de pau que Deus lhe deu. Se é que Deus lhe deu algum!

Há pessoas que nascem para serem únicas

Há pessoas que nascem para serem únicas. Não, não são todas. Mas é o caso do Hilário. Dono de um potencial inacreditável e de um Snack-bar na Avenida de Paris
(zona privilegiada da cidade).
Cursou engenharia electrónica no Instituto Superior Técnico e sempre viveu ali perto, na casa que ainda hoje habita, depois do súbito desaparecimento do pai
(- … a PIDE.)
e da morte da mãe. Por isso não terminou o curso
no qual
assegura
(e ninguém tem motivos para não crê-lo)
não havia pai para ele
porque o Hilário
- Conheci pessoalmente o Elvis Presley.
numa das muitas viagens que fez aos Estados Unidos.
Mas a vida dá mais voltas que um tambor de uma máquina de lavar, e umas vezes está-se por cima e outras enrolado de cabeça para baixo.
Poucas coisas, para não dizer nenhumas, havia que, contadas por outros, não tivessem acontecido ao Hilário levantadas à potência. De modo que, quando um dia o Paulo Luís
cliente habitual da casa
- Arranjei um sarrabulho no Cais do Sodré ontem à noite, que se não fosse a bófia ter chegado a tempo, tinha desgraçado a minha vida.
todos torcemos nariz.
- Três sacanas estiveram mais de uma hora a espicaçar-me a paciência. E vocês sabem que se há gajo pacífico sou eu.
O Paulo Luís fora praticante de luta livre em novo
(treinado pelo grande Tarzan Taborda)
e só nunca entrou em competições para não matar do coração a senhora sua mãe, a quem faltava o ar sempre que o filho metia a roupa do treino no saco e saía para a Caparica. Um campeão sem nunca ter competido. E não houve falta de ofertas para que o “Cordeiro Negro” entrasse no ringue para matar.
- Este tipo é perigosíssimo!
(ouviram uma vez o mestre Taborda dizer)
- É melhor mesmo que nunca entre no ringue. No dia que entrar… - e pendurou a frase, passando o polegar pela saliência do pescoço
E nada disto era mentira, porque no dia em que Paulo Luís pisasse o ringue, a sua pobre mãe haveria de cair para o lado, mortinha da Silva.
No entanto, quando o PauloLuís
- Arranjei um sarrabulho no Cais do Sodré ontem à noite…
todos torcemos o nariz.
Não que fosse uma história impossível, mas…
De qualquer das formas éramos testemunhas que se havia gajo pacífico era ele.
O Hilário, a respeito disso, declarou logo
- A mim, uma vez…
(assim começava sempre as suas histórias)
- … no México, tinha ido com um grupo de camaradas
(era um comuna dos sete costados, como o pai)
- …a um bar, fora do hotel. E nisto, um grupo de mexicanos cai-lhes em cima na hora em que eu vou à casa de banho. Assim que volto e vejo aquele sarrabulho… meus meninos… nunca na história do México caiu uma tempestade de cadeiras pelos cornos abaixo como aquela noite! Se não eram trinta, não eram nada! Deixei ali uma despesa, que nem a vida toda a alombar daria para pagá-la. Nem a polícia escapou!
E nós a não duvidarmos, porque há pessoas que nascem para serem únicas. É o caso do Hilário, dono de um potencial inacreditável
(única coisa inacreditável nele)
e de um Snack-Bar na avenida de Paris.
(zona privilegiada da cidade).
Cursou engenharia electrónica no Instituto Superior Técnico e sempre viveu ali perto, na casa que ainda hoje habita, depois do súbito desaparecimento do pai
(comuna dos sete costados)
e da morte da mãe. Por isso não terminou o curso
no qual
assegura
(e ninguém tem motivos para não crê-lo)
não havia pai para ele
porque o Hilário
- Quantas vezes não vêm aqui professores do Técnico tomar uma cervejinha, como quem não quer a coisa e, vai no fim, tumba, estão a tirar dúvidas comigo. Colegas meus, da faculdade, pois. Eram umas nódoas. E hoje, professores! É assim a vida! Meus amigos, isto quem não tem paizinho nem padrinhos, está tramado e bem tramado! De modo que eu, que não sou um tipo orgulhoso, tiro-lhas todas como se fossem criancinhas de seis anos. Está aqui o Lerpa que não me deixa mentir.
e o Lerpa
que não o deixa mentir
a fazer sinal com a cabeça
sinal apenas
sim, talvez
talvez não
mas que todos entenderam com um
“- É verdade, sim senhor.”
Ensurdecera em Angola, mas nunca se habituara à ideia. Uma mina. Sabia-se, sem que nunca o tivesse contado. Quando falava ninguém o interrompia. Nem havia como. Aprendera a ler nos lábios e isso chegava-lhe para se fazer presente. Um dia, sem mais nem menos
- Uma vez tive um combate de nove horas. Nunca pensei sair de lá vivo.
E nós a torcermos o nariz
apesar do Lerpa
sempre cheio de medalhas na lapela do camuflado
que não despia nunca.
Nós a torcermos o nariz
(na Feira da Ladra já as vi à venda por bom preço)
apesar do testemunho de outros companheiros
dos recortes de jornal
porque
(na Feira da Ladra já as vi
por bom preço)
enquanto que o Hilário
- Isso não é nada! A mim, uma vez…
e a servir-nos uma história das suas, quentinha, numa travessa de pipis.
E nós a não duvidarmos, porque há pessoas que nascem para serem únicas.
não são todas.
caso do Hilário
potencial inacreditável
Snack-bar na Avenida
(…privilegiada da cidade)
engenharia electrónica
Instituto Superior
sempre
ali perto
casa que ainda hoje
desaparecimento do pai
morte da mãe
(a PIDE e a miséria)
por isso
o curso…
no entanto
as dúvidas aos ex-colegas
- …umas nódoas…
apesar de
sempre que alguém
- Ó Hilário, não me podes passar lá por casa para dares um olhadela na instalação?
responder sempre
- Eh, pá, ando com o tempo todo contadinho.
E nós a não duvidarmos, porque há pessoas que nascem para serem únicas.

Monday, June 30, 2008

Quase Mulher

Há meses que o Valentim não me procura. Há meses que

também eu

perdi a coragem de

uma pontinha de pé nos pêlos das suas pernas, num miado de gata com…

Há meses

Fevereiro

28 para ser mais exacta

que o doutor Gama Seixas

- A senhora tem um cancro na mama.

que a vida se me cristalizou diante dos lábios, incrédulos

- Como?

- Dezoito milímetros dona Adélia. Temos de operá-la o quanto antes. E perca as ilusões de salvar o peito. Não há como arriscar.

E eu que nunca me descuidava com os exames; eu tão certinha e

- … perca as ilusões de salvar o peito.

como se negligência da minha parte, como se eu não me apalpasse, me conferisse, como se o Valentim

as mãos cegas do Valentim…

e uma raiva enorme a acumular-se em cada passo a caminho do autocarro

para Benfica

uma raiva enorme do Valentim que

de mãos no meu peito

sem me sentir

como se duas bolas de esponja para a fisioterapia das artroses. Uma raiva enorme porque nunca me prestou atenção; porque de tanto as apertar, de tanto puxar por elas

(como se eu a mãe que o deixou à porta da maternidade)

nunca sentiu nada a mais.

- Dezoito milímetros…

Por favor!

A sentir-me usada, abusada, negligenciada…

e uma raiva enorme a escorrer-me para o lenço: o último de um maço encetado na paragem

para Benfica

onde o decote da blusa ainda a ser alvo de olhares

embora eu

vontade de gritar

- Gostam do meu cancro, javardos?

com raiva, a senti-lo diminuir, desaparecer

e

dentro de uns dias

nenhuns olhos a procurarem o decote que

nunca mais coragem de usar

como nunca mais coragem para uma pontinha de pé nos pêlos das pernas do Valentim. Já lá vão uns meses

estamos em Agosto

22 para ser mais exacta

portanto, desde Fevereiro

28

um dia antes

para ser mais exacta

a 27, portanto

que o doutor Gama Seixas

- A senhora tem…

… um cancro…

Agosto

estamos em Agosto

e o calor a puxar por mim, pelos humores de mim, mas eu, a não querer ser mais rejeitada do que já me rejeito, a

nem uma pontinha de pé nos pêlos das pernas do Valentim

miado de gata com…

Nada!

- E com a luz apagada? - Eu a tentar junto de mim uma solução, uma abreviação. Mas a escuridão não apaga tudo, visto no lugar do peito apenas o lugar do peito, pois a reconstituição

- Um dia…

o doutor Gama Seixas

embora para destruir

- …o quanto antes.

mas para reconstruir, nenhum médico

- Temos de operá-la…

E o autocarro

a caminho de Benfica

a passar ao longo do cemitério

e eu

a doer-me por dentro

com vontade de agarrar-me a toda a gente, aos pés de toda a gente

a pedir

- Ajudem-me! Por favor, não me deixem morrer! Não quero morrer, por favor! Estou cheia de medo! Alguém me agarre, por amor de Deus!

a pedir

suplicar

para ser mais exacta

que tivessem pena de mim, que me ajudassem

se todos quisessem, se todos fizessem um esforço, se todos estivessem do meu lado

tudo mais fácil

tudo muito mais fácil.

Mas as caras apertadas, cheias das suas vidas, como se em cada peito um cancro, a bater em vez do coração

contagem decrescente

tum-tum, tum-tum

condenados todos.

E eu a querer chegar a casa, agarrar-me ao Valentim, na esperança de que ele me salvasse, de que ele me acordasse daquele pesadelo, de que ele…

um abraço

em silêncio

(não importa )

garantindo-me

- Foi um pesadelo, já passou!

caso não mo pudesse garantir

pelo menos

- Vai tudo correr bem. Não te preocupes. Eu estou aqui. Ao teu lado. Sempre!

Também já era pedir de mais!

Ou a minha mãe, que há anos tinha morrido

doze

para ser mais exacta

e que me faltava agora como nunca. Eu a querer voltar atrás, eu a prometer que me portaria bem, eu a jurar que faria tudo quanto ela ou Deus quisessem, eu a garantir que aprendera a lição, eu a qualquer coisa, a assinar a minha sentença de morte para me salvar

como quem se atira de um centésimo andar em chamas.

Mas nada!

A sala vazia

os quartos

eu toda

como a casa

a enrolar-me no sofá, como se nos braços de Deus, no útero materno, um instante de conforto, de protecção, couto almofadado onde nada me poderia tocar. Mas

- …um cancro…

não o jogo da apanhada. De modo que

dias depois

oito

para ser mais exacta

a acordar como uma amazona, numa floresta verde de cortinados desesperançados. A mão esquerda a procurar o seio direito, porque a direita não se podia mexer e

nada

apenas o lugar onde um dia

uma mulher completa

de encher o olho

o decote, alvo de olhares

e a enfermeira, toda sorrisos

- Como é que se sente?

com dois fartos seios apontando para mim, a encherem-me os olhos de lágrimas mutiladas.

- A operação correu muito bem! Daqui a uns dias já estará em sua casa.

Cinco

para ser mais exacta.

E agora, meses depois, o Valentim, como se eu um monstro

não uma amazona

um monstro

a não me procurar

e eu

sem coragem para uma pontinha de pé

uma pontinha pé nos pêlos das suas pernas.

Friday, May 30, 2008

Solidão em biquinhos de pés

E as tábuas das escadas

a que chamam degraus

a rangerem-me sob os pés, denunciando-me os passos aos outros hóspedes da pensão. Um resmungar que só lhes ouvia a altas horas da noite

talvez porque a dormirem já

a acordarem por minha causa

dos meus passos atordoados, pesados do vinho e do sono, no resmungar da velhice, dado que tudo o que é velho geme e resmunga.

Eu compreendo. Claro que compreendo. O dia todo para acima e para abaixo, no clep-clep fofo do tapete que lhe lhes abafa o queixume e não deixa que as agridam tanto. As escadas são de origem, e a pensão, de mil nove e tinta e nove. Passou-lhes a guerra para cima e para baixo

clep-clep

tapete nem meio tapete

que quando se é novo não se geme de queixa.

Mil nove e tinta e nove

a guerra

para cima e para baixo

de modo que agora

qualquer coisinha

os nervos à flor da cera

especialmente à noite

quando o silêncio amplifica o tamanho e o peso dos homens, e o tapete não chega para lhes amordaçar o queixume.

Mas eu não posso vir mais cedo. Compreendam vocês também que eu não posso

mais cedo

pois se me deito sem sono, ou sóbrio, penso na vida que não tenho. E porque o pensá-lo é sinal de estar vivo, entro em conflito comigo, porquanto não entendo o paradoxo de estar vivo e não ter vida. Entendem? Nem eu! Eu prometo descalçar-me à entrada

é isso

descalçar-me à entrada

aliviar o passo…

Ai é a mesma coisa? Então se é a mesma coisa não me chateiem e muito boa noite, que pago as minhas contas e tenho mais que fazer que gastar latim com um xilofone de tábuas desafinadas. Ora não querem lá ver! Não é o meu dinheiro como o dos outros? Tudo igual, minhas queridas! Só mudam os horários.

Não posso vir mais cedo! Caramba, já disse que não posso vir mais cedo, que inferno! Se me deito sem sono… sóbrio… penso na vida… sinal de estar vivo… conflito comigo

ou conflituo comigo

que às vezes não há diferença entre substantivos e verbos, quer existam quer não. Isto para verem que não sou nenhum inculto que para aqui ando. Só não posso é deitar-me sem sono

sóbrio

porque penso na vida que não tenho. E depois

conflito

como em mil nove e trinta e nove

sabem como foi

que também é sinal de estar vivo

paradoxo

estar vivo e não ter vida.

Entendem?

Eu sei que são velhas e têm direito ao sossego e ao silêncio da noite, mas olhem, estudassem, se queriam ser escadas de púlpito, que essas sim são só para enfeitar, pois sermões é coisa para dar aos peixes, e, para lhes chegar, não são vocês precisas para nada. Se fossem escadas de quinta a esta hora estavam deitadinhas no celeiro a dormir o sono dos justos, nas palhinhas como o menino, que também é filho de carpinteiro. Mas, e então?! Também eu se fosse mais fino não dormia no segundo andar desta espelunca. Dormia no Ritz, no Palace.

Ah que Deus, daqui a nada são sete da amanhã e já começa o para baixo e para cima dos que têm ou não têm que fazer. Que tenho eu com isso? Os guardas-nocturnos também dormem de dia, tal como as raparigas de má fama. E se eu fosse um desses? Hum? Como é que era, se eu fosse um nocturno de má fama, ou um guarda-raparigas? Hum? Ah, não dizem nada!

Eu que até tenho consideração, que até suavizo o peso, respirando pouco

e olhem que quatro lances de pulmões vazios não é brincadeira

disposto até a descalçar-me à entrada

aliviar o passo…

Agora se é a mesma coisa… boa noite!

E ao chegar ao quarto, a porta

uiiiick

a ranger, denunciando os meus gestos aos outros hóspedes da pensão. Também ela estava a dormir. Também ela a resmungar. Também a ela lhe passou a guerra de um lado para o outro. E eu que não casei para não ter quem me controlasse os passos, os gestos, as horas e no fim dá nisto. Irra! Mais um copo ou dois e não lhes ligava peva, agora assim, no intermédio da razão… Anda-se um homem a poupar para quê? Para ter chatices, é o que é!

Mais um copo ou dois e nem escadas nem porta, nem o raio que as partisse: uma auto-estrada sem portagens do balcão à tarimba. Agora assim tudo manda vir com um homem

que ninguém percebe isto de estar vivo e não ter vida

o paradoxo

e ao pensá-lo, olho para a cama, quieta, no seu sono madeira e molas

(a ela não lhe passou a guerra por cima).

Pelo menos a de mil nove e trinta e nove!

Passaram outras

que numa cama só há paz depois da guerra.

Sento-me à beirinha, procurando não a acordar, levanto um pé

nhec

numa demora de preguiça a trepar à árvore

pata a pata

outro pé

nheeeec

a acordá-la por fim, num rabujar de madeira e molas…

Deito-me vestido. Estou quentinho, quero que se lixe. Fecho os olhos

os ouvido não consigo

nhec-nhec…

a respirar devagarinho para não despertar nela a fúria de esposa amuada pelo despertar do sono, pelo tarde das horas, pelo cheiro a álcool, a fingir-me adormecido já, mas o ranger, como um resmungar enervante de esposa nos meus ouvidos

nhec-nhec… nhec-nhec … nhec-nhec …

como que

- E não finjas que estás a dormir. Não faças que não me ouves.

nhec-nhec… nhec-nhec … nhec-nhec …

Era mais um copo ou dois… agora assim, no intermédio da razão…

nhec-nhec… nhec-nhec … nhec-nhec …

- São isto horas de me vir acordar? Lá porque pagas as contas achas que tenho de estar sempre pronta para levar contigo em cima?

nhec-nhec… nhec-nhec … nhec-nhec …

E eu que não casei para não ter quem me controlasse os passos, os gestos, as horas e no fim… Mais um copo ou dois e podia nhecnhecar à vontade que eu

peva

agora assim, no intermédio da razão… Anda-se um homem a poupar para quê? Para ter chatices, é o que é!

Arre porra que é demais!

A nossa música

Há pouco, quando vinha no carro, passou a nossa música. Há muito tempo que não a ouvia e

apaixonei-me de novo por ti.

Temos destas coisas, não temos? Apaixonarmo-nos de novo ao som de uma música antiga, não é? Uma bebedeira que passa, como todas as coisas que passam.

Quando entrei em casa, cansado do táxi, vi-te do bengaleiro

na confusão dos tachos

nenhum segredos para ti.

e pareceste-me bonita, como há muito não te via, e até as tuas pequenas imperfeições

o olho vazado pelo acidente da fábrica; a verruga no pescoço, que desde que apareceu evito olhá-la...

Desculpa amor, nunca to ter dito! Desculpa ainda agora pensá-lo no silêncio do não te dizer ainda. Sabes que tenho pavor de insectos, não bem insectos, mas não sei que nome tem a classe das carraças. Aracnídeos? Acho que num concurso de televisão

- Aracnídeos.

Deve ser. Afinal também tenho nojo de aranhas.

Não é por mal! Os traumas nunca são por mal, não é? E ninguém sofre mais com eles que os traumatizados. Uma febre em criança. Sempre tivemos cães, e o Alentejo, quente como tu sabes… Vai daí que… Por pouco que não me apaguei, disse o Doutor Juvenal Seixas à minha mãe

o meu pai na Suiça

e estas coisas, tu sabes, marcam uma pessoa para a vida toda.

Mas agora, importância alguma. Contigo aí, vista do bengaleiro

na confusão dos tachos

nenhum segredos para ti…

Estavas calada e calada ficaste logo a seguir ao

- Olá.

mecânico, como o beijo que há muito já não damos. Não o demos um dia, por causa de uma discussão, e enquanto durou o amuo não o demos, e deve ter-se atrofiado a função. E depois, para retomar o hábito

complicado.

É sempre complicado retomar o hábito.

Devemos ter achado que estava tudo bem assim e o achá-lo criou um hábito novo, o hábito de não ser preciso dá-lo mais. Afinal vinte e dois anos de casamento e mais três de namoro dispensam formalidades e cerimónias. Não é assim?

Mas agora, que tu aí

no silêncio dos dias passados, contados pelo calendário do teu avental

1982

(aonde isso já vai!)

mas que ainda serve, tal como nós, numa recordação obstinada de dias felizes.

Pareceste-me bonita, como há muito não te via

e até as tuas pequenas imperfeições

agora

importância alguma

o olho vazado pelo acidente da fábrica, que te obrigava a olhar-me de lado, para me veres de frente e que sempre me irritou, como se tu

num olhar de esguelha, para me provocar

sem que algum dia me tenhas dito

- Não entendes que é por causa da vista, Samuel?

ou a verruga no pescoço que

por pouco que não me apaguei; o Doutor Juvenal Seixas; minha mãe, quente como tu sabes; o Alentejo, o meu pai na Suiça… vai daí que traumas. Não por mal, mas ninguém sofre mais com eles que uma criança. E estas coisas, tu sabes, marcam uma pessoa para a vida toda. Vai daí que talvez febre alguma, cão algum. Pensando bem, nem televisão, nem concursos; quaisquer aracnídeos traumatizados; e uma aranha não bem numa aranha: uma carraça apenas; uma outra forma de pôr as coisas, embora o nojo todo lá.

Mas agora

(aonde isso já vai!)

importância alguma

apenas tu

aí

vista do bengaleiro

bonita, como há muito não te via

na confusão dos tachos

nenhum segredos para ti

fazendo mil coisas ao mesmo tempo para que a vida não pare, como eu, às vezes, pela cidade, às voltas, para que taxímetro não pare, como se o coração parasse com ele.

Mil coisas ao mesmo tempo.

Sempre admirei essa capacidade em ti; a aptidão que te permitia fazer amor e bocejar ao mesmo tempo.

Agora

alguma coisa estava diferente em mim naquele dia

(a nossa música… Temos destas coisas, não temos?)

mas em ti tudo igual

confusão dos tachos

nenhum segredos para ti…

Nessa noite procurei-te, sem jeito. Não sabia bem como me chegar a ti…

Deve ter-se atrofiado a função. E depois

complicado

sempre complicado retomar o hábito.

Tapei-te os ombros, puxando o lençol

(não encontrei melhor desculpa).

Percebeste o gesto, disseste não ter frio

a voz a pedir um abraço

não importa de quem

um abraço

a luz apagada, um pouco de claridade pelas frinchas dos estores

o candeeiro da rua e espreitar indiscreto

um olho apenas

como vês, importância alguma

e eu uma perna sobre a tua

onde os pêlos

como ervas

crescidos pelo desmazelo do amor

pequenas imperfeições

importância alguma

juro que importância alguma

porque eu

ou melhor

a nossa música

Entendes?

É que…

há muito tempo… e…

apaixonei-me de novo

por ti.

Temos destas coisas, não temos?

Não te preocupes, vai tudo correr bem. Pensei dizer e não disse. Afinal vinte e dois anos de casamento e mais três de namoro dispensam formalidades e cerimónias. Não é assim? De modo que eu

outra perna agora

tu a dares o jeito, a aceitares-me o peso

estranho

no silêncio das palavra que vinte e dois anos de casamento e mais três de namoro

dispensam

à espera de um abraço que depois viria

(viria, sim)

de olhar fixo nas sombras do quarto, acordadas pelo o candeeiro da rua

indiscreto

um olho apenas

(para quê dois quando não há muito já que ver?)

vazia

como a orbita esquerda de ti

(talvez mais coisas vazias desse lado)

por causa do acidente da fábrica

Por que mais haveria de ser?

estando ali e não estando

tu

como olho cego

morto talvez

que os olhos já nascem dentro do caixão que os há-de sepultar

à espera de um abraço

não importa de quem

um abraço.