Friday, January 05, 2007

Talvez um dia destes

E eu que até nem gostava dele! Não entendo. Faz dois anos que

- Dona Alda?

- Sim, quem fala?

- É o Figueiredo. Tenho uma notícia para lhe dar.

e eu a compreender, pelo tom de voz (não que a do Figueiredo me fosse familiar), mas pelo tom de voz, que o Aguinaldo tinha morrido. Tinha cinquenta e três anos e eu, mais quatro.

- Tenho uma notícia para lhe dar.

e eu a compreender, pelo tom de voz

e eu

- Obrigada.

sem saber se agradecia ao Figueiredo, se a Deus, se apenas uma expressão independente de mim a moldar-me a voz

- Obrigada.

apesar de não ficar contente. E eu que até nem gostava dele. Eu que até era uma parva nas suas mãos, apesar de mais quatro anos. Quatro anos e o tempo um substantivo sem significado. Uma parva. E ainda assim a deixar-me ficar.

- Mas quando é que alivias o luto, rapariga?

a Marília para mim, um ano depois de

- Tenho uma notícia para lhe dar.

e ainda assim a deixar-me ficar, apesar de

- O Luto dá-lhe um ar tão pesado, dona Alda! Fá-la parecer muito mais velha. E ainda é tão nova! - o Figueiredo todo cuidados, na sua companhia de pastor alemão desde que o Aguinaldo

- Despistou-se, dona Alda. Ninguém sabe como foi.

desde que eu

- Obrigada.

sem saber se agradecia ao Figueiredo, se a Deus, se apenas uma expressão independente de mim a moldar-me a voz

- Obrigada

apesar de não ficar contente. E eu que até nem gostava dele. Eu que até era uma parva nas suas mãos, apesar de mais quatro anos.

- … dona Alda.

o Figueiredo sempre

- …dona Alda.

sempre

- Muito obrigado!

sempre

- Se faz favor.

sempre

- Com licença.

sempre

- Tenha a bondade.

ao contrário do Aguinaldo, que me tratava pior que à empregada, a idade da nossa filha que me morreu no ventre, ainda (coitadinha!), porque

- O útero…

não sei bem explicar, um papel em cima da secretária do doutor

- O útero…

como dizê-lo

- O útero…

uma cabeça de carneiro a pingar sangue, quer dizer, faz de conta, uma tinta vermelha para me explicar melhor, e ao meu marido (digo assim apesar de nunca termos assinado papeis)

- Por outras palavras, o útero rasgou. Tem as paredes fracas. Não aguenta os fetos.

e por isso

nunca mais um filho, uma filha (coitadinha). Talvez por isso o Aguinaldo todo mesuras com ela. Porque lhe fazia lembrar a filha. Porque mais haveria de ser?

- Obrigada senhor Aguinaldo!

e quando eu

- Está-te a agradecer o quê?

apenas um

- Mete-te na tua vida!

e não se falava mais no assunto até que de novo

- Óh, senhor Aguinaldo, não era preciso! Muito Obrigada!

e eu

- …a agradecer o quê?

- … na tua vida!

porque lhe fazia lembrar a filha que o meu ventre (coitadinho) lhe negou. E se eu, uma lenta aproximação, uma mão no ombro do pijama, um arrastar de perna carente (talvez apenas frio)

… eu que até nem gostava dele!

(talvez apenas frio), por entre as suas, de imediato a calar o silêncio gelado dos lençóis

- Não me chateies, Alda, tenho sono.

Não que não me quisesse. Apenas sono. Se não me quisesse creio que me dizia. Mas unicamente

- … tenho sono

a afastar-me com a sua mão avinagrada, se calhar não a afastar-me, a impedir-me apenas que me aproximasse mais e lhe espantasse o sono. Sono que eu não tinha e que chegava quase sempre com a madrugada. E por isso, eu para ali, como um lençol pela manhã, morno, engelhado e com um desagradável cheiro de corpo por usar. Eu a importar-me. Não sei porquê.

… eu que até nem gostava dele!

a importar-me até hoje, dois anos depois. A não conseguir pintar o cabelo, vestir uma roupa mais leve, dado que esta

- …um ar tão pesado, dona Alda! Fá-la parecer muito mais velha.

e eu ainda tão nova

pelo menos o Figueiredo

- E ainda é tão nova!

a recusar convites para jantares, para festas, até que os convites a desistirem de mim a pouco e pouco, como uma criança a desistir do choro que não lhe traz uma fralda enxuta.

Que desistam do choro os convites todos. Não é por ele, é por mim. Não quero passar por viúva-alegre. Isso é lá comigo. Talvez um dia destes (se o Figueiredo não desistir. Não desiste. Deus queira…), aceito o convite

- Sim, dona Alda?

eu

- Sim!

a um jantar, porque não? Ou

- Um espectáculo no Casino do Estoril, dona Alda. Com o Fernando Pereira. Tenho dois convites.

talvez um dia destes a Marília

- Eh, lá! És oito ou oitenta!

Talvez o próprio Aguinaldo não me reconheça, quando um dia destes for ao Alto de São João levar-lhe flores, de cabelo caju, sainha clara, pregada, por cima do joelho e um decotezinho, discreto, só para que o coração respire melhor, e talvez morra outra vez, que mal nenhum lhe fazia morrer meia dúzia de vezes. E eu que não desejo mal a ninguém, nem aos vivos, quanto mais. Talvez, um dia destes. Mas hoje ainda não, que faz dois anos que

- Dona Alda?

…

- É o Figueiredo. Tenho uma notícia para lhe dar.

Hoje ainda vou de preto. Com um raminho de crisântemos brancos. Só por uma questão de… falta-me a palavra… respeito, pronto, por mais nada, porque eu

- … até nem gostava dele!

Crónica em dó menor

- Todos os acordes menores são tristes.

confessou-me o professor de piano, a meia voz, como se um grande segredo

- Todos os acordes menores são tristes.

um segredo igual àquele que lhe acompanhava a mão suada pela minha perna acima até ao interior dos calções, enquanto

- Muito bem! Muito bem!

apesar de eu tenso, encolhido

- Muito bem!

convencendo a minha mãe que eu haveria de ser um grande pianista. E eu a não distinguir as teclas brancas das pretas, porque

tenso, encolhido

apesar de

- Muito bem!

convencendo a minha mãe porque

- Muito bem!

e a minha mãe vaidosa, como se fosse ela própria a elogiada, na vaidade própria das mães, principalmente aquelas às quais nunca lhe foi sussurrado ao ouvido

- Muito bem! Muito bem!

e a minha mãe vaidosa, como se

ela própria dentro dos calções

- Muito bem!

No ano em que o meu pai morreu, eu dez anos, acabaram-se as aulas de dedilhado pelas pernas acima. Depois desse dia, não voltei a abrir a tampa de um piano

- É que ele associa o piano ao caixão do pai. Entende?

o psicólogo a explicar à minha mãe a minha súbita aversão ao instrumento de tortura em que se tinha tornado aquele armário de teclas.

- Imagina que se abrir a tampa do piano vai dar de caras com o pai morto.

e a boca da minha mãe, incrédula, ante a brilhante associação do doutor.

- … vai dar de caras com o pai morto.

- E o que há a fazer, doutor?

- Isso vai ser um processo moroso. Teremos de trabalhar o luto. Mas não se preocupe.

e a minha mãe a ficar descansada, porque o Doutor

- … não se preocupe.

a minha mãe não se preocupou e o dinheiro das aulas do professor transferiu-se para a conta do especialista em desmistificar pais mortos em forma de código de barras. Fato preto, gravata preta, camisa branca. Igual a Fá sustenido, Sol sustenido, Dó absoluto.

E, apesar de

- Faz…

(um piano,

o teu pai,

a Capela Sistina,

os planos do desembarque na Normandia,

num)

- … desenho à tua escolha.

a verdade é que, desde o dia em que o meu pai

- Que morte tão estúpida!

que não abria a tampa de um piano, e passava-lhes sempre ao lado, porque…

… uma mão suada pela minha perna acima até ao interior dos calções, uma mão cheia de dedos descarados a afirmarem, com aquela boquinha pequenina que os dedos têm

- Muito bem!

cinco vezes, um de cada vez

- Muito bem!

e outra mão cúmplice, porque silenciosa, na aba do piano, com aquela boquinha pequenina que os dedos têm, sem dizer nada, conivente com o

- Muito bem!

da outra

em vez de

- Dona Adília, venha cá depressa que o seu filho

ou

- … o professor do seu filho…

enquanto eu a não querer desiludir a minha mãe que

- Não houve um homem na vida que não me tivesse desiludido!

por isso eu

Dó menor, Ré menor, Mi menor

cada vez menor

dado que

- Todos os acordes menores são tristes.

e eu um acorde cada vez mais triste, cada vez menor, sem distinguir as teclas pretas das brancas embora

- Muito bem!

eu um piano desconjuntado, de pernas tensas, encolhidas, tocado pelos dedos ágeis daquela aranha gigante em forma de professor sussurrante

- Muito bem! Muito bem!

até ao dia em que o meu pai

- Que morte tão estúpida!

a levar com ele o professor de música. A morte do meu pai a salvar-me a vida. Cheguei mesmo a acreditar que morreu para me salvar. Amén. Pois porque outro motivo poderia o papá ter morrido, se ainda tão novo, de uma morte

- … tão estúpida!

a queda de uma árvore em cima do carro, onde ele a conversar com uma colega de trabalho.

- Não houve um homem na vida que não me tivesse desiludido!

a mamã antes e depois da notícia.

- Não houve um homem na vida que não me tivesse desiludido!

provavelmente desde o dia em que descobriu a diferença dos sexos.

- Não houve um homem na vida…

Mas a verdade foi que nunca mais tive de abrir uma tampa de caixão e isso só o posso agradecer ao meu pai, ou ao desmaio da árvore na recusa de ser piano.

No ano em que regressei de Angola, paixão, talvez, lindíssima, professora de música. Um dia

- Senta-te aqui.

e eu a tremer como um grande pianista a caminho de um piano de gelo.

- Senta-te aqui.

e as suas mãos a pegarem nas minhas e a colocarem-nas sobre o teclado, devagar, com os seus dedos a explicarem aos meus (com aquela boquinha que os dedos têm)

- É assim.

porque eu a assegurar-lhe que nunca havia sentido uma tecla na vida

- É assim.

eu a imitar-lhe os gestos; lentamente, como uma criança a andar sobre o branco e negro daquela calçada sonora.

- Isso! - um incentivo qual torrão de açúcar.

- Isso!

e de súbito, porque de súbito

- Muito bem

e eu a lançar-me ao seu pescoço frágil, quer dizer, não ao dela, ao do professor de música, apertando-o com toda a força que me faltara em criança, a bater-lhe com o crânio calvo no teclado aflito, enquanto

- Muito bem? Hum? Muito bem, meu cabrão de merda?!

e ele, não ela, ele, nem um pio, nem um ai, nem um nada, apenas acordes maiores atrás de acordes maiores.

Não a ela. A ela não. Um crânio calvo, não uma farta cabeleira ondulada até à cintura. Um crânio calvo. Juro que um crânio calvo.

- Trauma de guerra.

diria o psicólogo para a minha mãe

- Imagina que se abrir a tampa do piano

de caras com os companheiros mortos

o pai morto

as notas graves, rajadas de metralhadora

- … um processo moroso. Teremos de trabalhar o luto. Mas não se preocupe.

Para a próxima…

Ela chegava num toc toc de subir de escada, no seu passo absoluto, toda sapatos, enorme como uma estátua de bronze, e metia a chave à porta de uma vez só. Nessa altura já eu estava a caminho das cebolas para começar a chorar antes que fosse preciso bater-me.

- Olá fofinho, a mamã chegou! - numa voz de sargento rente à reforma.

- Olá fofinho… - sempre assim que me chamava.

- …a mamã… - como se tratava a si.

- … chegou!

e eu com vontade de lhe gritar da cozinha que ela não era a minha mãe, mas, em vez disso

- Olá fofinha!

e não

- Tu não és minha mãe! - como era de minha vontade. - Tu és um monstro!

e no entanto, unicamente

- Olá fofinha! - encolhido como a cauda de um cão assustada, agarrado à cebola para começar a chorar

- …a mamã chegou!

sem que fosse minha mãe, pois a mamã

uma mulher delicada; uma boneca de porcelana com rugas de cola porque o meu pai

- Para a próxima levas mais!

e para a próxima levava igual, porque mais não podia ser.

- Para a próxima…

e a minha mãe a apanhar os seus próprios cacos do chão, e a levá-los na concha das mãos, como se aparasse lágrimas

mas apenas cacos

para o fundo do quarto; para os colar de novo no sítio; para a próxima.

- Olá fofinho, a mamã chegou! - numa voz de sargento…

… rente à reforma.

e eu na cozinha, preso à ponta de uma cebola, como uma rama mole, impotente, com vontade de

- Tu não és minha mãe!

- …fofinha!

- Tu és um monstro!

- …fofinha!

mas uma fila de dentes enormes, tortos e amarelados na minha direcção a desaparecerem num alongar de lábios pintados.

- Então o que é a papa?

- Veneno para os ratos! - aquilo que me apetecia dizer, e a sair-me, num refogado de cobardia

- Bifinhos de cebolada.

- Bifinhos de cebolada?! - como se eu tivesse efectivamente dito

- Veneno para os ratos!

- Querias outra coisa, fofinha?

e uma fila de dentes enormes, tortos e amarelados na minha direcção, a não desaparecerem num alongar de lábios, e a mascarem palavras, indigestas, como se me mascassem a mim, ainda que não se ouvisse mais que

- Não, fofinho! Está óptimo! Estou mortinha de fome!

num silêncio que apenas eu sabia ouvir

- Mas é todos os dias a mesma merda? Não sabes fazer mais nada meu anormal?

ainda que só

- Não, fofinho! Está óptimo!

da mesma forma que eu

- Bifinhos de cebolada.

em vez de

- Veneno para os ratos!

- … meu anormal…

e o silêncio, a ressoar no ar da cozinha, num mascar de palavras

indigestas

a mascar-me a mim

- Tens tanta imaginação para fazer comida como para escrever livros! É por isso que ninguém te pega!

- …fofinho! Está óptimo!

não na voz de sargento rente à reforma

- Para a próxima…

apenas

- …fofinho!

- …óptimo!

ainda que nos meus ouvidos

- O que seria de ti, meu desgraçado, sem mim?!

e a resposta a não me surgir, porque a pergunta… o silêncio que apenas eu sabia ouvir

no ar da cozinha

na minha cabeça

no ar

- Veneno para os ratos!

- Está óptimo!

- Fofinh…

e eu a não compreender porque dissera

- Sim.

quando o padre me perguntou

- Aceitas para tua legítima esposa este monstro?

perguntando

no silêncio que apenas eu sabia ouvir

- Aceitas para tua legítima esposa o teu pai.

… a não compreender porque…

- Sim.

- Sim, aceito.

porque o medo é uma estátua de bronze a subir as escadas, não em tacão raso; em bota de cano alto. Porque o medo é uma boneca de porcelana em mil bocados espalhados pelo universo da minha infância. Porque o medo é uma mão cheia de cacos apanhados do chão, como lágrimas, rumo ao fundo do quarto. Porque o medo é uma cauda de cão assustada, preso à ponta de uma cebola, como uma rama mole, impotente, incapaz de dizer

- Não!

porque o medo são olhos abertos, máximos de TIR a espantar-me para os arbustos da casa de banho, que é como quem diz, para dentro de um sapato, quietinho, num silêncio de pulga, porque o medo é…

- Para a próxima…

Monday, September 25, 2006

...de repente

Ainda que quisesse contar como foi que tudo começou, não creio que fosse capaz de o fazer sem falsear factos.

Foi de repente. Será mais honesto dizê-lo. De repente, como quase sempre acontece. E de repente, uma mão de aliança no dedo a descasar-me os botões da camisa, numa fome de animal por bagas. E de repente, o contraste dourado de uma promessa esquecida a perder-se-me entre o negrume do peito.

Tinha um nome que não convém que se diga, duas filhas pequenas e um homem de negócios com quem casou, ainda muito nova, quando o sonho de ser arquitecta era ainda um ramo verde.

Ainda que quisesse contar como foi que tudo aconteceu

numa pensão barata da Pascoal de Melo. Não que não pudessemos pagar mais, mas porque ambos, de repente, quisemos assim.

- Também sei ser puta! O que é que ele julga?!

Dissera-mo uma vez, entre um copo de cerveja e um desabafo desesperado numa das raras conversas que tivemos no final do expediente.

- Também sei ser puta!

E não sabia. Sabia ser pouco mais que uma mulher carente que apenas conhecera um homem na vida.

- O que é que ele julga?!

E eu a não saber o que é que ele julga. A saber apenas que

…pouco mais que uma mulher carente.

E de repente - porque tudo acontece de repente -, nós, guiados pelo corrimão sombrio, gasto pelo suor das mãos, até ao primeiro andar de uma pensão barta da Pascoal de Melo. Não que não pudessemos pagar mais

onde uma senhora - se é que as donas das espeluncas podem ser senhoras -, uma mulher de cinquenta, entremeava romances da Maria com janeirar de molas.

- Tem quartos para alugar? – como se quisessemos mais do que um.

- Tem quartos... – na curva do corrimão sombrio

gasto pelo suor das mãos

- Tem... – no lugubre patamar da escada, onde uma senhora, ou uma mulher de cinquenta

- Por quanto tempo?

Uma vida inteira, um final de tarde, um “até que a coragem volte” para voltar para casa, para mais um bocadinho, para mais uma apneia de afecto no gélido mar do desengano.

E de repente, porque tudo acontece de repente, uma mão de aliança no dedo, a procurar honestidade no interior da minha roupa, enquato me provocava, com olhar de mulher carente, e não de puta, como ela achava que também sabia ser. Ainda que soubesse ser pouco mais que… à procura de conforto, não sexo, um abraço

não vingança

- O que é que ele julga?!

somente um beijo, sincero, desejoso da mulher que ainda achava ser.

Tão nova e já tão sem futuro! Cada dia menos um. Cada-dia, cada-dia, como pouca-terra, pouca-terra, num devorar de carril por um comboio sem destino, às voltas na serra até ao limite do carvão.

Tão nova e…

e a seguir a mim o quê?

A seguir a

- Tive um convite para ir trabalhar para Toronto.

…o quê?

Uma depressão?

Umas férias no Algarve, numa tentativa desesperançada de reconciliação? A última; como a primeira, sem destino, às voltas na serra em pouca-terra, pouca-terra, até ao limite do carvão.

Um psiquiatra?

- … muito bom!

aconselhado por uma amiga em processo de divórcio.

- … a mim foi o que me valeu!

Ou

- …uns copos e isso passa!

por outra, já divorciada.

Numa mezinha caseira de gin tónico e prozac (em simultâneo ou alternados).

E eu a pensar nisso agora (claro que não em Toronto, em Lisboa), dois meses depois da última vez em que

- Boa tarde.

sem perguntar

- Tem quartos?

sem perguntar

- Tem quartos para alugar?

Simplesmente

- Boa tarde. - como um silêncio absoluto.

- Boa tarde. - porque era sempre de tarde. Porque ela, uma mãe de família: duas filhas pequenas e um homem de negócios com quem casou, ainda muito nova, quando o sonho de ser arquitecta, ou feliz, era ainda um ramo verde.

E eu a pensar nisso agora (claro que não em Toronto…), dois meses depois da última vez em que

- Boa tarde. – na curva do corrimão sombrio, gasto pelo suor das mãos

sem conseguir contar como foi que tudo começou, sem falsear factos; com a nítida sensação que foi de repente.

O jardim de outros tempos

Ele vinha devagar, ao ritmo de quem há muito menosprezou a pressa e o seu sem porquê de ser.

A janela do escritório a dar para o pequeno jardim da praça - um quadro de limites elásticos, assim me aproximasse mais ou mais me afastasse dela -, a janela, moldura de um verde descascado, contentora daquele quotidiano impressionista, apenas um “por onde chegar”, de longe, ao jardim compreendido quase na totalidade, assim me aproximasse mais ou mais me afastasse dela. Era uma natureza morta, à qual ele, devagar, vinha trazer um pouco de vida; um pouco da que ainda lhe restava e de boa vontade depositava ali.

Sentava-se sempre no mesmo banco. O banco já o reconhecia ao longe e sorria - naquele sorriso feliz que o bancos de jardim fazem ao verem alguém conhecido aproximar-se - quando o via aparecer, ao ritmo de quem há muito menosprezou a pressa e o seu sem porquê de ser.

Ali ficava a olhar para o jardim. Não aquele, o jardim de outros tempos, o jardim das suas recordações com canteiros de vestidos de folhos e chapéus de palha com fitas coloridas. Ficava ali, no antigamente, no tempo dos sonhos tidos, um minuto, uma vida, até que uma mão, vagarosa, ao ritmo de quem há muito menosprezou a pressa e…, a tirar do bolso uma carcaça, sempre a mesma - porque as coisas iguais são sempre as mesmas - para a desfazer, devagar, ao ritmo de quem há muito…, para o empedrado do jardim da sua memória, onde os pombos de hoje, vestidos como os pombos de outrora, arrulhavam aos seus pés num rabujar de guarda nocturno.

Uma gaiola de pássaros, atrás de si, talvez por não chegar às migalhas, agitava-se num apetecer, como que exclamando:

- Senhor Polícia! Senhor Polícia!

porque

- Não se pode dar comida aos pombos!

Mas nenhum polícia. Nunca nenhum polícia. Se calhar um bufo, num outro banco, num outro tempo: num tempo em que ainda se podia dar comida aos pombos. Num tempo em que

… canteiros de vestidos de folhos e chapéus de palha com fitas coloridas.

Ali passava uma hora. O tempo de desfazer a carcaça, sempre a mesma - porque as coisas iguais…

uma hora

em movimentos de crochet, fazendo e desfazendo a meada, a carcaça (o que importa), porque as coisas iguais são sempre as mesmas.

o tempo de desfazer a carcaça, devagar, ao ritmo de quem há muito menosprezou a pressa e o seu sem porquê de ser.

Depois levantava-se, devagar…

e desaparecia do quadro, do jardim emoldurado pelos caixilhos de madeira da minha janela de escritório, porque o escritório, ao contrário daquilo que se diz, não tem janela (e isto só percebe quem é de perceber)

desaparecia do quadro,

verde descascado

uma natureza morta na qual ele, devagar

arrastando consigo um pouco de vida; um pouco da que ainda lhe restava e de boa vontade depositava ali.

Os olhos do banco levantavam-se para ele. Tristes. Naquele olhar triste que o bancos de jardim fazem quando os deixam sozinhos. Mas não lhe dizia nada. Não lhe pedia que não fosse, nem que voltasse. Não porque os bancos de jardim não falem, não. Mas porque são orgulhosos de mais para pedir. Para além de amuarem com muita facilidade. Mas passava-lhe depressa. No dia seguinte abria-lhe de novo um sorriso de tábuas verdes assim que o via vir, devagar, ao ritmo de quem há muito menosprezou a pressa e o seu sem porquê de ser.

Assim

todos os dias de um calendário que não conhecia domingos ou feriados. Assim, uma vida inteira dentro de uma vida esfarelada em mil bocados; em mil migalhas (…que importa) …as coisas iguais são sempre as mesmas.

Assim, até ao dia em que nenhum sorriso de tábuas verdes; nenhuma carcaça, nenhum pássaro agitado dentro da gaiola exclamando

- Senhor Polícia! Senhor Polícia!

porque

- Não se pode dar comida aos pombos.

Assim, até ao dia em que a natureza morta daquele quadro deixou de receber um pouco de vida; um pouco da que ainda lhe restava e de boa vontade depositava ali. Assim até ao dia em que o artista pintou por cima dele o lugar vazio da sua ausência. Assim, até ao dia em que o meu escritório uma loja de telemóveis de vigésima quinta geração e uma carcaça no meu bolso a caminho do jardim. Não aquele, o jardim de outros tempos, devagar, ao ritmo de quem há muito menosprezou a pressa e o seu sem porquê de ser.

Friday, September 15, 2006

Uma questão de vocação!

O senhor Mário a explicar-me matemática,

equações talvez

não sei dizer. Acho que nunca aprendi nada em matemática. Mas equações, talvez. É disso que trata a matemática, não é? Não sei… nunca aprendi nada em matemática. Mas o senhor Mário a explicar-me matemática, de cigarro na boca,

nunca tirava o cigarro da boca

para quê tirar o cigarro da boca se

tirar o cigarro, voltar a pôr o cigarro

na boca

o senhor Mário a descobrir-me a vocação sem querer, com gravidade na voz, como um Newton

com a cinza a cai-lhe do cigarro, para cima da mesa da marquise, sem gravidade, onde eu

talvez equações. Não sei dizer.

sem sacudi-la para o chão

a dizer:

- Eh pá, que linha tão direitinha!

Quando eu

a fazer simplesmente um risco, furioso, frustrado, para separar os exercícios,

equações talvez. Não sei dizer. Acho que nunca aprendi nada…

simplesmente um risco, furioso, frustrado

não para separar os exercícios, as equações talvez … mas porque não futebol no Domingo à tarde, como os outros que sabiam tanto de matemática como eu.

- Eh pá, que linha tão direitinha! - admiradíssimo - Nunca consegui fazer uma linha tão direita na vida!

E o senhor Mário com uma vida longuíssima, com tempo de sobra para futebol e matemática, enquanto eu, pouco tempo, muito pouco tempo. Porque o tempo que conta é aquele que passou e não o que ainda está para vir. Porque se eu morresse de fúria, de frustração, eu

menos tempo que o senhor Mário.

Cada incógnita um passe atrasado, cada algarismo um golo por marcar, cada sinal de igual uma diferença incalculável no tempo que se apagava diante da minha borracha exausta porque

… nunca aprendi nada em matemática.

ainda que

o Senhor Mário, com uma vida longuíssima, com tempo de sobra para futebol e matemática. Equações, talvez. Não sei dizer. Mas isto sou eu a fazer contas ao tempo e contas não é comigo. Acho…

um risco

muito pouco tempo

E o senhor Mário com uma vida longuíssima. Admiradíssimo, como eu em relação aos exercícios que ele conseguia estender ao longo da folha, numa sequência interminável de confusão, um caos a expandir-se no universo da folha, como a massa dos rissóis da minha tia Adelaide.

Acho que a minha tia Adelaide fazia rissóis. Não sei dizer. Acho que nunca…

Colocar números e letras à sorte na folha também eu sou capaz de fazer, na mesma lógica de raciocínio que a minha avó em relação às cantoras de ópera ou do meu avô em relação aos quadros do Picasso.

Aquilo também eu sou capaz de fazer.

- Eh pá, que linha tão direitinha! - admiradíssimo

de cigarro na boca

para quê tirar o cigarro

- Faz lá outra. - expectante. Como se estivesse de repente diante de um génio.

- Faz lá outra.

numa inversão de papéis

e eu a fazer outra, igualmente direita

igualmente

- Eh pá! - envolto no fumo do cigarro, de olhos pequeninos, talvez porque o fumo do tabaco

e os exercícios a ficarem por ali, porque algo mais interessante

- Eh pá!

do que

equações, talvez. Não sei dizer. Acho que nunca aprendi nada em matemática.

porque algo mais interessante

linhas direitas; um risco, furioso, frustrado, para separar os exercícios

equações

e eu a entusiasmar-me e a fazer mais uma e outra enquanto

- Eh pá!

uma e outra, até que

a limonada da dona Helena

- Limonada para os meninos! - doce, apesar do limão. Doce porque a voz da dona Helena

- Limonada para os meninos!

porque a voz da dona Helena a tratar-me por você. Sempre por você, ainda que eu apenas treze anos

sempre

- Tome. - de copo na mão, de limonada

doce

sempre por você, apesar do limão

ainda para mais agora que eu era um génio do traço

- Tome!

como se dissesse

- Senhor

E eu a responder com um traço

não com um obrigado

apenas um traço em jeito de autografo para a posteridade.

Com o senhor Mário

- Ó Helena, olha lá para isto. Este gajo é fantástico!

embora a dona Helena sempre

você

apesar de

- Este gajo… - ou do limão.

- Nunca consegui fazer uma linha tão direita na vida! - até ao fundo do copo

até amanhã

até ao saltar do muro para o meu quintal… muro que parecia agora não ter mais de um palmo de altura, porque eu

- …fantástico!

- … tão direitas…

a esquecer-me do futebol, da matemática; a sentar-me na mesa da sala a replicar os exercícios, um atrás do outro, até a minha avó

- Anda lanchar.

não você

- Anda lanchar.

agora que eu era um génio do traço

não você

somente

- Anda lanchar.

e eu

- Já vou. Estou a acabar uns exercícios. - e nada era mentira. Uma folha, cinco, sete, cheias de linhas

- … tão direitas…

já não frustrados, porque eu

- …fantástico!

porque a minha vocação… descoberta.

Passaria a vida a fazer riscos direitos e não precisaria de matemática para nada, nem do futebol. Pois há tanta ciência num risco direito, como no cálculo de integrais, ou o senhor Mário nunca teria dito

- “Este gajo é fantástico!”

Wednesday, August 02, 2006

Só quem ama…

- Conta-me uma história de encantar!

E uma história a surgir da tua boca, amorosa, para mim.

Uma história, e não

- Uma história?!

ou

- Que história é que queres que te conte?

como um

- Se tem mesmo de ser! - silencioso

mas apenas

- Era uma vez…

… amorosa, para mim.

A encantar-me.

- Era uma vez…

…da tua boca…

porque todas as histórias começam assim, ou não seria histórias de encantar, como as que

- Há muito, muito tempo…

E uma história a surgir da tua boca, amorosa…

Simplesmente porque eu

…

A encantar-me.

Tudo era simples no tempo em que eu

- Conta-me uma história de encantar!

e tu ma contavas tão simplesmente.

…amorosa…

Não era submissão, como os submissos poderiam julgar, mas amor. Só quem ama conta histórias de encantar quando

- Conta-me uma história…

Quem é submisso conta carneiros - eventualmente em forma de histórias - para entreter o tempo, para encantar o sono.

Não amaria Scheherazade o rei Shahryar?

Se não amasse ter-lhe ia contado carneiros - eventualmente em forma de histórias - para entreter o tempo, para…

carneiros

mas não histórias. Só quem ama conta histórias de encantar.

- Era uma vez…

não

- Há muito, muito tempo…

- …uma vez…

A nossa vez

A vez em eu te dizia

- Fica nua, que te quero demasiado!

E a roupa a cair-te aos pés, sobrando, num sorriso dado, e não

- Fico nua?!

ou

- Assim, sem mais nem menos?!

como um

- Se tem mesmo de ser! - silencioso

mas apenas

… a roupa a cair-te aos pés… num sorriso

Porque eu te queria, demasiado, e nada mais importava que tal. A roupa a cair-te aos pés, sobrando

e tu na minha direcção

num sorriso dado

Tudo era simples no tempo em que eu

- Fica nua...

não por submissão, como os submissos poderiam julgar, mas por amor. Só quem ama se despe quando

- Fica nua, que te quero demasiado!

Quem é submisso tira a roupa - eventualmente em forma de ficar nu - para seduzir o tempo, para encantar o sono.

Não amaria Scheherazade o rei Shahryar?

Se não amasse teria tirado a roupa - eventualmente em forma ficar nua - para seduzir o tempo, para…

mas não nua. Só quem ama fica nu. Tudo o mais é conversa. Única e exclusivamente conversa.

Nada disto é compreensível. Nada! Rigorosamente nada. E nada disto é explicável. Nada! Rigorosamente nada.

- Aninha-te, que quero ir-me!

E o teu corpo a moldar-se à forma natural, para mim, e não

- Aninho-me?!

ou

- Como assim?

como um

- Se tem mesmo de ser! - silencioso

mas apenas

a descobrir a nuca ansiosa,

suada,

Subindo os rins,

sem palavras (em silêncio).

Tu sabes,

fêmea amestrada pelo instinto!

Esticando os dedos até ao limite de si.

Até ao limite;

mesmo até ao limite.

Suspirando,

surpreendendo-se.

Inspirando fundo e prendendo-me o cheiro dentro de si…

libertando-o,

devagar,

devagar,

devagar…

Abandonando-se num gemido e arrepanhando o leito como um gatinho a mamar.

Derretendo-se!

Tudo era simples no tempo em que eu

- Aninha-te!

não por submissão, como os submissos poderiam julgar, mas por amor. Só quem ama se aninha quando

- Aninha-te que quero ir-me!

Quem é submisso ajoelha-se - eventualmente em forma de aninho - para rezar ao tempo, para adorar o sono.

Não amaria Scheherazade o rei Shahryar?

Se não amasse ter-se-ia ajoelhado - eventualmente em forma de aninho - para rezar ao tempo, para…

mas não aninhado. Só quem ama se aninha quando

…

…nada disto é explicável. Nada! Rigorosamente nada.