Sunday, November 25, 2007

Nostalgia ou Saudade

Tenho a nítida imagem da última vez que aqui estive, quando tudo era tão diferente. Ali ao fundo, junto à janela que dava para o mar, a mais castigada de todas, uma pequena mesa de metal branco

horrível

tão bonita agora

com três cadeiras ao redor, ainda que desse para quatro, mas

- Não se viram as costas ao mar.

na voz tranquila do meu avô que, apesar de nunca ter sido pescador, tinha com o mar

- … uma relação muito íntima.

Na cozinha, sobre o poial de mármore manchado, a memória de uma galinha sem penas nas mãos sem pena da minha avó, e eu…

eu a passar para o quintal com uma retroescavadora de plástico na mão, para ir fazer obras importantíssimas nos canteiros do jardim

eu a passar, com os olhos na mão desocupada, para não ver a galinha adormecida,

não morta

adormecida, apenas

de cabeça à banda

(como o meu avô ao final da noite diante do televisor bicromático)

mas ainda assim

apesar de adormecida, apenas

olhos na mão desocupada

talvez para não me verem sair para o quintal com uma retroescavadora de plástico na mão, para ir fazer obras importantíssimas nos canteiros do jardim

ou talvez apenas para não ver a minha avó de avental cheio de penas, sem pena de mim, por uma orelha

- Quantas vezes é que eu já te avisei que não te quero a esburacar-me os canteiros, hã?

e as minhas orelhas a crescerem, como que para a ouvir melhor

- …hã?

Um hã apenas permitido na sua voz aflautada, porque quando eu

- Hã?

- Diga, se faz favor!

E não, hã, como quando

- Quantas vezes é que eu já te avisei…

Tenho a nítida imagem da última vez que aqui estive, quando tudo era tão diferente

enorme

casa, corredores, canteiros

onde obras importantíssimas…

Ali ao fundo, junto à mesa que dava para o meu avô, o mais castigado de todos, uma janela de metal branco, bonita

tão horrível agora

com quatro cadeiras pequenas, ainda que desse para três, ao redor do mar

com o qual o meu avô

- … uma relação muito íntima.

Apenas os três. Às vezes também o senhor Luís

Capitão-de-mar-e-guerra

(para quem se ajeitava a mesa de outra forma, pois

- Não se viram as costas ao mar.)

um companheiro de armas do meu avô numa qualquer guerra na Índia que ali tinha casa perto.

- Comprámo-las em bom tempo, ó Seixas! - o senhor Luís

um companheiro de Índias, numa qualquer casa do meu avô, que ali tinha armas perto.

E as noites quentes a desenrolarem-se em fios de suor, contornando a barriga do Contra-Almirante Alfredo Seixas que

- Este calor dá cabo da gente!

- Apre! - o senhor Luís, que nunca tirava a camisola de alças, branca, com furinhos

porque a minha avó ali presente

ainda que isto não se dissesse.

porque a minha avó uma mulher de respeito

porque a minha avó

- Só conheci um homem na vida!

e apesar de junto ao mar, não na praia, apenas junto ao mar

não se haveria de tirar a camisola de alças

branca

com furinhos

porque a minha avó... uma mulher de respeito; com uma galinha numa mão e uma orelha de seis anos na outra a perguntar

- …ãh?

E as noites quentes a desenrolarem-se em histórias de vasos de guerra e vazas de bisca sobre o pequeno mar de metal branco

horrível

tão bonito agora

que não sei a quem pertence. Mas a quem pertença, não pertence mais que a mim pertence. De modo que me sinto no direito de entrar pela casa adentro

sem licença, nem meia licença

direitinho à pequena saleta que dá para o mar, e dar dois berros, bem alto, de forma a estremunhar o meu avô lá em cima no céu, que

- Não se viram as costas ao mar!

e enchê-lo de orgulho em mim, a dar um toque de cotovelo ao Almirante-Mor para dizer

- É o meu neto!

orgulhoso

e se Deus

- …ãh?

- … o meu neto!

a repetir mais alto

porque se fosse a minha avó

apesar de Deus

- Diga, se faz favor!

Mas Deus não anda a dormir e por isso a deixá-la no cemitério da Leiria, que quem mata galinhas não vai para o céu, e a Ele não haveria ela de puxar as orelhas.

De modo que me sinto no direito de entrar pela casa adentro

sem licença, nem meia licença

direitinho ao quarto, ao intervalo entre o armário e a parede a borbulhar caliça

porque a maresia não perdoa

onde uma caixinha de latão, de caramelos ingleses, cheia de cromos de futebol, caricas e conchinas do mar. Um tesouro de pirata.

- É um pirata este gajo.

no dizer do senhor Luís

Capitão-de-mar-e-guerra

quando eu me saía

- …com cada uma que até parecem duas!

arrancando gargalhadas satisfeitas àqueles dois, sem entender, ainda hoje, como nem porquê.

Mas apesar de

no direito de entrar pela casa adentro

sem licença, nem meia licença

a ficar por ali, sentado no muro que dava para praia, para a estrada, para o passado, para a história de São Pedro de Muel; não obstante a vontade de entrar, de ir direitinho ao gaiato que esburaca um dos canteiros à procura de um tesouro que há muitos anos lá deixei enterrado, e levá-lo por uma orelha ao cemitério de Leiria, à presença da dona Filomena, para que ela

- Quantas vezes é que eu já te avisei que não te quero a esburacar-me os canteiros, hã?

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